Solução inovadora para o meio ambiente: “a bosta”, diz painelista em Seminário da Funcesi
A solução ambiental, que seria das mais complicadas existentes, não poderia ser mais simples: “A bosta humana”. Assim se pronunciou o ambientalista André Luís Jaeger Soares, que apresentou painel durante a segunda parte do VI Seminário Estadual e I Nacional de Inovação na Gestão Pública Municipal, nesta quinta-feira, 6 de maio, no auditório da responsável pelo […]
A solução ambiental, que seria das mais complicadas existentes, não poderia ser mais simples: “A bosta humana”. Assim se pronunciou o ambientalista André Luís Jaeger Soares, que apresentou painel durante a segunda parte do VI Seminário Estadual e I Nacional de Inovação na Gestão Pública Municipal, nesta quinta-feira, 6 de maio, no auditório da responsável pelo evento, a Fundação Comunitária de Ensino Superior de Itabira (Funcesi). Ainda no painel integrado, falou o coordenador do Programa Vale do Ribeira do Instituto Socioambiental (ISA), de São Paulo, Nilto Ignácio Tatto.
André Luís não fez cerimônia para mostrar o nome do excremento “milagroso”, palavra desprezada como se fosse algo perdido, “que costumam chamar de ‘merda’ e eu prefiro bosta mesmo”, afirmou o apresentador, que é diretor de Pesquisa e Desenvolvimento do Ecocentro do Instituto de Permacultura e Ecovilas do Cerrado (Ipec), de Pirenópolis, Goiás. A organização foi fundada por ele e a mulher, a pedagoga australiana Lucy Legan, em 1998. Seu projeto é uma referência em sustentabilidade no Brasil e no exterior, segundo um dos coordenadores do seminário, cientista político Francisco Graça de Moura.
Mas o seu painel não focalizou apenas a “bosta”. Além do excremento, que pode ser transformado, de acordo com ele, em solução sustentável para fomentar a produção de alimentos orgânicos (adubos e fertilizantes), ele abordou aspectos de elementos básicos e métodos construtivos das principais técnicas ecológicas de construção. André e Lucy adquiriram um terreno baldio no cerrado goiano e aí fizeram a transformação em um plano piloto visitado por especialistas e ambientalistas de todo o mundo.
O esforço da Funcesi em trazer a Itabira uma figura como os dois — André Luís e Nilto Tatto — além de outros, como Fábio Duarte de Araújo Silva (entrevistado com exclusividade por DeFato), Helena Singer, Sílvio Caccia Bava e Luiz Alberto Gouvêa, não foi de todo apoiado pela comunidade regional, ou mais por essa que pela itabirana, como se pôde ver nas presenças registradas no auditório, principalmente na tarde do primeiro dia de trabalho. “Hoje, é preciso conhecer, saber, educar-se”, afirmou o painelista André Luís que, mesmo assim, se considera um tenaz crítico do atual sistema de ensino adotado pelas escolas brasileiras.
O ambientalista concedeu entrevista a DeFato e contou que está desenvolvendo um projeto para a cidade de Castelo Branco, no Noroeste de Portugal, trabalho que demandará mais de um ano. Descoberta a sua inovação que funciona na prática, os coordenadores José Carlos Fernandes de Lima e Francisco Graça de Moura, foram buscá-lo em Perinópolis. Mas tiveram que trazê-lo de Portugal, “porque o esforço vale a pena ser feito”, afirmou Francisco Graça. O apresentador do painel desembarcou em Belo Horizonte, veio a Itabira, apresentou a sua inovação e regressou à Europa. Parece simples. “E os responsáveis por nossos problemas continuam sem ouvir o grito”, proclamou uma líder comunitária durante o seminário.
A reportagem, que esteve em São Paulo recentemente e mostrou o caminho para aproveitamento ou transformação de cem por cento do lixo em riqueza, agora teve a sorte de ouvir o renomado ambientalista sobre o excremento humano. Ele disse que o mundo caminha a passos largos em técnicas inovadoras e que as Estações de Tratamento de Esgoto (ETEs) já são soluções obsoletas. André se assustou quando foi informado de que o custo da ETE de Itabira quase atingiu o investimento de R$ 30 milhões. “A solução agora vem muito mais barata; com R$ 3 milhões posso resolver o problema da bosta itabirana e transformá-la em riqueza, pois bosta é dinheiro”, concluiu entre risos de pessoas que acompanharam a entrevista.
E será difícil que os políticos, que estabeleceram em Minas Gerais uma determinação da Agenda 21, que até 2012 todas as cidades deverão tratar o lixo em aterros sanitários e o excremento em estações de tratamento de esgoto, mudem de ideia para a simplicidade porque já se pode ver na prática o projeto de Perinópolis e de São Paulo.