Programa ensina a criança a se proteger da violência
Estudos indicam aumento do número de crianças vítimas de assalto, abuso ou outras formas de violência, em todo o país. Em muitos casos, o agressor é conhecido da criança ou da família. Indicam também que melhor que punir os transgressores é educar as crianças sobre o modo como molestadores em potencial podem tentar seduzi-las, por […]
Estudos indicam aumento do número de crianças vítimas de assalto, abuso ou outras formas de violência, em todo o país. Em muitos casos, o agressor é conhecido da criança ou da família. Indicam também que melhor que punir os transgressores é educar as crianças sobre o modo como molestadores em potencial podem tentar seduzi-las, por exemplo, e o que podem dizer e fazer em situações perigosas.
Esse trabalho é desenvolvido pela 8ª Região de Polícia Militar (8ªRPM) em Governador Valadares, Leste do Estado, através do Programa Educacional de Resistência às Drogas e Violência (Proerd). Até o início do semestre, participavam apenas alunos a partir da 5ª série. Agora, crianças na pré-escola já aprendem a se comportar em caso de perigo.
As aulas para essa turma que ainda não consegue ler e escrever direito são ilustradas e divertidas. O PM instrutor utiliza 20 cartazes – na base de uma lição por dia de aula – que abrangem várias experiências comuns que elas podem encontrar em casa, na escola e na comunidade.
Cada cartaz lida com uma situação específica. Ora oferece às crianças oportunidade de identificar ou confirmar práticas adequadas a serem adotadas para sua segurança pessoal, ora sugere motivos para seguir determinadas regras e instruções nas situações dadas, ou ensina o que devem dizer ou fazer em situações semelhantes, e, sobretudo, reconhecer, evitar, resistir e relatar aos responsáveis por eles situações que possam lhes causar danos.
“O que vocês devem fazer quando os pais demoram a vir buscá-los na escola?”, pergunta o sargento Dirlan Alves Prates, instrutor do Proerd na Escola Estadual São José, Bairro Vila Bretas, para a turma do primeiro ano. Não demora, e a resposta vem dos fundos da sala, dada por Caroline Eduarda de Souza, 7 anos, que, atenta às aulas, disse que o certo é procurar um telefone, – mesmo que seja um orelhão e que a ligação seja feita a cobrar –, para ligar para os pais ou um parente próximo.
As crianças são incentivadas ainda a memorizar o endereço completo de casa e telefones de parentes, da PM (190), Samu (192) e do Corpo de Bombeiros (193). Também são orientadas em qual situação devem ligar. “É só se for um caso de emergência”, ensina Caroline.
Entre os temas das aulas estão os que abordam por que as crianças não devem aceitar presentes nem caronas de estranhos, o que devem fazer se encontrarem uma arma na rua ou em casa, como saber o que é seguro tocar, experimentar, cheirar ou comer; por que não devem entrar na casa de uma pessoa que não conhecem bem; o que fazer se estiverem sozinhos em casa e alguém telefonar ou bater à porta; porque é importante fazer com que as pessoas responsáveis por eles saibam onde estão; o que devem fazer se alguém tentar tocá-los de um jeito que não gostam; como as drogas fazem mal, como podem dizer não; o que fazer para evitar brigas com os colegas e por que é mais seguro seguir instruções.
Lucas Rodrigues de Souza, 7 anos, gosta mesmo é das brincadeiras que ilustram as orientações, mas absorve bem as mensagens do instrutor. “Se achar uma arma na rua, não pego nela. Aviso alguém de confiança ou ligo para o 190. Se eu machucar e estiver sozinho em casa, melhor é ligar para o 193. Mas a gente só pode ligar se for de verdade”, adverte, apressado, para voltar a atenção para as brincadeiras. Na aula de quinta-feira, as crianças se divertiram com o aparelho de telefone com o qual aprenderam a se proteger de vários perigos.
Mais de 40 mil alunos participam
O Proerd, segundo o sargento Dirlan Alves Prates, teve origem em Los Angeles, em 1983, e representa a união de esforços entre a PM, entidades educacionais, famílias e comunidades através de um programa educacional desenvolvido nas salas de aula, com o objetivo de impedir ou reduzir o uso de drogas e da violência por crianças e adolescentes.
Em 1992 chegou ao Brasil, através do Rio de Janeiro, e em 2004 em Governador Valadares, onde é ministrado por policiais capacitados. Até o primeiro semestre deste ano, atendia alunos de escolas públicas e privadas do 5º e 6º ano – mais de 40 mil crianças foram atendidas nesse período – e, agora, chega à educação infantil, com aulas para crianças de 4 a 9 anos. A diferença, explica, é o conteúdo.
A execução do programa cabe ao 6º e 43º batalhões de Polícia Militar. Ainda de acordo com o policial, essa é uma das oportunidades que a PM tem de se aproximar das crianças, de suas famílias, escolas e comunidades. “Estamos nos preparando para atuar no ensino médio e atingir todas as etapas educacionais.
O Proerd Pais também vai mudar para Proerd Comunidade, já a partir de 2011”, revela Prates. Ao final de cada curso, as crianças recebem diploma.
Parceria tem apoio de professoras
Segundo a diretora da Escola Estadual São José, Rosângela Vaz Villela, o Proerd chegou num momento oportuno para assessorar o educandário, que precisava de uma parceria com a PM. “Eles (policiais militares) nos auxiliam com as crianças, trazendo disciplina para a escola.
Os alunos são orientados sobre valores, respeito aos colegas, professores e funcionários desde pequenos. E amam os instrutores, que são carinhosos, educados, cuidadosamente selecionados para a atividade”, enfatiza.
A professora do segundo ano, Otacília da Silva, reforça que o projeto chegou à escola na hora certa. “Precisamos salvar as crianças da violência. É agora, nessa fase da vida, que conseguimos orientá-los, tirá-los da violência que vem recrutando crianças e dizimando famílias.
Através dessa parceria entre PM e escola, elas vão conseguir dizer não à violência, às drogas e se protegerem”, explica. Lembrando ainda que o comportamento de uma criança antes e depois do Proerd é visível. “Eles não aceitam uma bala oferecida por um desconhecido, não seguem pessoas estranhas e tratam melhor o professor e os colegas”.
A professora Geralda Costa, que leciona para o primeiro ano, está feliz com os resultados do programa. “Esse trabalho está ajudando as crianças, mas, principalmente, os professores. Diante da violência que assola as escolas e do bulling, que virou caso de polícia, o momento não poderia ser mais oportuno. Precisávamos de um instrumento eficaz como esse porque, sem ajuda, família e escola não conseguiriam mudar a atual realidade que vivemos”.