Detalhes da reunião de proprietários rurais de Santa Maria de Itabira na luta contra a insegurança

José Eduardo Magalhães, coordenador da reunião outros componentes da mesa

O encontro de fazendeiros e sitiantes de Santa Maria de Itabira foi iniciado às 9 horas desta quarta-feira, 8 de julho, no salão de reuniões da prefeitura. O prefeito Geraldo do Nascimento Coelho, Geraldo Noé, abriu as discussões afirmando que a iniciativa de mobilização dos proprietários rurais é deles próprios. Chamou à mesa o presidente da Cooperativa Agropecuária do Vale do Santo Antônio, José Eduardo Procópio Magalhães que, por sua vez, convidou para a os delegados Robson Matos Esteves (regional de Guanhães) e Edmar Henrique Cardoso (titular de Ferros). Junto aos presentes, que se somaram 60 no ápice das discussões, estavam os vereadores santa-marienses Maria do Rosário Torres Guerra (Zaia), Luiz Alves Muzzi Filho, Flagson Dias Duarte e João Cornélio Filho.
 
COORDENAÇÃO
 
Convidado pelo responsável pela convocação dos proprietários rurais, o prefeito Geraldo Noé, o presidente da Cooperativa, José Eduardo, fez a leitura de textos de leis que garantem o direito de defesa das vítimas de ataques dos “bandidos” que, segundo os presentes, estão atacando, sistematicamente, a área rural do município. Falou dos propósitos da reunião e da pauta, que teria, a seguir, palestras dos delegados presentes.
 
Percebeu-se que havia um propósito inicial, que seria o de ouvir as polícias acerca dos chamados violentos acontecimentos na região, depois mudado para a organização de um movimento de defesa de vidas e das propriedades. Os motivos: era a segunda reunião marcada para resolver os problemas. Nas duas, segundo a coordenação do encontro, a Polícia Militar pedira o adiamento ou o cancelamento sem explicitar os motivos. “Agora decidimos, mesmo sem a presença das polícias, ouvir as queixas e as sugestões dos fazendeiros e sitiantes” — disse um fazendeiro que estava ligado às decisões, enquanto a assessoria do prefeito Geraldo Noé informava a data em que seria realizada a primeira adiada reunião: 15 de abril de 2009.
 
Coordenando a pauta da reunião, José Eduardo deu a palavra ao delegado regional de Guanhães, Robson Matos Esteves, ao pronunciar uma frase que, de acordo com ele, seria o tema das discussões: “Nada está sendo feito para solucionar os nossos graves problema de segurança pública” .
 
DR. ROBSON
 
O delegado regional de Guanhães, Robson Matos Esteves, que mora na região desde 1993, época em que foi delegado de Itabira e, mais tarde, chegara a ser o titular da 49ª Delegacia Regional da Polícia Civil, cumprimentou os presentes e citou a reportagem de DeFato, de maio de 2009, que tratou do tema “Interiorização do Crime”. Repetiu parte de suas declarações à revista, mostrando a descrença com uma solução a curto prazo para a violência.
 
No seu entender, o problema nasce na educação, ou falta de educação, do brasileiro. Salvando a sua afirmação como precisa, Dr. Robson, como os positivistas da história, determinou o ano de 1964, quando se efetivou o “golpe militar de 1964” (para a maioria) ou “a revolução de 1964” (para os revisionistas), como marco da arrancada de problemas acumulados. Para o delegado, mais tarde interpelado pelo Capitão Geraldo, que se apresentou e informou ter sido um dos que “ajudaram na deflagração da revolução militar de 64”, Dr. Robson disse, textualmente, que “a PM protegeu a ditadura e não defendeu a sociedade”.
 
“A velocidade do sistema — capacidade de investimentos do Estado — é infinitamente menor que a velocidade do crime”, avaliou, acrescentando que o que se discute aqui, neste momento, “não é um problema só de Santa Maria de Itabira, mas do Brasil inteiro ou do mundo”. Solução do drama? “Sinceramente, não vemos, não se vislumbra, e a tendência é piorar”. E apresentou um rumo que pode ser seguido: “Quando adotarmos políticas públicas sérias”.
 
Um dos itens que o delegado citou como componente de políticas públicas é a divisão administrativa das comarcas e delegacias. Citou o exemplo de Carmésia, Santo Antônio do Rio Abaixo e São Sebastião do Rio Preto, municípios que pertencem a comarcas distantes e diferentes de delegacias regionais (apesar de terem sido mudadas para delegacia regional de Guanhães que, por sua vez, comanda Conceição do Mato Dentro, comarca dos municípios citados).
 
Robson Matos Esteves tem o dom da palavra. Ele também cria frases ou eufemismos que demonstram o seu pensamento. Por exemplo, “síndrome da antena parabólica” é mais uma de suas ilustrações ao fato de chegarem as informações em velocidade relâmpago a todos os recantos deste país. Ele quer dizer que as más notícias ou orientações aos bandidos são registros acelerados, que contribuem, também, para o aumento da criminalidade. Num dado momento de suas manifestações, lançou mais uma expressão sua: “cuanca”, que para ele é confusão, balbúrdia, bagunça.
 
O delegado de Guanhães citou particularidades de vários municípios de sua região, as reivindicações e os problemas de muitos deles (com detalhes, a exemplo de pedidos de veículos de tração nas quatro rodas para o policial chegar a lugares de difícil acesso) e os resultados de conferências, ou reuniões, ou fóruns de debates dos quais tem participado nos últimos meses. Participou, segundo informou, de uma conferência em Governador Valadares, para onde se voltam, no momento, as atenções gerais. “Foi revelado nesse encontro que a Governador Valadares é a segunda cidade do mundo em homicídios”. Seria uma média de 45 crimes por mês registrada na cidade do Leste Mineiro, de acordo com as suas informações.
 
“A polícia é a principal responsável pela democracia” . A frase demonstra a sua defesa, incontinente, dos policiais, diante da situação vivida no momento. Culpa de quem, então, pelos problemas que a comunidade enfrenta? “Sistema” — este é o nome do vilão nomeado pelo delegado regional guanhanense.
 
Em defesa feita diante dos ataques que ora surgiam sutilmente em apartes dos componentes da plateia, o delegado citou casos — e até chegou a ‘dar nomes aos bois’ — de policiais que foram ou são processados por pequenos chamados “deslizes” no exercício de suas funções “em defesa da sociedade”. “A polícia não pode infringir a lei, não pode prender quem a comunidade elege como bandido”, disse, “e se erra, paga pelo que fez e ninguém fica sabendo”.
 
Sempre pessimista quanto a uma solução a curto prazo, o delegado, que caminhava de um para outro canto do salão e era observado por 120 olhos rútilos (eram 60 os presentes), citava a educação como o ponto de saída para um problema. Um fazendeiro chegou a resmungar para DeFato, baixinho: “E eu vou esperar que todo esse povo fique educado? Já tenho 68 anos… eu vou é vender a minha propriedade e … ‘picar’ a mula”.
 
O governo é o dirigente do sistema. Ficou claro para o delegado Robson Esteves, quando ele lembrou a “Carta do Zé dos Sonhos”, um personagem criado por navegadores da internet, sobre as reclamações do homem do campo acerca, principalmente, das leis ambientais e seus detalhes que propõem mudar o comportamento ou toda a “constituição da roça”.
 
DR.EDMAR
 
Edmar Henrique Cardoso é o delegado de Ferros. Mas ele substitui, este mês, Cristiane Aparecida Floriano de Oliveira, titular do cargo em Santa Maria de Itabira. Antes que se confirmasse, pôde-se deduzir que ele ali comparecia como responsável pela delegacia santa-mariense. Mais ainda, de acordo com colocações feitas pelos presentes, ele deveria levar ao delegado da 49ª Delegacia Regional de Polícia Civil, Sílvio Henrique Pagy Corrêa, os reclamos e as reivindicações feitas durante a reunião.
 
Edmar Henrique Cardoso deu uma pequena alfinetada na imprensa e olhou para o repórter de DeFato, presente. Segundo demonstrou, a imprensa vive à cata de sensacionalismo. “O repórter pega carona no carro da polícia e depois, já viu, né?!”
 
Conhecedor dos problemas locais, Edmar Henrique Cardoso focalizou exemplos de fatos ocorridos na região, de investigações em andamento e outras questões do dia a dia da cidade. Santa Maria de Itabira tem 400 inquéritos para serem concluídos, número revelado pelo delegado Robson Esteves, o que demonstra que falta pessoal para trabalhar.
 
Antes mesmo que soltasse a sua “bomba” que viria depois, disse que a Polícia Civil de Minas Gerais está preparando 1.500 policiais para distribuir nas várias cidades mineiras. Alertou as autoridades locais, dirigindo-se especificamente ao prefeito Geraldo Noé, para que Santa Maria busque preencher as suas vagas. “A hora de agir é agora”, bradou de alto tom.
 
E a “bomba” do delegado: “Temos, em Santa Maria, pedidos à Justiça, de prisão preventiva de dois cidadãos que, a nosso ver, ou sob a luz das investigações, são os principais responsáveis pelas ocorrências aqui na região”. Em seguida, solicitou aos proprietários rurais que se mobilizem e marquem, se possível, audiência com o juiz criminal da comarca, que atua em Itabira, com o objetivo de obter essa garantia de solução de pelo menos parte dos problemas discutidos naquele momento.
 
Antes de encerrar as suas breves palavras, o delegado Edmar Henrique Cardoso voltou a falar da mobilização que sugeriu à comunidade santa-mariense na busca de pessoal para que seja registrada a normalidade dos trabalhos na cidade.
 
 
BATE-REBATE
 
Foram inúmeras as manifestações dos presentes, nem sempre de acordo com as palavras dos palestrantes delegados. Por exemplo, a vereadora Zaia demonstrou que a comunidade não está assim tão distraída, tão apática, e toma medidas, sim, em sua defesa. Principalmente quanto a questões da área burocrática, considerando o bojo de suas manifestações, a Câmara Municipal de Santa Maria de Itabira está atenta, ágil, presente e tem “corrido atrás”.
 
Alguém sugeriu a recriação da comarca de Santa Maria. Prontamente, o delegado Robson Esteves complementou: “Mas que não seja mais uma comarca sem juiz e sem promotor, como existem inúmeras por aí”.
 
No “Bate-Rebate”, manifestaram-se vários policiais presentes. Eles narraram basicamente como são feitos inquéritos, as dificuldades em se obter informações e a falta de interesse da comunidade em contribuir como nas denúncias contra bandidos. Aliás, sobre a participação da comunidade muito se falou.
 
O próprio delegado Robson Esteves, que chegou a pedir um pincel e ir para um quadro para demonstrar a sua opinião, citou que as políticas públicas necessitam do bom funcionamento das engrenagens que envolvem as polícias civil e militar, além da justiça e, principalmente, da comunidade. Em dado momento do “Bate-Rebate”, Robson escreveu as siglas PPP (Políticas ou Parcerias Públicas Privadas) e PCC (sigla da bandidagem nacional). Afirmou, seguidos de risos, que até agora tudo tem dado em PQP (o ouvinte que saiba o que é).
 
As manifestações renderam respostas dos delegados. A mais notável ficou, como se esperava, por conta de Robson Esteves: “Falam em aumentar o contingente policiais das cidades; há segmentos da sociedade que afirmam ser essa providência geradora de violência”. E explicou que a polícia incomoda, investiga, impede que não habilitados dirijam veículos e apuram mais sobre o comportamento dos cidadãos.
 
“Poucos aqui sabem que a polícia civil já abortou um assalto que ocorreria aqui em Santa Maria com o uso até de um helicóptero”, afirmou o delegado regional de Guanhães que, na época, era o delegado regional de Itabira.
 
Uma resposta ou complemento à denúncia do delegado Edmar Henrique Cardoso sobre o pedido de prisão preventiva solicitado à Justiça da Comarca — e ainda não concedido — veio durante o café e foi dada por um fazendeiro “anônimo”: “Não são dois apenas os bandidos que agem por aqui, são pelo menos cinco, e todos sabem disso”.
 
Além do Capitão Geraldo, falaram Edésio Alvarenga, José Custódio Pires, Genésio Duarte, Oscar Moura, Terezinha Almeida Moura, a secretária de Educação local, Graciela Procópio e mais algumas pessoas cujos nomes não foram revelados. Reclamações gerais assim sintetizadas por um dos manifestantes: “98% dos aqui presentes foram roubados, ou assaltados, ou furtados, ou atacados”.
 
A conclusão, feita por José Eduardo Procópio Magalhães ao término do encontro, tem a seguinte síntese: “A partir de agora, a prioridade de Santa Maria de Itabira é segurança pública”.
 
 
A LISTA
 
A maior “bomba” do dia os policiais, nem a maioria dos presentes, ouviram durante a reunião que durou exatamente duas horas e meia. Ela foi entregue a DeFato no final e gerou mais algumas discussões durante o café oferecido aos palestrantes no gabinete do prefeito Geraldo Noé. Trata-se de uma lista, datilografada em máquina Olivetti, de ocorrências registradas de “dois anos para cá”, como a denomina o fazendeiro Genésio Duarte.
 
Antes e apresentá-la ele fez uma declaração que parecia sintetizar o pensamento da maioria: “Não estamos satisfeitos com os primeiros resultados desta reunião”. Por quê? “O delegado regional não veio, a PM não veio e ainda discutimos o que não interessa”. Podemos entender, positivamente, que este é, sim, o sintoma de nossa revolta, e que pode e deve render frutos”, afirmou a DeFato.
 
A lista é um levantamento das ocorrências registradas em Santa Maria de Itabira no período de dois anos. Ela destaca um fato como “o único que a polícia resolveu”, que é, justamente, o fato narrado por Robson Esteves como “aborto de um assalto com helicóptero”. São 38 nomes de vítimas, grande parte com a recorde de ser assaltado até seis vezes, ou “de 15 em 15 dias”, sistematicamente, como é mencionado na descrição de fatos.
 
O papel datilografado parece exalar cheiro de fumaça e sangue. São tiros, facadas, incêndios, reféns, toque de faroeste nos moldes do Oeste Americano, ao estilo de Burt Lancaster e John Wayne. Quem lê se sente intrigado dentro de um contexto de violência inimaginável, um pouco evitado pela conveniência das pessoas que passam por cima da realidade.
 
E o mais sério: velhos, ou simplesmente pessoas que recebem benefícios do governo (aposentadorias, pensões, etc.) têm a sua “proteção teórica: estariam sendo assaltados em cada dia de pagamento. A lista cita especificamente o distrito de Itauninha como um lugar preferencial de assaltos, mas há, segundo os proprietários rurais, outros ataques em lugares diferentes.
 
Conclusão: DeFato presenciou, em 8 de julho, um evento que jamais tinha sido visto em Santa Maria, que exprime a revolta de fazendeiros, sitiantes e outros proprietários rurais contra o atual estado de coisas e fatos que reina no município. Na cidade, vários assaltos à mão armada já ocorreram, mas nenhum se equipara à vontade de resolver o problema encarado agora de frente pela sociedade santa-mariense.
 
O prefeito Geraldo Noé afirmou à reportagem: “Daqui para a frente tomaremos uma série de medidas. Vamos formar comissões, vamos estabelecer estratégias, vamos lutar contra o crime e a favor de nosso povo”. Que Deus ajude Santa Maria de Itabira. E o resto da região também.