Na casa simples da mãe, no bairro Fênix, em Itabira, a pastora Amanda Neves, que ministra na Igreja do Evangelho Quadrangular de Santa Bárbara, recebeu a equipe de DeFato. Pela primeira vez, ela falou à imprensa sobre a experiência e superação depois de escapar ilesa de um acidente no qual morreram seu esposo e dois filhos. A firmeza de quem se manteve de pé, mesmo tendo enfrentado a maior das desilusões, reflete-se na segurança de suas palavras e na espontaneidade de seu sorriso – que insiste em ser encantador. A maturidade dos depoimentos, no entanto, contrasta com a delicadeza e a visível fragilidade de um coração partido.
“Peço a Deus, em minhas preces, que Seu propósito em minha vida seja cumprido, para que eu possa, um dia, me reencontrar com eles”, resume a simpática pastora. Demonstrando otimismo, ela admite ser surpreendente o modo pelo qual consegue manter seu equilíbrio e serenidade. “O poder sobrenatural de Deus tem me feito superar a dor. Nunca me imaginei capaz de suportar algo assim, mas Ele tem me provado o contrário”, enfatiza.
Ao falar daquilo que, normalmente, suscitaria as mais intrigantes dúvidas para vítimas de tragédias como a que viveu, Amanda parece não se angustiar com o inexplicável. “Acredito que Deus não me levou com eles para mostrar que ainda não cumpri totalmente minha missão de resgatar almas. Se eu tivesse ido, muitos não conheceriam o poder de Deus, como estão vendo agora. Ele me deixou para continuar essa missão. E o que é decreto dEle, não cabe a nós mudar, a gente aceita”, diz.
A pastora acredita ter passado pela mais penosa prova de superação, e isso a tornou, de certa forma, mais forte. “Quando a gente perde um filho, ainda tem o marido para compartilhar o sofrimento e as lembranças. Quando perde todos, não há mais ninguém. Não existe outra dor que possa me abalar mais do que essa.” Ela conta que, de sua fé, tira forças para não se descontrolar. “Não entrei em desespero a ponto de querer morrer também. Procurei aceitar, sem questionar ou enlouquecer”.
A tragédia
Única sobrevivente do choque entre um caminhão e o veículo de sua família, ocorrido na manhã de 4 de abril, na MG-434 (que liga Itabira ao trevo da BR-381) a pastora Amanda relata que se manteve lúcida durante todo o episódio. “Eu me lembro de tudo, desde quando o caminhão saiu de sua pista até quando tudo ficou em silêncio e constatei que o pior tinha acontecido. No hospital, pedi que ninguém me contasse mais nada”, recorda. No mesmo dia, ela recebeu alta. “Tive algumas escoriações por causa de estilhaços de vidro, mas não quebrei nem uma unha”.
Amanda ressalta que não ficaram mágoas em relação ao motorista do caminhão envolvido no acidente. “Não tenho nenhum sentimento negativo. Como ser humano, não tenho o que falar dele e não lhe desejo mal. Espero que ele também consiga se restabelecer”, declara.
A pastora continua morando na mesma casa, em Santa Bárbara, na companhia de uma tia de seu marido falecido. Conta que, por enquanto, não se desfez de nenhum pertence dos familiares. “Ainda está tudo no mesmo lugar, mas pretendo doar as roupas e brinquedos”. A pastora também é mãe de Leonardo, de 15 anos, fruto do relacionamento anterior.
Amanda já retomou suas atividades normais na Igreja e conta com o apoio de outros pastores para não sobrecarregar seu ministério. “Não estou sozinha. Muita gente tem me apoiado, tanto na Igreja, como fora dela”, conta.
Aprendizado
“A família deve ser nossa prioridade” – segundo Amanda, essa foi a principal lição apreendida da tragédia. “Jamais podemos abrir mão de ensinar a nossos filhos o que é certo, a conhecer Deus. Se Ele nos deu a dádiva de termos filhos, temos a missão de educá-los conforme Sua vontade. Só assim não teremos do que nos arrepender ou sentir culpa”.
Com inevitável alegria e com a ajuda da mãe Leila e da tia Ádila – também presentes durante a entrevista –, ela retoma as lembranças sobre a personalidade dos familiares de quem teve de se despedir. “Meu filho Davi (de 4 anos) era o mais doce do mundo, carinhoso e espontâneo. Já a Elisa (3) era tímida, recatada, diferente de todas as meninas do planeta! Meu marido Diener era uma criança em corpo de homem, alegre, animado.” A pastora se arrisca a desvendar o segredo para formar uma família feliz: “Vivemos mais plenamente quando colocamos Deus dentro do nosso dia a dia. Deixei que Ele fizesse parte da minha casa. Procurei transmitir à minha família o que havia de melhor. É o que todos deveriam fazer”, aconselha. Por fim, Amanda deixa uma mensagem de consolo às famílias que também têm de conviver com marcantes perdas. “Independente da tragédia ou do mal que venha a assolar a nossa vida, saibamos que Deus tem um propósito. Apesar de tudo, existe algo de melhor esperando por nós. Mas isso só funciona na vida de quem O serve verdadeiramente. Precisamos agir assim para que não fiquemos à mercê das coisas que não são de Sua vontade”, conclui.