Águas que matam

Santo Antônio do Rio Abaixo

Todo ano a triste história se repete. Pessoas em busca de uma aventura ecoturística são levadas pelas águas de rios e cachoeiras de alguma cidade da região e acabam na lista de vítimas de afogamentos. Só nos últimos três anos, foram 15 mortes, de acordo com dados do 5º Pelotão do Corpo de Bombeiros Militar de Itabira, que cobre 13 municípios.
 
De todas essas cidades, São Sebastião do Rio Preto, Santo Antônio do Rio Abaixo e Santa Maria de Itabira lideram as ocorrências. Segundo o subtenente Márcio Caldeira Soares, comandante do 5º Pelotão, as principais vítimas são homens com idade entre 18 e 40 anos, com perfis aventureiros.
 
O comandante, que está em Itabira desde a instalação da corporação na cidade, afirma que a região apresenta números superiores às estatísticas gerais do estado. Sobre as causas de tantos afogamentos, o subtenente considera uma série de fatores: locais perigosos, improvisados, bebida e coragem além dos limites. “As pessoas sabem que água mata, estão cientes dos riscos, mas fazem-se de ignorantes”, argumenta.
 
As informações preventivas sobre os locais de banho são precárias, mas o subtenente também não atribui a elas a responsabilidade das mortes. Entretanto, se o local for usado como área de lazer, o proprietário pode responder a processos na Justiça. 
 
A estrutura do Corpo de Bombeiros também não é favorável a uma ação preventiva. Treze cidades para atender, ocorrências diversas (não só afogamentos) e uma equipe reduzida, de 25 militares, divididos em plantões. Somente no Carnaval, quando as probabilidades de morrer gente afogada aumentam potencialmente, o Pelotão desloca militares para as cidades mais perigosas a pedido dos prefeitos. Nesses casos, a unidade solicita reforços.
 
Nos demais feriados e eventos de pequeno porte não há possibilidade de monitorar todas as áreas de risco. “Em casos de afogamento, somos chamados para resgatar o corpo, uma vez que a distância, quase sempre, impossibilita o salvamento”, diz o militar.
 
Santa Maria de Itabira
 
Em Santa Maria de Itabira, o local mais procurado pelos visitantes no verão é a Ponte de Arame. O balneário fica a seis quilômetros da cidade, na localidade rural de Morro Escuro, e tem esse nome devido a uma ponte pênsil sobre o rio Tanque. De acordo com a Prefeitura, o terreno é particular e a área usada pelos banhistas é de Proteção Permanente; não pode receber estrutura de clube.
 
Apesar de conhecida, na região da Ponte de Arame não há nada além do rio, da ponte de cerca de cinco metros de altura – de onde alguns pulam em meio às pedras –, e de um boteco que funciona nas altas temporadas. Aproximadamente 50 metros abaixo da travessia é onde mais morrem pessoas, em função da profundidade, que chega a sete metros. “O local já foi dragado para retirada de material, como areia e cascalho e ficou ainda mais fundo”, explica Danilo de Castro, chefe de gabinete da Prefeitura de Santa Maria.
 
Das três cidades, a última vítima resgatada pelos bombeiros de Itabira se afogou exatamente nesta ponte. A itabirana Luciana Aparecida Martins, de 26 anos, foi levada pela correnteza no dia 15 de novembro, um domingo, quando andava sobre uma pedra e escorregou. Seu corpo foi encontrado no dia seguinte, a 150 metros do local em que desapareceu.
 
São Sebastião do Rio do Preto
 
O perigo, em São Sebastião do Rio Preto, concentra-se na Praia do Retiro, propriedade particular que conta com parceria do município na manutenção da estrutura básica. Há mais de 20 anos, a Prefeitura construiu cinco quiosques, instalou banheiros, ligou água e luz e fixou algumas placas educativas no local.
Abaixo das cabanas, uma área de 50 metros de extensão do rio é usada para nadar. Segundo os moradores, é nesse trecho que morre a maioria das vítimas registradas em São Sebastião. “Além das tocas de pedra dentro da água, existe a areia que se move. Às vezes, você está num lugar raso, dá dois passos e cai numa correnteza profunda”, diz um morador que já testemunhou resgates dramáticos no local.
 
Com o objetivo de desenvolver ações preventivas, a Prefeitura criou a Coordenadoria Municipal de Defesa Civil (Comdec), chefiada por Ana Maria Gonçalves, que também é secretária de Cultura, Turismo e Esporte. Segundo ela, no próximo evento a equipe já vai entrar em ação contra os acidentes aquáticos. Um trabalho de mapeamento de toda a área perigosa também está sendo feito, e o resultado será apresentado à população e aos turistas em breve.
 
Santo Antônio do Rio Abaixo
 
O balneário Benedito Martins Leite faz parte de uma área pública, banhada pelo rio Santo Antônio, e é a atração principal em épocas de calor. O local também dispõe de uma estrutura básica, como banheiro, quadra, arena para cavalgada e área para acampamentos. O rio é o maior afluente do rio Doce e possui lugares com até oito metros de profundidade, na área usada para banho. É o único balneário das três cidades que tem placas de alerta sobre os perigos da natureza.
 
Segundo a Prefeitura, apesar de não existirem salva-vidas, o município dispõe de equipamentos básicos de salvamento e conta com pessoas que sabem nadar e conhecem os perigos do rio, em caso de alguma eventualidade.
 
Para que qualquer fatalidade seja evitada e a alegria de um fim de semana não morra na praia (ou no rio), os militares alertam para algumas medidas de segurança: nunca pular em local desconhecido; evitar escalar pedras escorregadias; evitar uso excessivo de bebida alcoólica; não tentar salvar ninguém sem dominar técnicas de natação; e sempre levar uma boia e uma corda em excursões de objetivos aventureiros.