Brasília: orgulho enxovalhado
Um dos maiores feitos de todos os governos brasileiros, desde o império, chega aos 50 anos coberto de vergonha. Brasília, a linda cidade construída por Juscelino Kubitschek para ser não apenas a capital do país, mas o eixo central de desenvolvimento da nação, chega à maioridade urbana sem festa. Não sobrou ninguém do corrupto governo […]
Um dos maiores feitos de todos os governos brasileiros, desde o império, chega aos 50 anos coberto de vergonha. Brasília, a linda cidade construída por Juscelino Kubitschek para ser não apenas a capital do país, mas o eixo central de desenvolvimento da nação, chega à maioridade urbana sem festa. Não sobrou ninguém do corrupto governo de José Roberto Arruda para levar à frente o megaevento que previa shows, exposições, queima de fogos, lançamento de vídeos e tudo o mais que a cidade e o povo que a construiu e que vive nela, merecem.
A cidade que JK inaugurou após três anos e meio na Presidência da República, erguida no nada, com a coragem e a genialidade de homens como o urbanista Lúcio Costa, os engenheiros Israel Pinheiro e Bernardo Sayão, o arquiteto Oscar Niemeyer, o artista plástico Athos Bulcão, o paisagista Burle Marx e 60 mil candangos vindos de todos os cantos do Brasil, é confundida por muitos brasileiros como a cidade da corrupção.
Uma injustiça sem tamanho para com os dois milhões de moradores que dão vida e brilho a uma cidade que pula de emoção e arte, e que desde os mais duros tempos do Governo Militar, reage. Sou candanga da melhor fase de Brasília, quando a ditadura caiu. Vi a morte de Tancredo e seu enterro; os panelaços contra o Plano Econômico de Sarney; caras-pintadas expulsando Collor de Melo; a esplanada vermelha de bandeiras nas lutas de Lula pela Presidência da República. E sua primeira e histórica posse.
Vi Cássia Eller tocando num boteco em meio a oficinas, e vi Renato Russo cantar suas histórias compridas em shows no Ginásio Nilson Nelson. Acompanhei o crescimento de árvores e o amadurecimento da cidade. E a amo perdidamente, como todos que aqui ficaram ou que aqui nasceram. Três gerações já completas de lindos brasilienses, com um sotaque todo próprio, mistura de todos os sotaques do Brasil.
E por amar esta cidade e ter profunda admiração pelos homens que a fizeram, imbuídos do mais alto espírito nacionalista e revolucionário, repudio os que a governaram nos últimos vinte anos. Homens de má-fé, de nenhum compromisso com a coletividade, ladrões, corruptos e covardes, que ao contrário de JK, ao invés de deixarem seus nomes gravados no coração do povo, deixam impressões digitais nas fichas policiais.
Espero, sinceramente, que eles sejam punidos com a lei do retorno, que é mais segura que a justiça humana. E que Brasília sobreviva a essa corja com a beleza intacta de uma jóia do modernismo, Patrimônio Cultural da Humanidade, símbolo de um momento único na história deste país em que pudemos acreditar no futuro, vê-lo chegar e usufruir dele. Os meninos nascidos aqui, que não descansaram um dia até verem Arruda na cadeia, me dão a certeza de que a cidade tem dono. E farão a festa que Brasília merece no dia 21 de outubro.
* Márcia Lage é jornalista em Brasília há três décadas, nascida em São Sebastião do Rio Preto, ex-aluna do Colégio Nossa Senhora das Dores de Itabira, cursou jornalismo em Belo Horizonte.