A Copa dos mineiros

Experiência na iniciativa privada e na gestão pública auxilia Sérgio Barroso na direção da Secopa

A Copa dos mineiros
Quando aceitou o desafio de assumir a Secretaria de Estado Extraordinária da Copa do Mundo (Secopa), em janeiro de 2011, o economista Sérgio Barroso, mineiro de Cipotânea, Zona da Mata, trazia consigo experiência o suficiente para assegurar ao governador Anastasia que Minas Gerais não só conseguiria cumprir os prazos estipulados pela Fifa, entidade máxima do futebol no mundo, como deixaria o estado apto a realizar a abertura do Mundial. Em tese, é o que parece que vai mesmo acontecer, a considerar-se o cumprimento do cronograma das obras nos estádios e demais investimentos em infraestrutura que estão sendo realizados em Minas Gerais.
 
Apesar de demonstrar cautela sobre a possibilidade de a abertura da Copa do Mundo de 2014 ser realizada em Belo Horizonte, o secretário se mostra confiante. Antes de assumir a Secopa, Barroso havia acumulado experiências importantes na iniciativa privada e na esfera pública. Integrou quadros gerenciais na Light, na Bungue e, durante 34 anos, dedicou-se à multinacional Cargill. Em Minas Gerais, colaborou como secretário de Desenvolvimento Econômico, no governo Aécio Neves, e conselheiro e diretor em empresas públicas de importância estratégica, como a Companhia Energética de Minas Gerais (Cemig) e a Companhia de Desenvolvimento Econômico de Minas Gerais (Codemig). Foi também vice-presidente do Conselho do Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG) e presidente do Conselho do Instituto de Desenvolvimento Integrado (Indi).
 
Barroso é Mestre em Economia Internacional pela Universidade de Boston (EUA), com especialização em Administração de Empresas pela Universidade de Michigan (EUA), Gerenciamento Executivo pela Universidade de Columbia (EUA) e Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP).
 
Em entrevista a DeFato, o secretário esclarece que o maior ganho que a Copa do Mundo no Brasil pode oferecer às cidades é, sem dúvida, a oportunidade de geração de negócios e o legado de obras e investimentos em infraestrutura exigidos para realização do Mundial. Mais detalhes sobre esse e outros assuntos a seguir.
 
Quais são os requisitos para que cidades situadas fora da RMBH participem efetivamente como sede da Copa do Mundo de 2014?
 
Existe hoje uma orientação da Fifa para que todas as cidades que não tenham sido escolhidas como cidades sede e que tenham interesse em participar como Centro de Treinamento de Seleções (CTS), também entendidas como subsedes, atendam a três requisitos básicos: O primeiro é ter um aeroporto próximos, com capacidade de receber aeronaves com o número de 120 passageiros para cima, com toda infraestrutura de balizamento, da pista, do pátio, e, evidentemente, um terminal que possa fazer entrada e saída de passageiros. Outro item de fundamental importância é o hotel. A Fifa exige pelo menos um hotel com o mínimo de 55 apartamentos, para que uma seleção possa se estabelecer e ficar ali alguns dias. Esse hotel também tem que ter um restaurante de nível internacional, que proporcione alimentação completa e, obviamente, terá que existir áreas de musculação e lazer para os atletas. E, por fim, é claro, tem que ter um centro de treinamento. Um campo que seja adequado aos tamanhos e padrões da Fifa e que, dentro dessa estrutura, tenha também outros elementos, como piscinas e áreas de lazer.
 
Acho que todas as cidades mineiras que atendam a essas condições, ou que puderem tê-las até a Copa do Mundo, com um plano bem estruturado, poderão se candidatar. Todas as cidades estão em condições de competir, umas em melhores condições, outras não, e algumas com tantas dificuldades que até declinam em buscar a participação. Essa candidatura se faz por meio de um contato aqui com a Secopa e nós procuramos inserir essa cidade como candidata a subsede junto à Fifa. Existem as janelas, períodos, em que a Fifa permite com que as cidades se inscrevam. Mas nesse momento isso está suspenso. Esperamos que até janeiro esses trabalhos retornem, oferecendo a oportunidade para as cidades interessadas e que sejam aptas a ser subsede da Copa do Mundo.
 
Em relação aos recursos necessários para viabilizar a Copa de 2014, qual é o montante e como serão aplicados?
 
Na verdade, não existe um montante específico. A cidade que queira ver-se candidata a subsede, primeiro, tem que se posicionar, comunicar que quer participar. É um esforço grande. A sociedade local, o Executivo Municipal, a Câmara de Vereadores, é que têm que tomar esse posicionamento para determinar o seguinte: nós queremos lutar e trabalhar para ser uma das candidatas a subsede. Para isso, obviamente, o poder público precisa compreender quais são os requisitos mínimos e, a partir daí, começar a fazer um trabalho planejando como executar esse objetivo. É claro que algumas cidades já têm uma série de investimentos nessa estrutura que eu dissera antes, que precisam fazer pouca coisa, e há outras cidades que não têm praticamente investimento nenhum, não atendendo aos três requisitos básicos. Quando se fala, por exemplo, num aeroporto, essa é uma discussão entre o município e o estado e tem de haver uma conversa para saber se é economicamente viável a instalação desse aeroporto ali, observando que tudo que se faz com dinheiro público tem que deixar um legado, servir para muito mais coisas do que somente atender a alguns voos na Copa do Mundo. Então, a Prefeitura e a câmara precisam analisar, primeiro, se a cidade está em condições de fazer investimentos e, em segundo, justificar esses investimentos a posteriori, porque trata-se de aplicação de recursos públicos. A obra tem que ser de uso perene e constante da população.
 
Para isso, são acordos feitos entre prefeituras e governo do estado para a consideração do aeroporto e a prefeitura, junto com iniciativa privada, verifica os outros itens, como a questão do centro de treinamento e hotelaria. Mas a iniciativa privada só fará esses investimentos se eles derem retorno posteriormente e se esse caminho apontar para resultados após a Copa do Mundo. Já o campo de treinamento fica muito vinculado à prefeitura, à sociedade, aos clubes da cidade. Então, tudo isso é uma somatória. Eu diria que o mais importante é pensar em como se empreender, para apoiar, induzir e suportar o empreendedorismo tanto do município como dos investidores da iniciativa privada naquela região. A oportunidade é grande, participar de uma Copa do Mundo coloca definitivamente a cidade no mapa e toda a população é beneficiada. Nós vamos trabalhar com as prefeituras para captar patrocinadores, proporcionar manifestações, festivais e movimentos para transformar os jogos em festas, com a presença da população nas praças públicas.
 
Ainda sobre as cidades do interior, como poderemos identificar de forma concreta o legado deixado pela Copa de 2014?
 
Essas cidades todas dependem de turismo, de pessoas que vão até lá e gastam dinheiro, que ajudem o comércio, a indústria, a área de serviço, enfim, elementos que engrandeçam essas cidades. Quando se instala um hotel de nível internacional, a cidade ganha mais oportunidades para atender melhor aos turistas e mais oportunidades para as pessoas realizarem negócios. Existem muitas cidade de porte médio em Minas Gerais com muitos empreendedores que podem aproveitar essa bela oportunidade para crescer e se desenvolver. Sobre ter um aeroporto, sabemos que Minas Gerais é um estado de dimensões territoriais muito extensas, então, ter aeroportos significa melhorar as condições para essas cidades competirem nos ramos da indústria, comércio e serviços. A mesma coisa é em relação aos centros de treinamentos, cujas melhorias estruturais podem ajudar a desenvolver o profissionalismo e a prática de esportes dos clubes de futebol da cidade.
 
O turismo e a visibilidade das cidades melhoram, assim como a compreensão da população de que aquela cidade fez obras importantes para chamar pessoas a visitarem-na, para atrair pessoas e empresas para investir, o que é um grande legado para a cidade e, consequentemente, para a comunidade. Tudo isso aumenta muito o orgulho e a crença do povo em realizar novos empreendimentos. Está nas mãos dos empreendedores, tanto públicos quanto privados, fazerem desse momento perene, que constitua no futuro grandes oportunidades para pavimentar nosso caminho, tendo em vista o sucesso e o bem-estar da nossa população.   
 
A Microrregião do Médio Piracicaba concentra belos destinos turísticos na Estrada Real, como a Itabira, de Drummond, e cidades do Circuito do Ouro, como Barão de Cocais, Santa Bárbara e Catas Altas. Como será feita a distribuição do fluxo turístico em destinos como esses?
 
Nós da Secopa estamos trabalhando fortemente junto com a Secretaria de Estado de Turismo para induzir essas rotas turísticas. É claro que a Estrada Real vai estar mapeada e recebendo uma atenção especial por todos nós, pois, é onde foi feita a caminhada dos 300 anos, onde se tem uma riqueza absolutamente incrível, tanto da fauna quanto da flora, e, principalmente, por ser caminho das riquezas minerais, do ouro, ferro, dos metais pesados especiais. Estaremos trabalhando com todas as organizações ligadas ao turismo e com todas as municipalidades por onde vão se passar as rotas turísticas da Copa do Mundo de 2014. Certamente, dentro dessa premissa, a Estrada Real, com toda essa significância para todos nós, vai ser um dos roteiros turísticos mais importantes que a gente pretende adotar na Copa do Mundo.
 
Itabira está na rota da Estrada Real como um dos principais destinos turísticos, especialmente no distrito de Ipoema, onde foi construído o Museu do Tropeiro. Há algum plano da Secopa contemplando esse destino? 
 
Com a realização do Mundial, o governo espera que Itabira faça parte do roteiro dos turistas que visitarão o estado em 2014, uma vez que as belezas naturais da região são um forte atrativo. A assinatura do acordo de cooperação entre a Secopa e o Instituto Estrada Real tem como objetivo promover o turismo nos vários destinos que fazem parte da rota. Atualmente, estão sendo feitos estudos para que sejam elaboradas estratégias específicas de atuação e promoção da região.
 
Que tipo de demanda pode abrigar a mão de obra das cidades e regiões que não serão contempladas com investimentos diretos?
 
Não há expectativa de investimentos diretos nas cidades da rota turística por parte do estado. O que o governo fará é dar orientação às cidades para fomentar oportunidades de negócios, auxiliar no mapeamento das demandas de treinamento, definição dos equipamentos turísticos que merecem reforma para a Copa etc. Vamos trabalhar forte para interiorizar a Copa. Queremos que o mundo descubra não somente Belo Horizonte mas também o interior do estado.
 
Em relação ao cronograma das obras, os prazos estão sendo cumpridos?
 
Olha, eu sou muito otimista, mas também muito realista. Hoje, Minas Gerais, na sua cidade-sede, que é Belo Horizonte, está com as obras totalmente em dia, não há nenhum atraso e, certamente, estamos na frente de todas as outras cidades-sede do Brasil.
 
O estádio Mineirão está com as obras totalmente em dia, vamos entregá-lo para a prática desportiva a partir de dezembro de 2012, ou seja, 18 meses antes do início da Copa, e, obviamente, as obras no Mineirão não são somente obras num estádio de futebol. É um estádio com uma série de outras vantagens, outras obras, principalmente a esplanada em torno, uma grande obra também para shows e eventos para milhares de pessoas. Ali haverá o Museu do Futebol — uma coisa que pouca gente faz, porque, às vezes, fazem o estádio e se esquecem da memória do futebol — e tem toda uma área de lazer, de lojas, de compras diversas, que vai enfeitar e fortalecer ainda mais o Mineirão como uma grande área de visita dentro do estádio de Minas Gerais, coroado com a Pampulha, que já é uma grande área de lazer. O estádio terá 64 mil lugares, mais de 90 camarotes, cobertura com membrana especial autolimpável, iluminação especial, uma coisa muito espetacular.
 
Na área de transporte urbano, também está tudo muito adiantado. Todas as obras periféricas dentro de Belo Horizonte já estão em andamento. A maior obra de mobilidade urbana da capital, o projeto DRT, que são ônibus articulados capazes de transportar um contingente de 750 mil pessoas por dia, também estará pronto até a Copa. Os hotéis que estão sendo instalados, de um total de 28 em construção e 17 em licenciamento, vão representar 51 mil leitos disponíveis para a Copa do Mundo. Então, não se trata de uma questão de otimismo.
 
O senhor acredita que o fechamento simultâneo dos estádios Mineirão e Independência contribuiu para a má performance dos clubes mineiros na temporada de 2011?
 
Você não consegue criar desenvolvimento, melhorias, sem que se arque com algum custo. Minas Gerais resolveu ter dois estádios de categoria internacional. O cronograma do estádio Independência foi um pouco prejudicado, por ter que atender mais recomendações e exigências da Fifa. Tivemos que fazer um complemento do projeto anterior para termos o Independência como um dos melhores estádios do Brasil, aliado ao grande Mineirão, que será o melhor estádio do país. Agora, se for para culpar o estado pelas más situações dos times, há uma distância histórica muito grande nisso. Os times não jogam sozinhos. Jogam contra adversários que se preparam. Não posso fazer nenhum julgamento, mas não acredito que essa dificuldade esteja ligada às questões de estádio. Não considero essa questão relevante, até porque são clubes fabulosos e sei que vão sair dessa situação e disputar o próximo Campeonato Brasileiro na Primeira Divisão.