Testemunha da tragédia do Rio de Janeiro

A região serrana do Rio de Janeiro, que foi arrasada pelas chuvas no primeiro mês deste ano, até hoje sofre as consequências do maior desastre natural acontecido no Brasil. Nova Friburgo, cidade mais afetada, registrou cerca de 450 mortos e contabilizou um prejuízo de um bilhão de dólares. Mais de três mil quedas de barreira […]

Testemunha da tragédia do Rio de Janeiro
A região serrana do Rio de Janeiro, que foi arrasada pelas chuvas no primeiro mês deste ano, até hoje sofre as consequências do maior desastre natural acontecido no Brasil. Nova Friburgo, cidade mais afetada, registrou cerca de 450 mortos e contabilizou um prejuízo de um bilhão de dólares. Mais de três mil quedas de barreira ocorreram no município, que recebeu donativos de todo o país – inclusive de Itabira e região, como mostrado na reportagem de capa da ediçaõ 217 da DeFato.
 
Quatro meses depois, dona Leny Ennes Cariello, 89 anos, natural de Nova Friburgo e uma das vítimas das chuvas, passou a ser também itabirana. Ela se mudou para a cidade, onde reside a filha, Beth Cariello, depois que sua casa, avaliada em R$ 1,5 milhão, foi destruída. A residência, de dois pavimentos, tinha sete quartos, varandas e jardins, totalizando 1000 m² de área construída. Na ocasião, a viúva não morava mais no imóvel, mas ia ao local semanalmente para cuidar das plantas. Ela havia se mudado para um apartamento, no centro de Nova Friburgo.
 
Cada um de seus outros filhos mora em uma cidade diferente: Poços de Caldas, Nova Friburgo e Rio de Janeiro. A família fora criada na casa hoje destruída. E era lá que todos se reuniam para encontros, churrascos e comemorações. Os pertences — incluindo relíquias, como um relógio suíço, de cerca de dois metros de altura, cuja primeira corda foi trocada há 250 anos — foram todos perdidos.
 
Na última vez que visitou o local antes das chuvas, dona Leny nem chegou a entrar em casa. “Fiquei conversando com três vizinhas. O tempo passou e acabei não entrando. Mal sabia eu que nunca mais veria as dependências do imóvel onde morei por 40 anos”, recorda.
 
Tais vizinhas morreram na tragédia, dias depois. Dona Leny não teve coragem de voltar ao local. O triste fim da mansão, erguida com a ajuda do poder público (estava prestes a ser vendida), ainda é dos males o menor. Felizmente, as perdas foram apenas materiais. Hoje a viúva do italiano Vitório Cariello passa temporadas nas casas dos filhos.
 
O episódio vivido por dona Leny é apenas um entre milhares de outros que ficarão guardados para sempre nos registros e na memória das famílias brasileiras.