Trio da longevidade
Chegar aos cem anos é o sonho de muita gente. Porém, a tarefa não é lá muito fácil. De acordo com dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida do brasileiro é de 73,5 anos. Mas na terra do minério, três centenárias que vivem no Lar de Ozanam provam […]
Chegar aos cem anos é o sonho de muita gente. Porém, a tarefa não é lá muito fácil. De acordo com dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a expectativa de vida do brasileiro é de 73,5 anos. Mas na terra do minério, três centenárias que vivem no Lar de Ozanam provam ser possível viver acima das expectativas, e bem.
Uma delas é Agripina Lourenço de Jesus. Nascida em Itambé do Mato Dentro, em 20 de julho de 1910, aos 101 anos está sempre sorrindo, dançando e mandando beijos para todos que cruzam seu caminho. Por ser surda e muda, quem conta sua história é o diretor voluntário da entidade, João Bosco das Mercês.
Segundo João Bosco, as origens de Agripina são um pouco obscuras. Pelos registros da entidade, ela chegou ao Lar de Ozanam quando este era ainda Abrigo São Vicente de Paulo, no bairro Penha. “O primeiro cadastro data de 16 de dezembro de 1973. Porém, ela já estava no abrigo 19 anos antes, desde 1954”, diz o diretor.
Em 1992, uma avaliação feita pela entidade, apontou para uma possível explicação sobre seus problemas físicos. “Sabe-se, somente, que a deficiência auditiva pode ter sido provocada ou acentuada por complicações no parto”, explica João Bosco.
Um fato que alimentou a esperança de conhecer mais informações sobre a vida de dona Agripina foi a descoberta de uma neta, em 1995. Mas, segundo o diretor do Lar de Ozanan, ela tinha problemas psiquiátricos e acabou desaparecendo sem dar explicações. Mas nem isso tirou a alegria de viver de uma das moradoras mais queridas da instituição. Com energia de quem não consegue ficar parada por muito tempo, ela expõe sua simpatia. “Dona Agripina tem um bom relacionamento com todos aqui e, além de tudo, não tem nenhum problema de saúde”, comemora João Bosco.
Casamento na terceira idade
Ana Delfina de Jesus, a Anita, é outra que já completou um século de vida. Vaidosa, com seu esmalte pink, narra alguns fatos da vida sempre de forma bem humorada. Nascida em Santa Rita das Pacas,zona rural de São Gonçalo do Rio Abaixo, ela lembra dos tempos em que trabalhou, por vários anos, na também centenária Fábrica de Tecidos Gabiroba.
Ela também lembra com saudade do seu casamento, aos 65 anos. “Durou 17 anos”, diz ela. Lúcida e ainda ostentando a aliança, Anita fala em detalhes como aconteceu o casamento. “Fui namorada do meu ex marido, quando nova. Mas ele se casou com uma pessoa que se tornou minha amiga. Ela mesma falava que quando morresse, eu poderia me casar com ele. Dito e feito: acabei me casando com ele mesmo”, relembra.
Porém, com o falecimento do marido, ela foi morar no Lar de Ozanam, onde já vivia uma irmã, também já falecida. Da relação, ela herdou o carinho dos parentes do marido, com quem costuma passear e viajar. Uma debilidade nas pernas causada por uma queda não a impede de pegar a estrada. “Recentemente, fui a um casamento em Santa Bárbara com meu sobrinho”, conta, satisfeita.
Católica fervorosa, Anita atribui a Deus sua longevidade “Estou muito feliz aqui. Tem gente que fala que foi esquecida por Deus na terra. Eu digo: Deus se esqueceu de mim mesmo”, conclui, às gargalhadas.
Vovó que sabe o que quer
Em março, Maria Longuinha da Costa fará 101 anos. É uma viúva de personalidade forte. Foi morar no Lar de Ozanam em 2003, quando a filha com quem morava junto fraturou a perna e não teve mais condições de cuidar da mãe.
Longuinha simplesmente bateu às portas da entidade e, por vontade própria, quis ali se estabelecer. Ela lembra que tem três filhas e um filho, mas, quando se pergunta sobre os netos, Longinha não se lembra quantos são, mesmo sendo todos muito queridos. Exige apenas uma coisa: “Que os meus netos venham me visitar, pelo menos uma vez por mês”.
Vinda de Santa Maria de Itabira, Longinha já foi de doméstica a vendedora. Religiosa e com uma cabeça boa, debulha o terço pedindo graças aos amigos e entes queridos. Às sextas-feiras é de praxe participar da Missa do Lar de Ozanam. Sobre morar no abrigo, ela diz com fervor: ”Gosto muito daqui. Todos me tratam muito bem e o carinho é muito grande”.