Natural de Santa Maria de Itabira, ainda nos anos 40, quando menino, ele se lembra de ver o pai trabalhando como escravo em uma fazenda no Cedro. A família devia na época 60 mirreis ao dono da fazenda. Sexta-feira conta que o pai dormia ao relento, fizesse sol ou chuva, para olhar os cavalos do fazendeiro, para que não fugissem.
Casado e pai de duas filhas, Sexta-feira conta que antes de chegar a Itabira, em 1960, trabalhava na roça, capinando, plantando, tirando leite. Lá, sonhava apenas em conseguir um emprego de “carteira assinada”, independente em que ocupação fosse.
O objetivo em melhorar as condições de vida foi crescendo proporcionalmente à vontade de trabalhar. Começou como servente de pedreiro. Muito ligado às datas, como ele faz questão de frisar, tirou a carteira de habilitação em 24 de maio de 1964, o que lhe rendeu um trabalho como motorista na Prefeitura.
Depois, pela Vale, foi operador de máquinas pesadas e motorista, viajando por mais de 30 cidades. Com uma memória invejável, ele cita uma a uma, todas as cidades em que viajou a trabalho, inclusive nos estados da Bahia e Espírito Santo, sempre dirigindo. “Já fui para Conceição do Mato Dentro; São Gonçalo; Morro do Pilar; Abre Campo; Carmo de Minas…”, enumera rapidamente todas elas. Em 1990, se aposentou.
Uma rasteira na preguiça
Com disposição e energia de um menino, Sexta-feira levanta todos os dias entre as 4 e 5 horas da manhã, independente do horário em que se deitou (fruto dos anos de trabalho na roça) e vai para o ponto de táxi. Deixa o carro na Rodoviária e faz uma caminhada pela João Pinheiro; ritual sagrado para ele. “Depois volto para o ponto e estou pronto para começar o trabalho”, diz, orgulhoso.
Mas engana-se quem pensa que rotina o impede do convívio familiar. Todo domingo, seu único dia de descanso, ele se dedica à fé, participando da Missa e curtindo a família. O taxista, que diz beber apenas socialmente, sempre tem uma pinga, “da boa”, como faz questão de frisar, para receber os amigos. Para ele, é uma forma de agrado.
“Só de vez em quando eu tomo umas, mas é só para reunir com os amigos”, diz, sorridente. Sexta-feira ainda tem fôlego para viajar para o sítio da família, andar a cavalo e tocar a criação. “Ano passado, por três dias fui a cavalo, acompanhando uma cavalgada, de Itabira até Conceição do Mato Dentro. Mas fizemos algumas pequenas paradas”.
Receita para fazer amizades: Bom-humor
Muito bem humorado, ele não faz nenhuma questão de se lembrar do tempo em que via seu pai em regime de escravidão. Em suas corridas já fez inúmeros amigos e dá boas gargalhadas com os passageiros. Em resposta a tanta alegria de viver, ele revela o motivo de seu constante bom humor. “A vida para mim, graças a Deus é muito boa, pois não tenho inimigo. Até com policial eu brinco. Gosto demais da minha profissão”, revela ele, destacando que todos os sonhos da época em que estava na roça foram alcançados. “Tudo que pensei ter, hoje eu tenho. Um trabalho que eu gosto, minha casa, minha família. Desejo que todo mundo seja feliz”. Para ele, essa é a verdadeira receita da felicidade.