O tempo está passando
Itabira, cidade de Drummond e do Museu do Tropeiro: se se estruturar, poderá ficar com parte do dinheiro dos turistas
Brasileiro tem fama de deixar tudo para a última hora. Na região do Médio Piracicaba, no que diz respeito à preparação para as oportunidades de negócios da Copa de 2014 no Brasil, parece que é o que está acontecendo. Já é 2011 e pouco se ouve falar em investimento em estrutura, produtos e serviços para atender aos visitantes de todo o mundo. São reais as chances de a economia regional ser o destino dos milhões que virão nos bolsos dos estrangeiros – e até mesmo de brasileiros – em busca de lazer. Mas a preparação é indispensavelmente necessária.
O presidente da Associação Comercial, Industrial, de Serviços e Agropecuária de Itabira (Acita), José Antônio Reis Lopes, ressalta a necessidade de as empresas privadas e os setores públicos reunirem-se para estabelecer ações voltadas aos dois grandes eventos marcados para os próximos anos: a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016.
Ele explica que o planejamento precisa de tempo, mas que não houve nenhuma discussão até o momento na cidade sobre investimentos a serem feitos. “A iniciativa privada e o setor público devem sentar, conversar e achar caminhos agora”, afirma. José Antônio disse que vai levar a proposta de discussão ao prefeito João Izael nos próximos dias, convidando os responsáveis pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Turismo (SMDET).
Um projeto que integre as entidades, como Acita e Câmara dos Dirigentes Lojistas (CDL), é o que propõe o presidente da entidade que representa o varejo, Gil César Lopes, também de Itabira. “Se tivermos um projeto, nossa cidade vai sair muito à frente. Os setores de hotelaria e restaurante vão lucrar com os pontos turísticos que temos, como os Caminhos Drummondianos e o Museu do Tropeiro, além das riquezas naturais”, detalhou César que, além de ser empresário do ramo de eletrodomésticos, também atua no setor hoteleiro.
José Antônio e César acreditam que, se os homens públicos e os empresários juntarem forças, há a possibilidade de se construir até um centro de treinamento para abrigar alguma seleção no município. Mas tem de haver um projeto que contemple a questão econômica, turística, urbana entre outras. Se a mídia participar, divulgando as ações, os resultados podem ser ainda mais positivos, acreditam os empresários.
Numa apresentação na sede da Amepi no ano passado, o consultor em Projetos Turísticos e professor Mário Braga Corrêa, bacharel em Turismo, especialista em Turismo Rural, na Itália, e mestre em Comércio Internacional, na Argentina, lembrou que há recursos públicos da ordem de R$ 200 milhões disponíveis com o prazo máximo de captação até 2012. “Quem quiser participar do privilégio de se fortalecer financeiramente para a Copa de 2014 tem que agir a partir de agora”, desafiou.
Os recursos disponíveis têm como meta fortalecer as áreas de saneamento e educação. A primeira será para melhorar a infraestrutura das cidades; a segunda, principalmente para preparar profissionais para um segundo idioma, de preferência o inglês e o espanhol. O setor hoteleiro vai, de acordo com ele, necessitar de grande expansão e aprimoramento.
Otimismo
Apesar do relativo pouco tempo para preparação, os empresários estão achando uma excelente ideia ter dois eventos de tal magnitude no país com intervalo de dois anos. A vantagem é que, se houver uma preparação para a Copa, que será o primeiro, ela pode, com alguns ajustes, servir à Olimpíada.
O empresário Nilton Aney de Oliveira (Tain) diz que Itabira tem uma boa estrutura, principalmente porque abriga muita demanda da Vale e de suas empreiteiras. Mas precisa melhorar. Os hotéis, por exemplo, área de sua atuação, passaram por momentos de dificuldade na crise que afetou o mundo em 2008/2009. Agora eles vivem um novo cenário, cheio de expectativas não só com o evento esportivo, que durará não mais que algumas semanas, mas com os investimentos bilionários da mineração na cidade e região.
Seguindo o raciocínio de Tain, a preocupação com o atendimento, a qualidade dos serviços e os produtos oferecidos, precisa ser ainda maior, já que na região, não se trata apenas do turismo esportivo. Mas ele também concorda que a classe empresarial ainda não começou a agir. “Temos grande esperança de que, um ano antes da Copa, a gente já comece a receber pedidos de reservas para hotéis. Podíamos também reformar o Valério para receber alguma agremiação. Seria muito bom para a nossa economia”, detalhou.
Alguns gargalos, que devem ser solucionados pelo poder público, também são ameaças. É o caso da BR-381, tão discutida e tão acusada como a causa de entrave do desenvolvimento da região. A “rodovia da morte” chegou a ser comparada pelo presidente da Amepi, prefeito de Dom Silvério, José Maria Repolês, como tão trágica quanto o desastre da região serrana do Rio de Janeiro. Uma alternativa à estrada assassina seria um aeroporto, mas o projeto também não decolou ainda.
Os problemas são apontados, inclusive, pelo presidente da Acita, José Antônio. César, da CDL, acredita que até 2014, pelo menos o problema da rodovia estará solucionado e destaca o pós-copa e pós-olimpíada. “Quando acontecem eventos como esses, não são somente aquelas poucas semanas de atividades internas. Tanto a Copa quanto às Olimpíadas despertarão o interesse das pessoas em conhecer o país”, detalha César, ao citar como exemplo, a África do Sul: “Antes, pouca gente se interessava em conhecê-la; agora – com a divulgação quase sempre positiva da imprensa – virou destino turístico do mundo inteiro”, esclarece.
Quanto aos setores que serão mais beneficiados estão o turismo, os espaços esportivos (que receberiam alguns atletas que jogassem em BH), e os setores de produtos e serviços (já que as empresas locais poderiam ser as fornecedoras do evento).
Marcha lenta
As demais cidades da região do Médio Piracicaba ainda não desenvolveram projetos para alavancar a economia em 2014 e 2016. O passo lento, na verdade, é explicado pelos responsáveis pela fomentação da cultura, turismo e economia como uma normalidade característica da política do interior.
Essa também é a opinião de algumas entidades de classe. Elas acreditam que há um longo tempo para se apresentar projetos e estudar a sua viabilização. A organização dos municípios, principalmente daqueles que compõem a Amepi, será o primeiro passo na preparação para o maior evento esportivo do mundo.
A turismóloga Lívia de Paiva Pacheco, gestora do Circuito Serra do Cipó (AMPASC), disse que os seis municípios (Conceição do Mato Dentro, Congonhas do Norte, Dom Joaquim, Jaboticatubas, Nova União e Santana do Riacho), que compõem o circuito, estão se organizando. Com nove anos, o Circuito está trabalhando, segundo Lívia, em quatro vertentes básicas na preparação das cidades associadas para o aumento do fluxo turístico no período dos eventos dos próximos anos. São eles: estruturação de produtos turísticos, que fortaleçam o grande diferencial da região (prática de atividades junto à natureza, como a criação de mais de 50 trilhas de caminhada, cicloturismo e escalada nos seis municípios associados); capacitação da mão de obra local por meio de cursos realizados em parceria com o Senac e Senar, e seminários para discussão coletiva dos impactos dos eventos na região; apresentação da região da Serra do Cipó como um atrativo turístico de Belo Horizonte, aproveitando, assim, a proximidade dos municípios com a capital mineira; e criação de uma ferramenta de comercialização dos produtos turísticos do Circuito Serra do Cipó para os turistas nacionais e internacionais.
Desde fevereiro de 2010, o Circuito vem trabalhando na criação de um portal virtual, em que o turista poderá comprar diárias em hotéis e pousadas, ingressos para passeios e até artesanato, além de estar integrado às mídias sociais e apresentar conteúdo em quatro idiomas.