Itabira, 18 de fevereiro de 2011. A Polícia Civil do município, com o apoio de agentes de Santa Bárbara, João Monlevade, Santa Maria de Itabira e Ferros, prendeu uma das principais quadrilhas de tráfico de drogas da cidade. Jeremias da Silva Vieira – o Mita, 29 anos, e cinco comparsas foram surpreendidos pelos homens da Polícia Civil, fortemente armados, encapuzados e dispostos a cumprir os mandados de prisão expedidos pela justiça.
A investigação começou no início do ano e contou com importante participação da população. Além de Mita e seu grupo, outras 24 pessoas, supostamente envolvidas com o tráfico, foram presas em datas diferentes. Cinco menores também foram apreendidos, além de veículos, drogas, dinheiro e ouro. A seguir, o delegado responsável pela operação, Juliano Alencar Martins, informa detalhes do trabalho, pede a colaboração da população e avisa: a ação de repressão ao crime vai continuar.
Como se deram as operações contra o tráfico em Itabira no fim de fevereiro?
Na verdade, esse foi o desfecho de um inquérito iniciado na primeira semana de janeiro. Várias pessoas dos bairros Bela Vista e Nova Vista, especialmente os integrantes da quadrilha de Mita, foram presas.
O acompanhamento, que passou pelo mês de fevereiro e terminou em 11 de março, culminou com 30 prisões e cinco apreensões de menores. Apreendemos também drogas, veículos, dinheiro e até uma certa quantidade de metal, que parece ser ouro. O inquérito ainda não foi concluído porque foram feitas muitas perícias.
Por que agentes de várias cidades participaram da operação?
A Delegacia Regional de Itabira abrange também Santa Maria de Itabira, Ferros, Barão de Cocais e Santa Bárbara. No caso de operações maiores, temos por hábito, para resguardar e otimizar as chances de resultados positivos, reunir todas as equipes. Vieram, inclusive, investigadores de João Monlevade, que, apesar de não fazer parte de nossa regional, está muito próxima da gente.
Como essas operações foram divididas em várias etapas, não dá para saber o número exato de agentes. Creio que aproximadamente 40 profissionais estiveram envolvidos durante o principal dia de ação. Foi quando realizamos as prisões dos cabeças do tráfico: Mita e outros cinco.
Como as informações a respeito dos traficantes chegaram à polícia?
Desde que cheguei a Itabira, em novembro de 2009, o nome do Mita é relacionado ao trafico de drogas, principalmente na região dos bairros Bela Vista e Nova Vista. Mas, geralmente, o usuário se nega a prestar informações sobre os traficantes. Costuma falar que comprou a droga de um desconhecido, próximo à linha férrea, ou próximo a um bar, ou em algum beco.
Temos recebido apoio muito grande da população dos bairros, a população “de bem” da cidade, que não consegue mais conviver com o ambiente tão degradado pelo tráfico e consumo de drogas. Os vizinhos da chamada “boca de fumo” acabam tendo uma desvalorização de seu imóvel e queda na qualidade de vida. Eles chegam do trabalho à noite e veem usuários de drogas perambulando nas proximidades da sua casa. Há o receio de ser assaltado, pois o usuário de crack tende a ser violento. Por isso, a população dos bairros Bela Vista e Nova Vista começou a trabalhar mais em parceria com a Polícia Civil. Só de crack, apreendemos quase cinco quilos nessas operações.
Após a prisão da quadrilha do Mita, as informações têm chegado da cidade inteira. Assim que concluirmos esse inquérito, esperamos poder estender as operações para desmantelar o tráfico de drogas de toda a cidade.
O é a droga que mais afeta o Brasil atualmente. Como está a situação em Itabira? crack
O crack está em praticamente todo lugar. Os usuários estão, inclusive, nos distritos e nas comunidades pequenas e isoladas. Os maiores pontos de venda são os grandes centros, mas, com o crescente número de usuários, os traficantes têm passado a vender cada vez mais em cidades pequenas.
Itabira hoje tem um problema muito sério. O crack é a pior das drogas porque altera muito a personalidade do usuário. A pessoa que usa maconha ou cocaína, apesar de ficar mais sonolento ou mais elétrico, acaba não se voltando tanto para a criminalidade. Como o efeito do crack é muito rápido e intenso, gera a necessidade de se fazer um uso repetido. Para isso, o usuário, que geralmente tem baixo poder aquisitivo, precisa arranjar recursos.
Como a droga deteriora a pessoa, ela acaba perdendo o emprego, a família e qualquer fonte de renda que possa financiar o vício. Ela parte, então, para os pequenos delitos e acaba evoluindo para crimes violentos.
Quais as principais dificuldades de repressão ao tráfico?
Uma das dificuldades é o fato de a legislação relacionada ao consumo ser branda para o usuário. Na minha opinião, o usuário deveria ser apenado pelo consumo de substâncias ilícitas.
Houve uma alteração legislativa em 2003 que passou a tratar o usuário como vítima, como uma pessoa a ser tratada, e não como um criminoso. Para o simples consumo de drogas, não há pena restritiva de liberdade. Por isso, ficou mais difícil tirar o usuário das ruas. Ele acaba sendo internado somente por vontade própria ou normalmente por intervenção familiar.
Costumo comparar com a questão dos crimes patrimoniais e delito de receptação. Se a pessoa que recepta, que compra uma mercadoria furtada ou roubada, é considerada criminosa, por que a pessoa que compra substância ilícita para consumo próprio não é considerado um criminoso?
Discordo da legislação, mas na condição de funcionário do Estado tenho de cumprir a lei. Nossa missão é combater o tráfico, mas não temos como inibir o consumo.
A Polícia Civil vai continuar com novas operações?
Durante a sequência de operações, quando realizamos prisões duas vezes por semana, alguns canais de comunicação nos perguntavam se havíamos terminado. A minha resposta é sempre a mesma: a ideia é não parar nunca. Vamos continuar com a repressão ao tráfico e tentar, em última escala, diminuir toda a criminalidade conexa. O consumo de drogas, principalmente do crack, gera a chamada “criminalidade na penumbra do tráfico”: furtos, roubos, homicídios e outros.
Traficante não vende a droga, simplesmente. Ele também recepta a mercadoria para receber dívidas, o que estimula outros crimes, principalmente patrimoniais, normalmente bens de fácil escambo.
O que mais o senhor gostaria de acrescentar?
Gostaria de frisar a parceria entre comunidade e Polícia Civil. A comunidade tem cada vez mais nos informado a respeito do que acontece nos bairros. Temos um contingente pequeno no município de Itabira, aquém até mesmo daquilo que o Estado prevê como sendo o necessário. Trabalhamos hoje com cerca de um terço do quadro previsto para a delegacia: cerca de 30 profissionais, quando deveríamos trabalhar com 80, 90.
No caso de delegados, por exemplo, Itabira tem vagas para 12: dois na Delegacia Regional e dez nas delegacias de polícia. Trabalhamos com um na Delegacia Regional e três nas delegacias de polícia.
Em razão dessa escassez de recursos humanos, precisamos da parceria da população, principalmente no sentido de “ser nossos olhos” nas ruas. Espero que, com essas nossas operações, a população se sinta respaldada para denunciar ainda mais. Queremos mostrar que os criminosos serão penalizados por seus atos e, com isso, encorajar os moradores a denunciar e desencorajar qualquer morador em tomar parte nessa conduta de tráfico.
Outras operações virão?
Devemos iniciar outras operações em bairros que são reconhecidamente pontos de tráfico em Itabira, como Santa Martha, Madre Maria de Jesus, São Bento e outros. Certamente, vamos continuar trabalhando de forma qualificada. Um pouco menos aquele “junta e vamos”, que o pessoal está acostumado a ver. Queremos fazer um trabalho mais qualificado, para prender e manter esses bandidos encarcerados.