Luta pelo autocontrole

Na academia, Mauro Celso, o He-Man (ao centro), exercita noções de limites e disciplina

Luta pelo autocontrole
O apelo da luta promovida em 7 de julho, em Las Vegas (EUA), entre Anderson Silva, brasileiro conhecido nos Estados Unidos como “Spider” (Aranha), e o norte americano Chael Sonnen, mostrou como o Mixed Martial Arts (MMA) se transformou em evento de grande interesse do público no Brasil. Graças ao jeito falastrão e mal educado do americano, que proferiu publicamente insultos a Anderson Silva e ao povo brasileiro, a vitória de Spider foi o principal assunto, na semana seguinte, em noticiários esportivos, redes sociais e rodas de conversa.
 
Em 12 de março deste ano, com o apoio do ministro do Esporte, Aldo Rebelo, já havia sido criada a Confederação Brasileira de Mixed Martial Arts (CBMMA), entidade cujo objetivo é regulamentar a modalidade, visando, no futuro, sua inclusão nos Jogos Olímpicos. No MMA, o domínio de técnicas de esportes como judô, jiu-jitsu e muay thai são primordiais para qualificar o lutador.
 
Mesmo com tanta badalação em torno do esporte e dos atletas brasileiros, há no país quem acredite que o espírito esportivo não seja a essência do MMA. O ex-campeão mundial de boxe Adílson Maguila Rodrigues, em entrevista recente a uma emissora de TV, causou polêmica ao afirmar que o evento “não passa de briga, por ser violento e não envolver técnica”.
 
Na tentativa de derrubar essa tese, os atletas asseguram que as artes marciais são utilizadas, na maioria das vezes, como mecanismo de autocontrole. É o caso do mestre em artes marciais Mauro Celso Santiago, 29, o “He-Man”, belo-horizontino praticante de MMA e detentor de uma coleção de títulos no jiu-jitsu, modalidade pela qual foi vice-campeão mundial em mais de uma oportunidade. Ele é especialista, também, em muay thai e wrestling. Atualmente, He-Man integra a lista dos dez mais importantes lutadores de MMA do país. Participante do evento desde o ano passado — tardiamente, de acordo com ele, devido à falta de incentivos —, já se sagrou campeão estadual.
 
Apesar do status de lutador de primeira linha, Mauro diz que o grande benefício obtido por meio das artes marciais foi sua transformação em uma pessoa mais tranquila e segura de si. Também por meio do esporte, ele diz ter alcançado grandes oportunidades profissionais e credibilidade junto às pessoas. “Atletas que praticam artes marciais não saem por aí batendo nos outros. No quesito status, com certeza, nos olham diferente por sermos do MMA. Por um lado é bom o respeito e a admiração, mas ainda tem gente que acha que somos cachorros de briga. Particularmente, não me incomodo com isso”, diz o lutador.
 
Os valores que aprendeu por meio das artes marciais, como disciplina e autocontrole, ele quer transmitir ao filho João Eduardo, de seis anos. Há seis meses o menino treina judô e, a cada dia, melhora o rendimento. O jiu-jitsu deve ser o próximo passo, segundo o pai. Apesar do amor pelo esporte, Mauro diz que fará questão de respeitar a autonomia do filho quando chegar a hora de escolher uma profissão.
 
 A mesma harmonia entre pai e filho ocorre com Lucas de Almeida, de oito anos, e o pai Hagner de Almeida Barbosa, de 39. O empresário itabirano, com vasta experiência internacional no MMA — passou 11 anos nos EUA se dedicando às modalidades esportivas do evento —, pode ser visto treinando com o filho em academias de Itabira pelo menos três vezes por semana.
 
De acordo com Hagner, atribuir o rótulo “violência” às lutas é algo sem sentido, pois os atletas são preparados para receber e aplicar os golpes. O principal fator comportamental, de acordo com o lutador, é a forma como os mestres conduzem os alunos. “Professores mal preparados podem induzir o atleta, muito autoconfiante, a achar que pode sair para a rua e brigar com as pessoas. Já identificamos sua intenção na forma como ele nos procura. Alguns alunos já entram querendo que eu ensine, de cara, estrangulamento e chave de joelho. Neste caso, a primeira coisa que trabalho é o autocontrole”, explica.
 
A conduta de Hagner é a ideal para um professor, de acordo com a psicóloga Paloma Bianca Filgueira Tôrres. A prática de esportes, segundo Paloma, imprime limites, regras, além da disciplina e, no caso das artes marciais, ensina a respeitar os limites do corpo e a exercer a liderança. “O pensamento do professor é parte fundamental para que não se forme lutadores de rua e não faça os alunos pensarem que são super-heróis. A escolha do tipo de atividade física deve ser feita de acordo com o temperamento do atleta”, explica Paloma.
 
Vida paralela
A psicóloga assegura que praticar esportes é benéfico, também, pelo fato de o corpo precisar se movimentar. O resultado é, normalmente, o alcance de melhores condições na convivência do indivíduo com outras pessoas, ou seja, melhor interação social. Para os especialistas, a liberação de endorfina, substância neurotransmissora produzida pelo cérebro após atividades físicas, promove bem-estar e funciona como um “analgésico natural”.
 
No caso do empresário e lutador de judô e jiu-jitsu itabirano Leonardo Couto Pinheiro e Neves, 38, a sensação mais nítida descrita por ele é a melhora da condição orgânica como um todo. Leonardo divide a empolgação pelas artes marciais com o trabalho na corretora de seguros da qual é proprietário. Com 1,80 de altura e 110 kgs, pode provocar receio de se chegar perto. Mas quem conhece o desportista sabe que ele evita perder o controle a todo custo. Por isso, conquistou o respeito de clientes e admiração dos amigos.
 
A brutalidade comumente associada às artes marciais é algo que não faz parte da realidade, de acordo com o empresário lutador. “A relação do MMA com intolerância é apenas uma carapaça. Posso assegurar que as sequelas do esporte são menores do que as do boxe, por exemplo”, afirma Leonardo.
 
Mesmo depois de ter um tornozelo quebrado, alguns dedos do pé trincados, luxações nos ombros e dedos, ele prefere relembrar os títulos. Campeão Sul-americano, Mineiro e Municipal de judô, Leonardo acrescentou o jiu-jitsu como modalidade complementar por sentir que ainda podia se aperfeiçoar. “As artes marciais só nos fazem crescer, pois nos imprimem perseverança, disciplina e proatividade. Não foi por causa da luta em si que me machuquei. Foi por erros cometidos por mim mesmo. Não foi consequência do esporte”, revela o lutador.
 
Somando mais de 350 lutas no currículo, Leonardo fez parte das seleções Mineira e Brasileira de Judô, entre 1990 e 1996, em diversas competições. Como 4º judoca do ranking nacional, faltou pouco para que participasse dos Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. 
 
Embora tenha acumulado experiência, como todo artista marcial, sabe que é na primeira aula que se aprende a lição de equilíbrio que cada um leva como valor para a vida toda: após a queda, é preciso levantar.