Seca brava em Itabira pode ser mais grave que no resto do estado
Assustado? Perplexo? Preocupado? Talvez apenas a terceira opção. Com ela, a procura de solução para um problema que se repete a cada ano em Itabira. Assim se comportou o diretor-presidente do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae), Elio de Assis Vieira, em entrevista a DeFato. A conversa com a reportagem foi longa e dela […]
Assustado? Perplexo? Preocupado? Talvez apenas a terceira opção. Com ela, a procura de solução para um problema que se repete a cada ano em Itabira. Assim se comportou o diretor-presidente do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (Saae), Elio de Assis Vieira, em entrevista a DeFato. A conversa com a reportagem foi longa e dela se tiraram outras lições para uma reportagem, mas algumas notas precisam ser divulgadas agora, até por que são alertas de utilidade pública, embora, como está claro, o episódio transcorre sempre nesse período anual da seca.
Os mananciais de Itabira estão no limite. As causas são várias. A principal pode ser medida por números da Estação Meteorológica, que funciona na cidade desde outubro de 1997. A partir de então, é feita, mensalmente, a leitura e apresentadas as estatísticas de precipitação pluviométrica.
A preocupação de Elio Quadrado é com o novo tempo de crescimento de Itabira, que se junta à seca. Desde julho, o Saae tem cinco pedidos de ligação de água que não pode atender, segundo o diretor-presidente, porque “estamos no limite mesmo”. Os outros pedidos estão chegando, a partir deste ano, em uma média de 300 por mês. “Temos 31 mil ligações de água em Itabira neste final de julho, estávamos estacionados em muito menos de 30 mil; agora o crescimento chegou”, diz Elio Quadrado que explica de onde vem: “Da implantação da Unifei, do projeto Conceição Itabiritos da Vale, e de algumas iniciativas menores”.
Há números que merecem ser comentados. Por exemplo, o ano que mais choveu em Itabira foi o de 2004, com uma média de 133,70 precipitações pluviométricas; o de menor índice foi 2007, com apenas 67,0. O mês de maior registro feito pela estação itabirana foi janeiro de 2004, com 662,4; o de menor, dentro do período chuvoso (porque na seca o 0,00 é comum), é janeiro de 2010, com o maior recorde negativo durante 13 anos, 40,9.
O assunto falta de água em Itabira não é mais segredo de estado, nem de cúpula. Os candidatos de Itabira, principalmente o pretendente ao Senado, Efraim Moura, já divulgam informações detalhadas sobre o tema. Então, parece o momento de ser discutido em público o problema. Élio Quadrado fala abertamente em racionamento. "Quem tiver consciência deve começar já a economizar água", diz.
E AGORA, QUADRADO?
Agora, de acordo com os números, a média de precipitação pluviométrica em Itabira em 2010, até o fim de julho, era de 41,8, que assusta ao mais despreocupado dos seres humanos. O inverno, mais rigoroso em 2010, parece que manterá muito baixos os números até o final do ano. “Este ano, foram registrados números que mostram a ausência quase total da chuva, mesmo nos meses em que chove mais”, comenta Elio Quadrado.
O diretor-presidente do Saae também mostrou a sua preocupação quanto ao desafio do futuro. A captação de água na cidade é feita no Sistema Pureza, que produz 185 litros por segundo e abastece em 51% a cidade; o Sistema Gatos tem produção de 90 litros por segundo, representativo de 15% de todo o abastecimento; o resto, 34%, ou a produção de 140 litros por segundo, são de Três Fontes, no Sistema Pará, com cinco poços artesianos, e o Sistema Areão, que tem quatro postos e três funcionando.
“O futuro está em fase de estudos”, afirma Elio Quadrado, que aponta a única alternativa que se mostra viável: captação de água no rio Tanque, a 18 quilômetros de Itabira. “O projeto será preparado, já tivemos a determinação do prefeito João Izael Querino Coelho, e custará um milhão de reais; já os custos da nova obra deverão superar a ordem dos R$ 50 milhões”, informou, complementando que a Vale, de acordo com compromissos assumidos na Licença Operacional Corretiva (LOC), deve ser a fonte dos recursos.
A solução para curto prazo, que é o desafio de hoje, para Elio Quadrado tem dois vieses: captação em Rio de Peixe, onde o Saae detém outorga, desde 1997, de 60 litros por segundo e tentativa de fazer funcionar um poço que está ocioso no Areão. No primeiro caso, o Saae bate de frente com uma outra outorga, concedida à Vale em 2001, para o objetivo de irrigação, de acordo com Élio Quadrado; no segundo, também tem a Vale no caminho, o poço está ocioso porque o lençol freático foi muito rebaixado nos últimos meses, isto é, a água secou.
Apesar do encontro de Itabira, do dia 20 de julho, quando foi apresentado um balanço de cumprimento da Licença Operacional Corretiva (LOC), itens sobre a responsabilidade da Vale, ter terminado com sinais de otimismo, a situação itabirana não está tão clara assim. A seca ainda não chegou totalmente, o desenvolvimento está apenas em fase embrionária e já falta água? Quem vai dar respostas a estas questões precisa ser Deus? Pode-se concluir: ou se começa a trabalhar mais aceleradamente agora, ou adeus desenvolvimento sustentável!
VALE E PREFEITURA
O prefeito João Izael espera resolver rapidamente a situação para curto prazo com a Vale. De acordo com ele, a solução será a captação na lagoa da Pedreira. “Estamos negociando com a Vale e teremos uma solução para o problema em breve”, afirmou o chefe do executivo a DeFato.
A Vale mostra-se tranquila quanto ao problema e diz que, hoje, só consome 3% da água de Itabira. Alega que todo o seu gasto é todo reciclável. Mas não deixa de explicar que o lençol freático da cidade, no entorno da mineração, caiu vertiginosamente.
PALESTRA NA CÂMARA
Convidado pelos vereadores, o engenheiro Dartison da Piedade Fonseca, que presta serviços ao Saae há cerca de 20 anos, fez mestrado e dedicou seu tema à questão preocupante da captação e distribuição de água na cidade, deverá fazer palestra nesta terça-feira, dia 31 de agosto, no plenário do Legislativo Itabira.
Está aí um convite à comunidade itabirana: quem deseja se inteirar com detalhes e quiser participar, ajudando, dando a sua contribuição, basta comparecer à Câmara nessa prõxima r reunião que acontece a partir de 14 horas.
Apesar da preocupação de alguns segmentos, os moradores da cidade têm muito de que se orgulhar e um desses motivos é o Projeto Mãe D’Água, que se desenvolve sob a gerência do Saae desde o ano 2003 e que acaba de obter, do Ministério do Meio Ambiente, o prêmio “Conservação e Recuperação de Solos, Água e Biodiversidade”, como primeiro lugar no Brasil. A iniciativa tem como objetivo o que está conseguindo: aumentar os níveis de água das nascentes. O problema itabirano é apenas na distribuição, por enquanto, todos sabem disso.