Em entrevista a um jornal televisivo, a respeito da prorrogação da redução do IPI sobre veículos, um economista lembrava que carro é um bem de consumo, não um investimento. O alerta ao consumidor sobre a estratégia do governo em estimular a economia era embasada em dados concretos, mas não se aplica a um público especial: aquele apaixonado por automóveis personalizados. Bem de consumo para esses caprichosos pode ter o mesmo significado de investimento, independentemente do conceito capitalista.
Com ou sem crise, as diversas oficinas especializadas de Itabira, que se responsabilizam em oferecer o que há de melhor no ramo da customização – como é tecnicamente chamada a personalização de automóveis – não param. Carros novos, saídos da fábrica, ou antigos, daqueles só vistos em novelas de época, entram na fila para serem transformados em modelos únicos. Os orçamentos são variados e costumam ser ilimitados.
“Tem gente que traz uma lista de acessórios para colocar e nem pergunta o preço”, conta Tiago Madeira, profissional da área. A linha de produtos é infinita, tanto para o tuning – nome inglês para a arte de personalizar carros, não só em sua aparência, mas também na performance -, quanto para o som. Para acompanhar as transformações de cada época, empresas especializadas lançam novidades que inspiram até filmes (“Velozes e Furiosos” é um exemplo).
“Para personalizar um carro é possível colocar 400 itens ou mais, contando os internos e externos”, quantifica Islacílio de Paula Lima, o mais antigo empresário do ramo em Itabira. Como são bens considerados de luxo, o preço pode chegar a 10 vezes o valor do veículo. Os jovens, principalmente homens, são os mais adeptos à mania, mas não estão sozinhos. “Para ser jovem não se deve considerar somente a idade. Qualquer um pode curtir tuning”, afirma Fábio Félix, de 58 anos, dono de um Logus 95, ganhador de oito troféus na categoria Super Street Car. Para ele, que gosta de automóveis desde criança, a satisfação está no “ser diferente”. “Eu mesmo faço meu estilo”, conta.
Fábio adquiriu o Logus há quatro anos e desde então vem fazendo alterações para deixá-lo com a sua cara. A quantidade de dinheiro que gastou até hoje, ele não faz nem ideia, mas o que interessa não é o valor das cifras e sim, o significado. “Tuning é uma arte. Representa também um pouco da personalidade da pessoa”, define.
Som, película de proteção solar, rodas – de preferência as grandes, que se aproximam das 20 polegadas – aerofólios, suspensão a ar – que permite rebaixar ou suspender o veículo –, turbo para o motor, descarga esportiva, lanternas diferenciadas e centenas de outros detalhes são muito apreciados por quase todos os interessados em automóveis. É difícil até de contar, mas o cliente é exigente e quando chega à oficina, muitas vezes já está decidido.
Ediovane Barcelos, de 32 anos, dono de uma agência carros no bairro Areão, também é fã de tuning. Ele tem dois carros: um Fiat 147, ano 78, e um Kadet 95. “Eu mesmo fiz os projetos para o resultado final sair do jeito que eu queria”, explica, depois de declarar que não gosta dos novos. Só a título de curiosidade, o Fiat custou R$ 5 mil e precisou de mais R$ 15 mil, durante dois anos, para agradar ao dono. O Kadet valia R$ 17 mil e recebeu mais R$ 25 mil de investimento, em cinco anos de oficina, valor que significa a paixão do empresário. A moda é tão forte hoje no Brasil que campeonatos de som, tuning e rebaixados, em níveis nacional e estadual, reúnem os carros mais criativos em temporadas anuais. Os circuitos acontecem em diversas cidades do país. Itabira recebe, periodicamente, as competições.
A última, inclusive, foi neste mês de julho. O evento não é apenas uma competição onde participantes se reúnem com a intenção de ganhar os campeonatos. É uma vitrine na qual se exibem as novidades. Marlon Fernandes, organizador da etapa deste ano na cidade, conta que as pessoas têm prazer em falar o quanto gastaram em seus automóveis. “Existe também uma competição entre os próprios adeptos de carros personalizados. Se alguém aparece com uma roda maior ou um som mais potente na praça, logo a notícia se espalha”, diz.