Um único mosquito pode transmitir vírus diferentes de dengue

As estratégias públicas de combate à dengue têm evoluído pouco e enfrentam ritmo cada vez mais lento em comparação à velocidade de proliferação do mosquito Aedes aegypti. Estudo de doutorado sobre vírus em vetores da dengue, divulgado nesta semana pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), comprova o que a literatura […]

As estratégias públicas de combate à dengue têm evoluído pouco e enfrentam ritmo cada vez mais lento em comparação à velocidade de proliferação do mosquito Aedes aegypti. Estudo de doutorado sobre vírus em vetores da dengue, divulgado nesta semana pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), comprova o que a literatura científica ainda não tinha encarado: em uma única larva do mosquito, há mais de um sorotipo da doença. A descoberta pode ser a chave de que autoridades de saúde precisavam para explicar os mistérios que rondam esse drama silencioso e repensar novas estratégias de ataque a este mal, que só neste ano foi responsável pela morte de 99 pessoas em Minas. Com dois vírus, o potencial do mosquito pode ser ainda maior, como suspeitam os pesquisadores. Eles apontam que, com a descoberta, daqui para a frente novos estudos serão feitos na tentativa de identificar se as formas mais graves da doença estão relacionadas ao duplo poder do inseto.

Apresentada em três artigos, a tese teve como objetivo principal permitir a compreensão da situação da enfermidade em Belo Horizonte. Isso foi feito por meio de inquérito populacional aleatório, em três regiões (Centro-Sul, Leste e Venda Nova), entre 2006 e 2007, com detecção de anticorpos para os sorotipos circulantes do vírus. “O estudo principal foi um inquérito sorológico que fizemos depois da grande epidemia de 1998 em BH, quando foi detectada a circulação simultânea de dois sorotipos, o tipo 1 e 2 da dengue. Nada menos do que 86 mil pessoas foram infectadas”, comenta o autor da tese defendida junto ao Programa de Pós- Graduação em Saúde Pública da Faculdade de Medicina da UFMG, José Eduardo Marques Pessanha, epidemiologista e doutor em epidemiologia,

Segundo ele, com a entrada no tipo 3 em 2000, a equipe de pesquisa resolveu fazer um segundo inquérito nas três regiões para obter alguma comparação. “A nossa pretensão era identificar os sorotipos que circulavam, em que proporção isto se dava e avaliar os programas para o combate à doença. Avaliamos o Plano Nacional de Controle a Dengue e, apesar de alguns avanços nas estratégias, os métodos usados não eram suficientes para conter o avanço desse mal. São propostas homogêneas para cidades completamente diferentes entre si”, critica.

Com uma rotina de coleta dos vetores, ovos e larvas em 2000, conforme conta Pessanha, ele e seu grupo fizeram uma pesquisa para identificar a presença do vírus. “Já tínhamos constatado que o mosquito infectado transmite o vírus para os seus descendentes. Em um conjunto de larvas, identificamos dois tipos de vírus. Pensamos que poderia ser que umas estavam infectadas por um tipo e outras por outros. Resolvemos fazer uma coleta individual e constatamos que em uma única larva havia dois sorotipos”, revela. Segundo ele, das 1,4 mil amostras de vetores, cerca de 20% tinham o tipo 1e 3 ou o 1 e 2. “Não encontramos os tipos 3 e 2 juntos em um mesmo vetor”, observa.

Com a descoberta, vieram as questões: “A nossa primeira suposição é de que uma pessoa primeiro foi infectada por um tipo 1. Em seguida, infectada pelo tipo 2. Isso pode ter sido em pouco dias. Veio um terceiro mosquito e picou esse enfermo, contraindo então os dois sorotipos”, pressupõe Pessanha, apontando que, com a novidade, as pesquisas já caminham para responder a outras perguntas que podem nortear muitos trabalhos de combate ao inseto. “Quando o Aedes aegypti chega à fase adulta, será que ele transmite os dois vírus ou um anula o outro? Se comprovarmos que ele fica com maior potencial de contaminação, podemos, talvez, justificar a gravidade de casos que ocorrem em algumas pessoas e em outras não.”

Família assaustada

De fato, para a diarista Denise Cândida de Oliveira, a dengue tem mesmo muitos mistérios. Em 2008, Denise perdeu a irmã Glória infectada pela doença. “Glória tinha 48 anos e era muito saudável, ela foi infectada e de uma hora para outra passou muito mal e faleceu. Na mesma época, nossa mãe, então com 78 anos, diabética e usuária de muitos medicamentos, também foi contaminada e não teve a mesma reação”, conta, lembrando que toda a família ficou muito assustada com as proporções da dengue. Para Pessanha, a descoberta de que uma só larva tem mais de um sorotipo pode, talvez, solucionar muitos dos mistérios da doença. “Quando se fala em dengue, há muito mais coisa que desconhecemos do que conhecemos.”

Para o infectologista Estevão Urbano, membro da Sociedade Mineira de Infectologia, o que foi descoberto serve de alerta para todos. “É uma nova hipótese e muito interessante. Ela nos abre o diálogo para que haja uma intensificação das estratégias, pois mostra um vetor com potencial bem mais forte do que supúnhamos. O estudo reforça ainda mais a necessidade da vacina contra a doença. Os esforços, diante dessa comprovação têm de ser redobrados, principalmente aqueles de sempre: eliminar os focos dentro das residências.”

Riscos

Segundo define Pessanha, a pesquisa é um alerta para um risco em potencial que a dengue traz. “O que faz com que algumas pessoas tenham casos brandos e outras mais graves? Para muitas pode ser um organismo com baixa imunidade ou talvez a possibilidade de ter sido a picada de mosquito que carregava dois vírus. Vamos ir a fundo nessas questões”, promete, destacando que o estudo foi apresentado em um Congresso em Cancún, no México, e será publicado em revista brasileira de medicina tropical.

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