Leônidas Valeriano conta como foi sua viagem a Nova Friburgo
Leo da Festejar; Paulo Menezes do Trail Clube; José Márcio da Pipochips, Pedro Mesquita, motorista fretado pela empresa CGL; e Leônidas Valeriano
Uma das viagens mais impressionantes que já fiz na minha vida. Assim posso definir minha ida ao Rio de Janeiro, nos dias 20 e 21 de janeiro. Meu objetivo não era conhecer a cidade maravilhosa ou o Cristo Redentor; fui por uma causa nobre: registrar como as pessoas atingidas pelas enchentes da cidade de Nova Friburgo estão vivendo.
Quando ligamos a televisão e vimos o noticiário de uma situação catastrófica, como foi as enchentes na região serrana do Rio, não imaginamos o que é realmente ver de perto uma situação parecida. Um verdadeiro cenário de guerra. Caminhões dentro de rios, casas e prédios destruídos, ruas intransitáveis; uma tristeza explícita no rosto de quem passa pelas ruas à espera de dias melhores.
A nossa jornada começou com cinco homens predestinados a ajudar de alguma forma as vítimas dessa tragédia na quinta-feira, 20. Leo, da Festejar; Paulo Menezes, do Trail Clube de Itabira; José Márcio, da Pipochips, Pedro Mesquita, motorista fretado pela empresa CGL; e eu, Leônidas Valeriano, do Grupo DeFato, com uma câmera e uma filmadora, partimos sem imaginar o que nos esperava pela frente.
4h da manhã começou nossa viagem, quando saímos da empresa Pipochips com dois caminhões lotados de alimentos, roupas e material de higiene. Encontramos com o outro caminhão fretado pela Construtora CGL (empresa que organizou e mobilizou toda a ação da arrecadação dos donativos) no bairro Chapada. Levávamos cerca de 30 toneladas.
Sinal vermelho
Depois de percorridos 250 km, chegamos à balança do DER de Dona Euzébia, que pertence à regional de Ubá. Lá fomos surpreendidos com a notícia de que dois dos três caminhões de nosso comboio estavam com excesso de carga. Bem, isso significa que o resultado da ação da campanha SOS Rio tinha dado certo: arrecadamos muito. Mas recebemos sinal vermelho para seguir em frente.
Não sei se foi muita carga ou excesso de solidariedade. Mas não foi o suficiente para que fôssemos liberados. Tentamos várias formas de negociação, mas em vão. Tivemos que “baldear” de um caminhão para o outro até chegar ao peso permitido para poder seguir viagem.
Contamos com a ajuda solidária de caminhoneiros que passavam pelo local e se sensibilizaram com a situação. Eles nos ajudaram a carregar outro caminhão que seguia também rumo à Nova Friburgo, cidade destino de nossas doações. Todos os que passavam pelo local ficaram chocados com a ordem das autoridades. Afinal, estávamos levando alimentos para pessoas que tinham sido vítimas da pior tragédia da história do Brasil.
Depois de 4h parados, conseguimos seguir em frente. Paramos em um posto de gasolina na cidade de Além Paraíba (MG) para enviar algumas informações e fotos pela internet sobre o que havia ocorrido até aquele momento à redação da DeFatoOnline. Jantamos, pois fomos informados de que em Nova Friburgo estava difícil tomar banho e conseguir água e comida. Depois seguimos até Sumidouro, a 48 km de nosso destino, onde recebemos a informação de uma patrulha local de que deveríamos permanecer na cidade até o amanhecer, pois havia riscos de saques.
Tentamos dormir, mas as palavras do policial deixaram uma “pulga atrás da orelha”. “Seremos saqueados? Por que eles estão fazendo isso?” Comecei a imaginar se fosse eu com dois ou três filhos famintos, desesperados por comida: “O que eu faria no lugar deles?”
Quando fui a uma Lan House, (meu notebook tinha dado problema) conversei um pouco com o proprietário sobre o que havia ocorrido na região. “Minha avó tem 80 anos e nunca viu isso acontecer em nossa cidade. Esses computadores estão no alto devido à chuva que entrou aqui dentro; perdi muitas máquinas” disse Cristiano, dono do estabelecimento.
Nos hotéis e pousadas da cidade, alguns quartos tinham 11 pessoas acomodadas. Pensei de novo: “hoje não vai ser fácil”. Quando amanheceu a sexta-feira, tomamos café em uma padaria em frente a uma praça da cidade e seguimos.
Não demorou muito para enxergamos o rastro dos estragos da chuva. Trânsito em meia pista, casas destruídas e lama por todo lado. Quando aguardávamos o terceiro caminhão, parou ao nosso lado uma carreta Scânia com alimentos. Fomos surpreendidos pela fala do motorista: “São vocês que estavam na barreira de Dona Euzébia? Sacanagem o que fizeram com vocês lá. Queria ver se fosse a família deles”, declarou o caminhoneiro. Olhamos um para o outro e vimos que a nossa ação tinha dado repercussão.
Recebemos também inúmeros telefonemas de pessoas perguntando o que estava acontecendo, pois já tinham visto a matéria no portal DeFatoOnline.
Ao chegar
Chegando a Nova Friburgo e encontramos um cenário de guerra. Não acreditávamos no que víamos: carros revirados, pontes destruídas, prédios no chão, um “mau cheiro” por todo lado, máquinas trabalhando, agências de veículos tomadas por lama e uma expressão de tristeza no rosto das pessoas.
Em todo lugar que parávamos ouvíamos uma história trágica. Recordo-me bem de um morador que nos contou em um restaurante que precisou “pescar corpos”. Isso mesmo! Enquanto não chegava o socorro, eles pescaram vários corpos que desciam pelo rio com um bambu com gancho na ponta, para tentarem dar um enterro digno àquelas vítimas.
Ainda durante a manhã de sexta-feira, chegamos ao Centro de Distribuição de Donativos de Friburgo e encontramos o Exército ajudando na operação e muitos voluntários no local. De acordo com o comandante, cerca de 10 carretas lotadas de mantimentos estavam chegando todos os dias. No SESI da cidade, também havia um posto de coleta e distribuição. Lá descarregamos dois caminhões. O outro ficou na sede principal.
A necessidade dos moradores era imensa. A todo o momento víamos pessoas carregando entulhos e jogando na porta de casa, com máscaras para proteger um pouco da poeira e do mau cheiro. Água virou ouro. Tudo ficou valioso para os desabrigados. Parte do comboio retornou assim que terminou de descarregar, pois as obrigações em Itabira chamavam.
Foi a nossa contribuição. Acho que fizemos a nossa parte e quero agradecer a todos que fizeram alguma doação e acreditaram no trabalho voluntário. Quero parabenizar a iniciativa da empresa CGL em fazer o bem para quem tanto necessita.