30 mil prestigiam Fórum das Letras em Ouro Preto
O Fórum das Letras terminou nesta segunda-feira, em Ouro Preto, com um público 50% maior do que no ano passado. A estimativa é de que o número de participantes nesta sexta edição tenha sido de 30 mil pessoas, nos seis dias de evento. Neste ano, o Fórum das Letras, evento de literatura promovido anualmente pela […]
O Fórum das Letras terminou nesta segunda-feira, em Ouro Preto, com um público 50% maior do que no ano passado. A estimativa é de que o número de participantes nesta sexta edição tenha sido de 30 mil pessoas, nos seis dias de evento. Neste ano, o Fórum das Letras, evento de literatura promovido anualmente pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) desde 2005, fez uma homenagem à África e promoveu uma discussão a respeito da interação entre a literatura do Brasil e dos países africanos de língua portuguesa.
O balanço positivo é da idealizadora e organizadora do Fórum, a professora de Literatura da Ufop, Guiomar de Grammont. “Estou muito feliz tanto com a presença do público quanto de autores tão renomados. O evento já tem reconhecimento nacional e internacional”, disse.
De acordo com a avaliação de alguns dos participantes – entre autores e público – que já estiveram em outros encontros similares, o Fórum das Letras caminha para ser o maior evento de literatura do país. Por enquanto, está no nível do maior evento de literatura feito no Brasil, a Festa Literária de Paraty (Flip), que aconteceu em agosto. A diferença principal entre os dois é que a programação de Ouro Preto é totalmente gratuita, enquanto na de Paraty os ingressos são cobrados.
Cerca de 80 autores, entre brasileiros e estrangeiros, estiveram em Ouro Preto. Eles participaram das palestras e interagiram com o público, autografando livros e discutindo os mais variados temas relacionados à literatura afro-brasileira. À noite, quando a programação se encerrava, era possível encontrar com os escritores, que se reuniam em saraus literários ou em jantares nos bares e restaurantes da cidade.
A programação desta segunda contou com a participação de Affonso Romano de Sant’Anna, Marina Colasanti, Mia Couto e Leonardo Boff. Marina Colasanti dividiu o debate, no Cine Vila Rica, onde aconteceu a maior parte das palestras, com a escritora portuguesa Margarida Paredes. Com o tema “Minha Guerra Alheia: Mulheres Guerreiras, na Vida e na Literatura”, as autoras conversaram sobre a importância do papel da mulher escritora e seu olhar diferente para a realidade, que influencia na arte de escrever.
“Minha Guerra Alheia” é o título do mais recente livro de Marina Colasanti e conta a história do início da vida da escritora no país onde ela nasceu, a Eritreia, no Nordeste da África. Ela falou sobre a experiência de escrever este livro, quando teve que voltar ao passado para pesquisar sua própria história em documentos antigos, e até com parentes que viveram naquela época.
Affonso Romano de Sant’Anna, marido de Marina Colasanti há quase 40 anos, esteve em uma mesa de debates sobre poesia com o poeta angolano Manuel Rui, que é autor do hino de Angola, e com o escritor Abreu Paxe. Rui declamou poemas e entoou cantigas feitas com as letras de seus poemas. Foi acompanhado por bailarinos de danças africanas do grupo Fincapé, que interpretaram e tocaram instrumentos típicos, trazendo ao ambiente uma sensação como se a plateia estivesse na África.
Sant’Anna observou que o Brasil demorou muito a descobrir os autores africanos, mas acredita que isso agora vai mudar, não somente por eventos como o Fórum das Letras, mas também pelo maior envolvimento do Governo brasileiro com os países africanos. “Lula foi o presidente que mais viajou à África. E Dilma, após a eleição, já foi a uma viagem a Moçambique. Isso é um bom sinal, as coisas estão mudando”, analisou.
O escritor destacou as dificuldades vividas por países como Moçambique. Ele contou que esteve no país para organizar uma feira de livros e viu que lá não havia bibliotecas, que teriam sido destruídas por anos de guerra civil.
O escritor moçambicano Mia Couto, que esteve na programação de segunda para conversar com Leonardo Boff sobre “Escrita, Liberdade e Transformação do Mundo”, ressaltou o quanto sua literatura foi influenciada pelos anos vividos sob intensa guerra civil. “Meu país, Moçambique, passou por pelo menos quatro guerras civis nestes últimos 30 anos. Somente a última guerra demorou 16 anos”, disse.
Mia Couto (na verdade António Emílio Leite Couto) é considerado um dos maiores nomes da literatura africana em língua portuguesa. O escritor falou sobre o processo criativo e sobre a experiência de criar personagens femininos, ou que não se identificam com ele. “É desafiante escrever como se fosse uma mulher. É diferente, é instigante, uma transformação. É um salto no abismo. Acho que seria o mesmo que escrever como se fosse criança ou velho”, observou.
Ele se refere à personagem Marta, do livro “Antes de Nascer o Mundo”, lançado no Brasil pela Companhia das Letras. Um trecho do livro diz assim: “Sou mulher, sou Marta, e só posso escrever. Afinal, talvez seja oportuna a sua ausência. Porque eu, de outro modo, nunca te poderia alcançar. Deixei de ter posse de minha própria voz. Se viesses agora, Marcelo, eu ficaria sem fala”.