QUAL A PROFISSÃO DELAS?

As personagens fora do ambiente de trabalho da e. p/ d.: Flávia, Rosilene, Elaine e Meire (sentada)

QUAL A PROFISSÃO DELAS?
Flávia Aparecida, servente de obras
 
Vaidosa e esbanjando feminilidade, Flávia Aparecida Nascimento, 23, se destaca em meio a cerca de 150 homens que compõem seu ambiente de trabalho. Ela é servente de obras na construção de um residencial em Itabira. 
 
No novo emprego há pouco mais de um mês, ela conta que, logo quando foi contratada, muitos apostaram que não aguentaria o trablaho braçal por mais de uma semana. Nada que a desmotive. Em meio a tijolos, cimento, escombros, máquinas, terra, Flávia trabalha sempre maquiada, de unhas feitas e esbanjando bom humor. Até mesmo no crachá da empresa procurou dar um toque feminino, optando por um da cor rosa. Junto a ela, trabalham mais oito mulheres como servente de obras. Sua mãe, Rosangela Rosa, 47, é uma delas.
 
Flávia reconhece que suas tarefas são bastante cansativas, mas diz com firmeza que não foge do serviço. “Eu encaro o que tiver. O que eu tenho medo é de ficar sem trabalho. Isso aqui para mim é um desafio. Muitos não acreditaram em mim e estou aqui provando o contrário. Muitos jovens da minha idade teriam vergonha de ser servente de obra, mas vergonha para mim é ter que depender dos outros para tudo.”
 
 Entre as mulheres, ela é a mais jovem na obra. Apesar das brincadeiras sobre suas “limitações físicas”, a moça diz que os colegas a respeitam profissionalmente e que o ambiente de trabalho é sempre ótimo. Flávia tem o apoio do namorado, que a incentiva mesmo estando chateado por ela ter de trabalhar em um serviço tão pesado.
 
No mercado de trabalho desde os 17 anos, Flávia já foi pesquisadora, caixa e vendedora de consórcio. Hoje concilia o trabalho com cursos de auxiliar administrativo, secretariado, telemarketing, informática avançada e departamento pessoal, mas o sonho maior é formar-se em Engenheira de Segurança. “Aqui dentro da obra mesmo eu tenho a oportunidade de crescer. A construção civil está em alta e isso nos proporciona muitas chances. Para crescer, se começa mesmo é de baixo”.
 
Em meio a tantas outras, Flávia é mais uma a se superar. “As mulheres trabalham bem. Eles que se cuidem”, avisa.
 
Rosilene Nunes, motorista de ônibus
 
Imagine que ao entrar em um ônibus coletivo a motorista seja uma mulher. Essa cena não é tão comum, mas acontece em Itabira. E não há quem nunca tenha ouvido, pelo menos uma vez na vida, uma piadinha maldosa sobre mulher ao volante. Rosilene Nunes, 33 anos, trabalhando na função há cinco, tem apenas uma colega mulher na empresa em que atua. Já há onze anos trabalhando no ramo dos transportes, começou como cobradora e, com o passar do tempo, tirou a carteira D, visando trocar de função. “Entre os trocadores, a empresa estava dando chance para quem tinha habilitação se tornar motorista de ônibus, inclusive para as mulheres. Não perdi tempo. Fiz os procedimentos como treinamentos, testes e fui aprovada em todos”.
 
Antes de trabalhar na empresa de transporte coletivo, Rosilene era empregada doméstica. No entanto, o sonho de um novo emprego a motivou a trocar de vida. Para se tornar motorista de ônibus teve o apoio da família e dos amigos, mas sofreu e ainda sofre preconceitos por conta de sua carreira. “O mais importante é que sou uma profissional e tenho competência para ocupar o cargo que ocupo, e dou conta muito bem. Não há nada que uma mulher não possa fazer. Basta que ela queira, seja determinada e saiba aproveitar as oportunidades”, garante a motorista.
 
Rosilene acredita que a vida é mais difícil para o público feminino no mercado de trabalho, pois as mulheres precisam sempre ousar mais para serem bem sucedidas. “É preciso romper barreiras e preconceitos. Podemos trabalhar em diversas áreas tão bem quanto os homens e já estamos provando isso. Amo minha profissão e sou muito respeitada entre os colegas de trabalho e também pelos passageiros”.
 
Elaine Vanda, operadora escavadeira
Para cumprir sua missão profissional, Elaine Vanda Batista Gorino Drumond e Silva, 30, tem a palavra determinação como fonte de inspiração. Operadora de escavadeira, já sabia o que queria ser desde os nove anos de idade, quando teve a oportunidade de conhecer o trabalho do pai, Ernestino dos Santos Gorino, que era operador de caminhão fora de estrada. “Fiquei doida com o tamanho daquele caminhão e naquele momento decidi que queria fazer a mesma coisa”. E o sonho se realizou. Aos 21 anos, Elaine tirou carteira de habilitação D. Estudou no Senai, fez inscrição para trainee, passou nos processos e acabou conquistando a tão sonhada vaga em uma mineradora.
 
No entanto, ainda no início, ofereceram-na a oportunidade de operar uma retroescavadeira. Na ocasião, ainda não havia mulher operando esse tipo de equipamento em Itabira. Elaine agarrou a oportunidade e se tornou a primeira, trabalhando já há seis anos na função. Em sua turma é também a única mulher, entre 40 colegas de trabalho. Ela se diz muito respeitada por todos, sendo até mesmo elogiada pela sua competência e dedicação.
 
Além da realização profissional, o emprego lhe trouxe o grande amor da vida, Dellyeverson Drumond e Silva. O marido, de 32 anos, é operador dos caminhões gigantes e entrou na empresa na mesma época em que Elaine. Apesar de trabalharem em locais diferentes, já aconteceu de ela abastecer o caminhão do marido. “Foi até engraçado. No rádio, o pessoal brincava dizendo que era para eu me concentrar e não errar a pá”, lembra.
 
Mãe de dois filhos, ela tem orgulho da profissão e se diz animada para trabalhar todos os dias. “Já acordo rindo. Pedi a Deus que abrisse as portas para mim e ele atendeu. Agradeço e dou valor, porque muita gente queria estar no meu lugar”.
Quando conta o que faz, a primeira reação das pessoas é surpresa e dúvida. “Só acreditam quando eu mostro foto e todo mundo fica abismado, principalmente, quando olham o tamanho da máquina. Todos me chamam de corajosa”.
Além de Elaine, dois irmãos seguiram a profissão do pai. “Meu pai tem orgulho dos três filhos, mas pelo fato de eu ser mulher, ele jamais imaginava que me tornaria operadora de escavadeira. Até mesmo quando vê uma foto, ele chora”. Já a mãe, Ernestina dos Santos Gorino, 59, é receosa quanto a profissão dos filhos e sempre pede a Deus para protegê-los dos riscos inerentes ao trabalho.
 
Para as mulheres que tentam entrar em profissões tidas como masculinas, Elaine aconselha jamais desistir e não abaixar a cabeça quando vierem as críticas. “A mulher tem capacidade de exercer qualquer trabalho. Ela é mais cuidadosa e isso ajuda na função. Eu sou realizada profissionalmente e tenho muito orgulho do que faço”.
 
Meire Glória, motorista de caminhão fora de estrada
Meire Glória Pinto Coelho, 39, opera caminhão fora de estrada há oito anos em uma mineradora. Chega a transportar 280 toneladas, a capacidade total do veículo gigante. Dirigir sempre foi sua paixão, desde o tempo em que era motorista de transporte escolar. Trabalhou também como motorista de vans em uma empreiteira. “Nessa área, na época, já não tinha mulheres. Fui a primeira”, diz orgulhosa.
 
Conquistar seu lugar na mineradora foi a realização de um antigo sonho. Vinda de uma família tradicional de comerciantes, seu caminho foi totalmente distinto dos outros 15 irmãos, cuja maioria seguiu a tradição familiar. Na época em que começou a trabalhar, o próprio pai achava que seu trabalho não era função para mulher. “Na minha casa isso foi uma completa novidade. Todos diziam que eu era muito corajosa”. 
 
Meire lembra que um dia seus dois filhos foram para o mirante vê-la operar o caminhão. A família ficou abismada com o grau de dificuldade e responsabilidade do trabalho.
 
Meire se sente uma guerreira. “Realizei meu sonho profissional e gosto muito do que faço, além de ter muito orgulho disso. Deus me abriu as portas e eu agarrei essa chance”. Assim como aconteceu com a operadora de escavadeira Elaine Gorino, o trabalho trouxe mais que realização profissional. Seu marido, Haendel Fonseca Lobão, 39, também motorista de caminhão fora de estrada, foi quem a treinou na atual função na mineradora.
 
Além de Meire, trabalham mais onze mulheres como operadoras de caminhão fora de estrada em sua área. Ela diz que é muito respeitada no trabalho e essa mistura mostra que as mulheres estão conquistando cada vez mais espaço no mercado e mostrando que são capazes de realizar qualquer função. “Recebo muitos elogios e adoro meu trabalho”.