Alfabetização: um desafio a ser vencido

Geraldo costumava ficar perdido na empresa em que trabalhava por não entender o que diziam
as placas de localização

Alfabetização: um desafio a ser vencido
No Brasil, um dos maiores desafios é tornar eficazes as políticas públicas que visam modernizar e tornar o ensino público acessível a todos os cidadãos. Mas, ao longo dos anos, a realidade não inspira muita esperança aos brasileiros.
 
Ainda há quem sofra para conhecer as letras do alfabeto. Esse é um constante desafio para o ajudante de pedreiro Geraldo Ferreira Rocha, de 40 anos, morador do bairro Cidade Nova, em João Monlevade. Há seis meses, ele faz parte da turma de nível inicial do programa Educação de Jovens e Adultos (EJA), na Escola Municipal Cônego José Higino de Freitas, no bairro Aclimação. A falta de estudo o atrapalhou no desenvolvimento de suas funções nas empresas em que atuou. “Não entendia as placas e ficava perdido nos locais em que trabalhava, sem saber como chegar rápido onde precisava ir”, conta.
 
Geraldo, por tempos, andou triste pela sua condição, mas agora alimenta a esperança de aprender a ler e a escrever. Segundo o ajudante, os momentos ociosos dos domingos são destinados às tarefas em seu caderno, já considerado por ele um fiel amigo. “Quero ler e ter um trabalho melhor”, sonha. Cidadão de hábitos e maneira simples de se comunicar, o ajudante de pedreiro diz já estar bem consciente da mudança que a capacidade de ler pode proporcionar na vida das pessoas.
 
Recomeço difícil
 
A baiana Juscemeire de Jesus Xavier Guimarães, 31, precisou deixar os estudos aos 18 anos, época em que engravidou. Cursou somente até a 8ª série, por ter preferido sacrificar alguns objetivos de vida para cuidar exclusivamente da filha Bernadete de Lourdes. O marido, Lourdesmar Oliveira Guimarães, 30, ficou responsável pelo sustento da família.
 
Em 2007, em busca de melhores condições de vida, a família se mudou para Nova Era, onde Juscemeire encontrou a chance de trabalhar como secretária. “Depois disso senti necessidade de voltar a estudar. Perdi muitas oportunidades de ter empregos melhores porque interrompi os estudos”, lembra.
 
Em 2009, ela matriculou-se no EJA, na Escola Estadual Nossa Senhora de Fátima, na nova cidade em que escolheram para morar. No final deste ano concluirá o Ensino Médio, mas o ganho maior, segundo ela, foi perceber que o estudo vem ajudando a melhorar o vocabulário e compreender melhor a sociedade.
 
A filha Bernadete, hoje com 12 anos, também nota os resultados. “Antes, ela tinha dificuldade para me ajudar com os deveres de casa. Agora, me explica tudo e quando estou em época de provas, senta comigo para estudar”, diz. O próximo passo da secretária é se preparar para ingressar numa faculdade de Administração. Mas o sonho deve esperar um pouco mais. Como mãe que se preze, dá preferência para a filha, cuja idade e série que cursa estão de acordo com a normalidade.
 
Números e ações
 
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a taxa de analfabetismo total da população é de 9,7%. São 14,1 milhões de habitantes analfabetos, com 15 anos de idade ou mais. A taxa de analfabetismo funcional é ainda maior, 20,3% — esta se refere às pessoas que, mesmo com a capacidade de decodificar as letras, frases, sentenças, textos curtos e números, não desenvolvem a habilidade de interpretação ou só conseguem extrair informações dispersas, sem apresentar uma conclusão do contéudo.
 
Minas Gerais ocupa a 10ª posição entre os estados, com 7,6% de analfabetos. De acordo com a diretora da Superintendência Regional de Ensino de Nova Era (SRE Nova Era), Regina Maria Pimentel de Caux, os resultados têm apresentado melhoras históricas.
 
A Secretaria de Estado de Educação (SEE-MG) realiza, segundo a diretora, importantes ações com foco nos anos iniciais do Ensino Fundamental, para que todas as crianças sejam alfabetizadas até, no máximo, oito anos de idade, condição básica para o sucesso na vida escolar.
 
Para a educadora, houve melhorias significativas do desempenho dos alunos da rede pública a partir da ampliação da duração do Ensino Fundamental de oito para nove anos em todo o estado. Desde 2004, o ingresso nas escolas da rede pública passou a ser feito aos seis anos, o que culminou em mais tempo dedicado à alfabetização.
 
Uma das maiores preocupações da SEE, ainda segundo a diretora, é quanto a evasão escolar, fator que contribui historicamente com o analfabetismo. “E, neste sentido, tem sido importantíssimo o trabalho dos educadores, dos pais, dos Conselhos Tutelares e da Promotoria Pública para garantirmos a presença dos alunos na escola”, avalia a diretora.
 
De acordo com Regina, a SRE de Nova Era atua com o Programa de Intervenção Pedagógica (PIP), de iniciativa da SEE-MG, que tem desenvolvido inúmeras ações e intervenções para melhorar a qualidade do ensino, envolvendo toda a comunidade escolar. Já a rede estadual tem atenções voltadas para os anos finais do ensinos Fundamental e Médio. “Como ações, nós temos ampliado a oferta de EJA nas escolas estaduais dos 15 municípios jurisdicionados a esta superintendência. Temos também o Centro Estadual de Educação Continuada (Cesec) em várias cidades da região”, lembra a diretora.
 
A SEE-MG assumiu a responsabilidade de certificar os alunos que realizaram o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e o Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (Encceja) — uma avaliação voluntária e gratuita ofertada às pessoas que não tiveram a oportunidade de concluir os estudos em idade apropriada para aferir competências, habilidades e saberes adquiridos tanto no processo escolar quanto no extraescolar —, ambos do Governo Federal. “Em nossa jurisdição, a responsabilidade de certificação ficou a cargo da Escola Estadual Nossa Senhora de Fátima, em Nova Era”, explica.
 
Analfabetismo x Desenvolvimento
 
O analfabetismo pode interferir no desenvolvimento de um país de forma nefasta. Essa é a opinião do Cientista Social e professor da Unifei-Itabira Milton José Zamboni. Para o acadêmico, a grande dificuldade que o Brasil enfrenta hoje são os equívocos ao considerar um indivíduo alfabetizado. “Não basta escrever e ler o próprio nome, haja vista a confusão envolvendo um deputado comediante e sua capacidade cognitiva. Pena que tudo vire piada de mau gosto. Vivemos uma aberração e uma crise de valores”, denuncia o professor, referindo-se ao comediante Everaldo Oliveira Silva, Tiririca, eleito deputado Federal por São Paulo nas últimas eleições e, atualmente, membro da Comissão de Educação da Câmara dos Deputados.
 
De acordo com Zamboni, o Brasil, na prática, não tem obtido bons resultados na luta contra o analfabetismo. “Teria que ser feita uma leitura mais aprofundada dos dados apresentados pelo governo. Eles são uma maquiagem numérica pela qual se quantifica os indivíduos, ao invés de qualificá-los”, critica o professor. “Não temos a real dimensão do problema, considerando números que servem para manter o financiamento de uma educação voltada para a exclusão social. Não adianta falar em avaliações inteligentes se não formamos pessoas capazes em fazê-las”, complementa.
 
O filósofo Gilberto Alves Rodrigues, professor da Fundação Comunitária Educacional e Cultural de João Monlevade (Funcec), entende que o processo de alfabetização deveria possibilitar o desenvolvimento da cidadania, com maior participação política, voltado para o desenvolvimento de consciência crítica. “Isso não acontece. Há uma semente ideológica neoliberal que acompanha a formação educacional do brasileiro, cristalizando o individualismo e o consumismo”, diz o professor.%uF020%uF020
 
A análise pura dos números induz a constatar que houve avanços, resultado de políticas voltadas para melhorar os níveis de alfabetização no país. Contudo, os mesmos números mostram que ainda há muito o que progredir. O passo mais importante, talvez, seja reconhecer a educação como maior instrumento de transformação da sociedade.%uF020%uF020%uF020