Uma tragédia sem precedentes em São Sebastião do Rio Preto

São Sebastião do Rio Preto, cidadezinha de 1.700 habitantes, perdeu cinco cidadãos de uma só família em afogamentos ocorridos na noite desta quarta-feira, 25 de março, na localidade denominada Rio Preto, a 7 quilômetros da sede. Eram eles: Geraldo da Silva Araújo, 38 anos, casado, agricultor, tio de todas as vítimas; Alessandra dos Santos Silva […]

São Sebastião do Rio Preto, cidadezinha de 1.700 habitantes, perdeu cinco cidadãos de uma só família em afogamentos ocorridos na noite desta quarta-feira, 25 de março, na localidade denominada Rio Preto, a 7 quilômetros da sede. Eram eles: Geraldo da Silva Araújo, 38 anos, casado, agricultor, tio de todas as vítimas; Alessandra dos Santos Silva Oliveira, 21 anos, casada, sem filhos; Kely Marly dos Santos Silva, 13 anos — duas irmãs e primas das demais; Imária Marinho Ferreira, 18 anos e Daniele Marinho Ferreira, 16 anos, também irmãs. As três últimas retornavam de aulas na Escola Estadual Odilon Behrens. Geraldo tinha ido de encontro à filha Andréia, que conseguiu salvar, foi arrastado quando tentou segurar as demais, suas sobrinhas; Alessandra, ex-aluna da escola, que havia ido à cidade fazer compras. Mais cinco estudantes, todos da família, escaparam da tromba d’água que irrompeu nos córregos Jardim e Barreiro, antes mesmo que desaguassem no rio Preto.
Até o início da tarde desta quinta-feira, três componentes do Corpo de Bombeiros de Itabira tentavam encontrar os desaparecidos, em vão. Diante das dificuldades que tinham sido detectadas, incluindo o sobrevoo para reconhecimento de um helicóptero do Corpo de Bombeiros, novos reforços chegavam ao local, com barcos motorizados e outros equipamentos para facilitar as buscas.
DeFato esteve no local e falou com várias pessoas, entre elas duas sobreviventes da tragédia: Mary dos Santos Silva e Andréia. A mãe de Alessandra e Kely Marly, Marta dos Santos Silva, viúva, 46 anos, que tinha oito filhos, rezava na beira do rio pelo aparecimento dos corpos. “Veja, meu filho, há três anos perdi o marido, vítima de derrame e agora perco duas filhas”, chorava inconsolavelmente.
 
O FATO
Estudantes de toda a região são transportados em ônibus, diariamente, para as aulas que se realizam, na parte da tarde, na escola estadual da cidade, e terminam às 17h20. Nesta quarta-feira, o mau tempo impediu o retorno de veículo maior e obrigou que uma kombi fizesse duas viagens à zona rural, região do arraial do Porto e da localidade do Rio Preto, no transporte dos alunos. No segundo traslado, a 1,5 km de seu destino, a kombi não conseguiu subir um morro e caiu num buraco. Os estudantes, em número de nove, mais Alessandra, ex-aluna da escola, seguiram a pé.

Depois de passarem pelo prédio da escola municipal, quando chovia torrencialmente e já era noite, chegaram à confluência dos córregos, onde aconteceu o inesperado: a tromba d’água arrastou cinco dos nove caminhantes que se apressavam na estrada e ainda o tio das meninas que viera ao  encontro delas. O ápice do drama, segundo testemunhas, se desenrolou exatamente naquele momento, com gritos, pavor, choro, pedidos a Deus e cenas que anteviam o pior. "A força das águas foi demais", declarou Mary, uma das sobreviventes.

Ovídio de Ávila Sá, conhecido como Vivi, dono de uma fazenda, cuja sede se localiza em frente ao encontro dos córregos Jardim e Barreiro, local do acidente, contou que ouviu barulho do córrego, consequência de uma grande tromba d’água que caiu na região por volta de 19 horas. Geraldo, pai de uma menina e tio de outras, havia saído para ajudar na travessia dos estudantes. “Ele trabalha comigo há muitos anos, perdi um excelente empregado, que desapareceu nas águas”, informou Vivi, que chorava também a perda de Alessandra. “Apesar de casada, a Alessandra, que foi praticamente criada comigo, continuava trabalhando em minha casa; portanto, perdi dois filhos”, complementou.
Daniel de Ávila Sá, seu irmão, fazendeiro que mora a poucos metros acima, narrou ter tentado sair de moto para ver o “os estragos da chuva forte que caía”. “Ouvi muitos gritos desesperados e fiquei atônito; saltei no local do acidente poucos instantes depois, nas costas de um dos empregados, acredite, depois de ter ido de moto”, contou o fazendeiro.
A mãe de Alessandra e Kely, Dona Marta, chorando disse que elas despediram dela à tarde como se fosse mesmo pela última vez. “Tchau, mãe, gritou a Kely, quando foi para a escola”, falou soluçando. E mais: “Se a condução delas adiantasse ou atrasasse alguns minutos elas estariam aqui comigo”.
A mãe falou também da filha Alessandra: “Ela foi à cidade fazer compras, deixou as compras para serem entregues hoje e não comeu nada do que comprou”. O marido também chorava como criança, de olho nos bombeiros que seguiam em busca dos desaparecidos.
 
AS BUSCAS
Uma dezena de bombeiros, além de um aparato de equipamentos aceleraram o trabalho dos soldados nesta tarde. Esse trabalho começou nos córregos Jardim e Barreiro, em parte completamente vazios a esta altura, e seguiu para o rio Preto, caudaloso e sujo.
Cresce a cada hora que passa o número de populares que acompanham as buscas e vão chegando parentes vindos de várias cidades distantes ou vizinhas. O prefeito Antônio Celso Pessoa Gonçalves Moreira está no local desde a manhã desta quarta-feira, colocou recursos da Prefeitura para ajudar as famílias e os bombeiros. “Foi um fato desagradável demais, a cidade está assustada. Vamos pegar com Deus agora para que sejam encontrados os corpos desaparecidos no rio”, afirmou a DeFato.
 
Enquanto isso, não há aulas nas escolas estadual Odilon Behrens e municipal do Rio Preto. A vigília é total na cidade e na região. DeFato continua acompanhando o drama da família que deixa em pânico uma cidade.