Para cada pergunta, uma resposta quase poética. Na entrevista a seguir, o compositor, músico e poeta, Newton Baiandeira, conta detalhes de sua vida artística e o motivo de não deixar, de jeito nenhum, sua cidade natal. Inspirado em Drummond, Baiandeira, um dos grandes ícones da cultura itabirana, conceitua o que para ele significa felicidade.
No blog Espaço Cultural Newton Baiandeira, você se intitula cantor, compositor e poeta. Mas, profissionalmente, se considera músico. Ser músico é mais viável do que ser poeta ou compositor?
As oficialidades documentais dificilmente ofereciam poeta, compositor, cantor ou mesmo artista como atividades ou profissões. A palavra músico acabava sendo mais usual no preenchimento das exigências contratuais. O jornalista José Roberto Alencar me disse um dia que todas as minhas artes continham uma grande musicalidade. Passei a acompanhar mais de perto sua observação e achei que ele tinha razão. Resumi aí todas as minhas atividades artísticas. Contudo, é mais um costume do que pura determinação.
Você é considerado um dos mais importantes artistas de Itabira da atualidade. O que mais lhe marcou na carreira?
Venho de uma família de músicos e desde criança minha convivência com as artes foi determinante para a minha escolha de rumo. Se a música inspirada pela família me levou a cantar, a revelação conturbada do poeta Carlos Drummond de Andrade em meus quatro anos de idade me levaram à poesia também muito cedo. Na agenda cultural da escola – música, teatro, poesia -, minhas atuações artísticas eram bem recebidas e incentivadas. Com oito anos de idade, devo ter sido o primeiro “Drummonzinho” a recitar CDA pelas ruas de Itabira. Algumas coisas marcaram minha história, com mais ou menos destaque: ganhar o primeiro Festival da Canção; gravar o meu primeiro disco, Raio de Sol; publicar o primeiro livro de poemas, Um sem fim de coisas; cantar no Lula Lá em Belo Horizonte para um público de setenta mil pessoas; aprender uma nota especial no violão com o papa da bossa nova, Roberto Menescal, no Rio; tocar por anos nas noites de São Paulo etc. Mas o que me marca profundamente é a força da minha música; encanta-me O Trem Que Leva Minas ser consumido em tantos países do mundo sem que eu tenha precisado sair daqui. Nunca me preparei para o sucesso espetacular ou a fama. Acredito até que tive sempre muito receio, um fio de medo de não poder administrar as loucuras que se apregoavam sobre famosos. Ainda hoje, esse temor de perder o conquistado pelo incerto parece me proteger mais do que prejudicar. Sempre tive a incerteza de ir e não poder voltar. Minha relação com Itabira é meio que de filho agarrado à saia de mãe.
O sonho de qualquer artista é viver da arte (ou alcançar status, ser famoso etc). Você se considera realizado? Quais os próximos objetivos?
Realizado? Nunca me considero realizado, mas seguro do que posso alcançar e extremamente feliz com os resultados até agora. Tenho objetivos de valor real, bem programados para que, mesmo que não me encham os bolsos, não saqueiem minha alma. Tenho alguns livros organizados, alguns discos selecionados e direcionados para um futuro espaço na internet. Se os investidores acreditarem nos meus projetos, garanto os valores culturais dispostos neles. Contudo, jamais deixarei de trabalhar por sua realização. Apostei nisso: entrei em 1978 na Vale e saí de lá em 1979 para isso. E, até agora, sobrevivo com o tamanho do sucesso que me cabe. Minha arte há que ser sempre contributiva. Assim, sou feliz e essa é minha moeda. Custoso, sim, danoso nunca. Nunca me arrependi dessa decisão. O “ter” nunca esteve tão longe assim de mim. Só ainda não justificou algumas exigências do meu “ser”. Sem isso, acredito, eu não seria feliz e acho que um artista infeliz seria um desperdício. Como abrir mão disso?
Artista itabirano faz sucesso?
Quando eu me autoproclamei artista, isso, lá pelos anos setenta, muitos brincaram e hoje estão entre meus maiores fãs. Tudo que coloquei na mídia e hoje na internet tem uma rápida rede de envolvimento. Estou certo de um sucesso, silencioso, mas farto. Mede-se o sucesso muito pela rentabilidade financeira ou exposição na mídia. Eu, particularmente, me sentiria chateado se vendesse milhões de cópias de algo que eu não gostasse. Há uma visão, e não é só aqui, de que se algo fosse bom estaria na mídia. Há quem pense exatamente o contrário. Aos nossos artistas falta apenas promoção, propagação de seus atributos. As medidas do sucesso nem sempre contemplam o valor do artista e sua obra. Há muito mais ingredientes e redores que guiam ao sucesso, um deles é o tempo, outro é a sorte de estar no lugar certo na hora exata. Acho que meu lugar é aqui, a hora é quando o tempo puder.
Alguma outra consideração?
Gostaria de agradecer pela oportunidade e a preocupação de vocês com nossas artes e manifestações culturais. Temos em Itabira uma forma original de fazer e acontecer artes. Além do legado do Poeta Maior, temos equipamentos culturais e educacionais invejáveis, manifestações as mais diversas; um artesanato de grande qualidade, espaços e instrumentos que, bem aproveitados e administrados, são garantias de futuro para as gerações pós-mineração. Lutei tantos anos por uma Unifei, por exemplo, que à sua chegada eu só conseguia dizer: valeu a pena cada gota de suor, cada verso rimado, cada nota compassada. Senão para mim, para meus filhos e netos. Itabira, meus senhores, é daqueles grandes amores que por não sabermos amar, fechamos no peito e chamamos de saudade.