Cresce violência contra crianças em Minas Gerais
MAURÍCIO DE SOUZA F.A., de 11 anos, filha de uma dona de casa e um pai ausente, sofreu violência física e sexual. Foi No dia em que chegou a um abrigo da Região do Barreiro, em Belo Horizonte, F.A., de 11 anos, estava triste e angustiada. Filha de uma dona de casa e um […]
MAURÍCIO DE SOUZA

F.A., de 11 anos, filha de uma dona de casa e um pai ausente, sofreu violência física e sexual. Foi
No dia em que chegou a um abrigo da Região do Barreiro, em Belo Horizonte, F.A., de 11 anos, estava triste e angustiada. Filha de uma dona de casa e um pai ausente, a menina sofreu violência física e sexual. Foi obrigada pela mãe a se prostituir e agredida brutalmente por um vizinho.
Ela só se sentiu acolhida na casa de passagem, onde chegou graças a uma denúncia. Nos cinco primeiros meses deste ano, o número de denúncias feitas por meio do Disque Direitos Humanos (0800-031-1119) contra agressões a crianças e adolescentes cresceu 32%, na comparação com o mesmo período do ano passado. Em 2009, foram 520 ligações, contra as 688 registradas de janeiro a maio deste ano.
O balanço parcial foi revelado pela Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Sedese), para lembrar o Dia Internacional de Crianças Vítimas de Agressão. A data (04/06) foi instituída em 1982 pela Organização das Nações Unidas (ONU). O aumento do número de denúncias serve também como um termômetro para mostrar como a violência contra crianças e adolescentes avança e parece não dar sinais de trégua.
Em Belo Horizonte, a crueldade é tanta que 33 jovens, com até 18 anos, já foram executados somente nos três primeiros meses deste ano, revela outro levantamento feito pela Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds). No ano passado, 121 crianças ou adolescentes foram assassinadas na capital mineira. Os dados comparativos para o mesmo período não constam no site da secretaria estadual.
O mais recente caso de maus-tratos contra criança ganhou notoriedade nacional e chocou o país, ao envolver a procuradora de Justiça aposentada Vera Lúcia Sant’ana e uma menina de 2 anos, que ela pretendia adotar. A promotora foi denunciada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro pelo crime de tortura qualificada. Na quarta-feira passada, o pedido de prisão domiciliar feito pelo advogado de Vera Lúcia foi negado.
Crimes de tamanha crueldade deveriam ser encarados como a gota d’água para mudar o combate à violência contra crianças a adolescentes, aponta a psicóloga Ana Carolina Cordeiro. Segundo ela, a maior parte das agressões acontece no âmbito familiar. Os motivos são variados, mas ligados, principalmente à cultura machista e patriarcal que ainda existe no Brasil. “Vivemos em um país onde educação e violência andam juntas, como se fossem sinônimos. Mudar essa mentalidade é complicado. A conscientização tem que passar desde a escola até o convívio familiar”.
A médica e psicanalista Soraya Hissa de Carvalho alerta que as consequências da violência na infância marcam o indivíduo por toda a sua vida se não houver um acompanhamento adequado. “As marcas deixadas no corpo podem até ser curadas rapidamente, mas as psicológicas podem deixar sequelas para toda a vida”, afirma Soraya.
De acordo com médica, a maioria das crianças vítimas de algum tipo de violência preenche os critérios de diagnóstico de desordens mentais e estresse pós-traumáticos, apresentando reduzido envolvimento com o mundo externo, agressividade e distúrbios de sono. Nos quadros agudos, manifestam sentimentos de infelicidade e pânico, regressões a fases anteriores de desenvolvimento do ego, comportamento autodestrutivo e depressivo.
Alguns estudos afirmam que há a possibilidade da vítima de violência na infância se tornar um adulto propenso a cometer as mesmas crueldades sofridas por ele. “Não há desculpas e justificativas para quem agride uma criança. Estudos mostram que muitos que foram vítimas de violência quando jovens tendem a repetir o modelo aprendido e cometem, na fase adulta, esses crimes”, completa a psicanalista.
Para o coordenador Especial de Política Pró-Criança e Adolescente em Minas, Ivan Ferreira, o aumento das denúncias, observado no serviço estadual, se deve pela intensidade da divulgação de campanhas educativas. “Não podemos afirmar que a violência cresceu, e sim que as pessoas estão mais dispostas a ajudar. A realização da campanha “Proteja Nossas Crianças”, por exemplo, contribuiu para a mobilização da sociedade e possibilitou a abertura de um canal de comunicação para as denúncias. Desta forma, criamos um mecanismo para que nós possamos nos posicionar contra a violência, em prol dos direitos da criança e do adolescente”, afirmou.
A subsecretária de Direitos Humanos, Maria Céres Pimenta, também acredita que o aumento das denúncias mostra maior conscientização da população. “É importante verificar que a sociedade está respondendo bem às campanhas que buscam informar sobre a importância da denúncia dos crimes contra os direitos. O número de ligações recebidas demonstra que a população tem confiança nesse caminho”, ressaltou.
A campanha “Proteja Nossas Crianças” é uma iniciativa coordenada pela Sedese e o Serviço Voluntário de Assistência Social (Servas). O Disque Direitos Humanos é um mecanismo utilizado para combater todos os tipos de violência contra crianças. O serviço é gratuito e sigiloso.