Acidente na BR-381 vira luta por alimento
O acidente de sexta-feira revelou outro lado da BR-381, o da miséria humana. Mais de 500 pessoas que vivem em áreas invadidas, às margens da estrada, se engalfinharam para saquear a carga de arroz. Um policial rodoviário tentou impedi-las, disparando tiros não letais, e uma mulher foi atingida pelos estilhaços. A empregada doméstica desempregada Tânia […]
Mais pessoas continuavam chegando para o saque, de bicicleta, a pé, empurrando carrinho de mão. O empurra-empurra, as cotoveladas, gritarias e até agressões impressionaram quem estava preso no engarrafamento. Alguns registraram tudo em seus celulares, máquinas fotográficas e câmeras.
Em pouco tempo, a montanha de arroz foi sumindo, diante dos olhos dos policiais, que não tiveram como evitar o saque. Os grãos que vazaram dos sacos foram catados aos punhados. Quando tudo parecia calmo, um homem levantou o que sobrou do guarda-roupa da mudança, no meio do mato, e descobriu mais sacos de arroz, provocando novo tumulto.
O corpo de Damião ficou esquecido atrás dos destroços do caminhão. Sem a polícia por perto, alguns moradores levantavam a lona preta para ver a vítima, indiferentes à tragédia. Um homem, mais piedoso, cruzou dois galhos sobre o corpo, em forma de cruz. A perícia somente chegou às 11h30.
Revolta
Diante de tanta revolta, quem lucra com os engarrafamentos é a desempregada Michele Augusta de Carvalho, de 27, que mora às margens da estrada. “Já ando com minha geladeira abastecida de água, suco e refrigerante. Quando há acidente, ou quando é época de feriado, que param o trânsito, corro para ganhar um trocado”, disse a vendedora ambulante.
De acordo com o policial rodoviário Élvio Quites, já virou rotina acidentes graves pararem o trânsito nesse trecho da BR-381, até por mais cinco horas, principalmente quando há mortos e é preciso aguardar a perícia. A média é de cinco acidentes graves por semana entre Belo Horizonte e o Vale do Aço. “É um trecho de uma pista só e esse transtorno para os motoristas é inevitável. Se fosse uma rodovia duplicada, a outra pista poderia ser usada e o trânsito fluiria nas duas faixas”, acrescentou. Pelo estrago do caminhão, segundo ele, os sobreviventes tiveram muita sorte.
Segundo Élvio, não é possível afirmar se a carga estava irregular. “Mesmo com a mudança em cima da carga, se tiver dentro da capacidade do caminhão, e na altura e largura permitidos, não há problemas. No entanto, havia excesso de passageiros na cabine. O motorista poderia levar apenas dois passageiros, e não quatro”, disse Élvio.
Na sexta-feira à tarde, o motorista Alexandro permanecia em observação no Hospital Risoleta Neves, em estado grave. As outras vítimas foram para o Hospital de Pronto-Socorro João XXIII (HPS), com ferimentos leves. Somente às 13h a BR-381 foi totalmente liberada, mas o trânsito continuou lento por mais de uma hora.