Déficit do SUS para pacientes com câncer ameaça atendimento em Minas
Valdir Araújo teve início das sessões adiado devido a defeito em aparelho da Santa Casa Um diagnóstico perturbador chegará às mãos de 46.630 mineiros ainda este ano. Segundo o Ministério da Saúde, esse será o número de novas vítimas de câncer em todo o estado. Embora a realidade já seja por si só preocupante, […]

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| Valdir Araújo teve início das sessões adiado devido a defeito em aparelho da Santa Casa |
A deficiência no serviço obriga 5.836 moradores do interior do estado a enfrentar viagens diárias até Belo Horizonte, que se desdobra para tratá-los com apenas sete máquinas. O quadro é dramático, mas, a partir deste mês, pelo menos parte da pressão será aliviada, com a criação de um Centro de Alta Complexidade em Oncologia (Cacon) em Betim, na região metropolitana da capital, que deve receber 1 mil doentes mensalmente.
Apesar da boa notícia, a grande demanda não é o único problema da rede de oncologia da capital. Centenas de pacientes do SUS têm o tratamento de câncer comprometido devido ao sucateamento das máquinas de radioterapia dos hospitais belo-horizontinos. Especialistas consideram que a vida útil de um aparelho de radioterapia é de 10 anos. Mas as máquinas em funcionamento em BH têm idade média de 15 anos. Como resultado, estragam com frequência e crises no sistema de atendimento sempre são esperadas pelos gestores.
O aposentado Valdir Araújo, de 60 anos, foi um dos prejudicados pela crise. Operado de câncer na próstata em junho passado, ele levou um susto quatro meses depois, quando os exames de controle revelaram propensão a novo tumor. Obedecendo a orientações médicas, marcou imediatamente sessões de radioterapia para conter o avanço da doença. A primeira delas foi para 3 de novembro de 2009, primeiro dia também do longo mês e meio de aparelho quebrado na Santa Casa.
O tratamento previsto para ser iniciado em novembro só começou em janeiro. “Quando o câncer foi diagnosticado, achei que era só fazer a cirurgia e tudo estaria resolvido. Mas descobri que ainda havia muito chão pela frente. Fiquei preocupado com o cancelamento das sessões de radioterapia. O médico tinha avisado que, quanto antes conseguisse, melhor seria”, diz.
O São Francisco voltou a receber pacientes e o aparelho da Santa Casa já funcionava, mas os reflexos da crise estão à vista até hoje nas salas de espera. “A demanda reprimida é grande, porque temos apenas sete equipamentos credenciados pelo SUS em BH, quando deveríamos ter, pelo menos, 10. Se uma máquina para, não tem jeito: os hospitais são obrigados a fazer um quarto turno. Como ainda fica doente sem atendimento, o problema continua nos meses seguintes”, explica o presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Enaldo Melo de Lima.
O Ministério da Saúde, responsável pelo custeio e credenciamento dos procedimentos, informa que sempre aumenta os recursos destinados ao tratamento de câncer e que novos hospitais com radioterapia são credenciados anualmente. “Nosso processo é muito dinâmico. Em 1998, destinamos R$ 300 milhões ao tratamento de câncer. Só no ano passado, investimos R$ 1,2 bilhão”, diz Inez Gadelha, coordenadora da Média e Alta Complexidade da Secretaria de Atenção à Saúde da pasta. Mas, enquanto em 1998 o Brasil tinha 50 mil doentes de câncer, no ano passado o número subiu para 300 mil. Ou seja, nesse intervalo de tempo, a doença atingiu seis vezes mais pessoas, enquanto os investimentos cresceram apenas quatro vezes.
A Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, responsável pelo fluxo de atendimento, nega que haja demora para marcar sessões de radioterapia. “Temos vagas sobrando. Não há crise na radioterapia. O São Francisco voltou a funcionar e não há pacientes em fila de espera na capital. Mesmo quando há máquinas paradas, ninguém fica sem atendimento”, sustenta a secretária-adjunta de Saúde, Susana Rates.
Além de Valdir de Araújo, outros pacientes das salas de espera lotadas da Santa Casa dizem ter conseguido a primeira sessão depois de, pelo menos, um mês aguardando.






