Imprensa nacional repercute crise
Redução de salários da Vale leva tensão a moradores de Itabira Os funcionários receberam uma proposta para ganhar menos e manter o emprego. A maioria dos sindicatos aceitou – mas dois ainda se recusam, em nome da luta contra a “reforma trabalhista” Hélcio Zolini, de Itabira e Congonhas (MG) para Revista Época […]
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DOIS LADOS
Nilton Santos (no alto), demitido da Vale, em um dos cômodos de sua casa em construção. Ele não sabe como vai pagar o tratamento da filha. Souza (acima) resiste à proposta da Vale como uma forma de impedir o que considera ser o início da reforma trabalhista |
Itabira, no interior de Minas Gerais, é terra de um farmacêutico célebre que jamais exerceu a profissão: o poeta Carlos Drummond de Andrade. Se ainda fosse vivo e, em vez da poesia, tivesse ficado em sua cidade natal trabalhando com remédios, hoje Drummond não poderia reclamar dos efeitos da crise econômica mundial. As farmácias de Itabira nunca venderam tantos tranquilizantes e antidepressivos como nos últimos meses. As vendas cresceram cerca de 30%. “A turma anda apreensiva por aqui. Ninguém sabe como será o dia de amanhã”, afirma uma farmacêutica. “Só vi coisa parecida na véspera da privatização da Vale (em 1997).”
A cidade está profundamente ligada à mineração, ao ferro e à Vale. No poema “Confidências do itabirano”, Drummond descreve o cidadão local como alguém que tem “noventa por cento de ferro nas calçadas; oitenta por cento de ferro nas almas”. Foi em torno de uma mina de ferro em Itabira que a Vale nasceu, há mais de 50 anos. A partir de lá, ela virou uma das maiores estatais do Brasil e, depois de privatizada, transformou-se na segunda maior mineradora do mundo, com 100 mil funcionários, negócios em 30 países e receita bruta de R$ 21 bilhões por ano. Até hoje, qualquer coisa que afete a Vale abala Itabira. E é por meio da Vale que a crise global chegou a suas ruas calmas.
A queda da atividade econômica em todo o mundo reduziu a demanda pelo minério da Vale. A empresa projeta para 2009 uma queda de 30 milhões de toneladas na produção. No fim do ano passado, a Vale anunciou a demissão de 1.300 trabalhadores, a maioria de funções administrativas. Na ocasião, a empresa foi cobrada diretamente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Em Itabira, recentemente, 230 trabalhadores diretos e indiretos da Vale foram demitidos – a maioria eram funcionários terceirizados. O comércio está parado, e a Prefeitura apreensiva.
Há duas semanas, a Vale anunciou uma proposta para evitar mais demissões até o dia 31 de maio. Os empregados ficariam sem trabalhar, mas receberiam metade do salário e benefícios, como assistência médica, seguro de vida, previdência complementar, cartão de alimentação, reembolso de gastos com creches, escolas e material escolar. De acordo com a Vale, nenhuma empresa brasileira de seu porte já fez uma proposta semelhante para evitar demissões. “O governo e os sindicatos precisam se convencer da necessidade de flexibilizar um pouco as leis trabalhistas: suspensão de contrato de trabalho, redução da jornada com redução de salário, coisas assim, em caráter temporário”, diz o presidente da Vale, Roger Agnelli. Diante dessa proposta, Drummond talvez tivesse de cortar as porcentagens de seus versos para “quarenta e cinco por cento de ferro nas calçadas; quarenta por cento de ferro nas almas”.
Pagar metade do salário é uma proposta polêmica. Desde que foi feita pela Vale, dez sindicatos que representam cerca de 21.400 trabalhadores em Minas, Mato Grosso do Sul, no Rio de Janeiro e no Pará assinaram o acordo. “É uma ótima solução para preservar nossos empregados”, afirma Marco Dal Pozzo, diretor de recursos humanos da Vale. “Vamos fazer o possível que estiver dentro da lei e ao alcance da empresa.” De acordo com a lei, em caso de crise, as empresas podem suspender temporariamente contratos de trabalho por até cinco meses sem pagar salários, mas têm de manter o plano de saúde e o seguro de vida dos empregados. “O que a Vale está fazendo é melhorar um pouco o que já existe, com o pagamento de 50% do salário”, afirma o advogado Luiz Felipe Tenório, especialista na área trabalhista.
O acordo aceito pelos dez sindicatos, no entanto, sofre resistência de dois. Um deles é justamente o de Itabira, berço da Vale. O outro é o Metabase de Congonhas, a 100 quilômetros de Belo Horizonte. Ambos representam 4.500 trabalhadores. “Essa discussão de crise econômica não cola, o assunto para a Vale não é dinheiro, isso ela tem de sobra”, diz o eletricista Paulo Soares de Souza, presidente do Metabase de Itabira e Região. “A questão é política: há um acordo do Roger Agnelli (presidente da Vale) com a Fiesp (Federação das Indústrias de São Paulo) para impor a flexibilização da legislação trabalhista no país. A discussão que devemos ter é política.”
Vista de Itabira ao lado da mina da Vale. A empresa nasceu na cidade. Hoje, cada emprego na Vale corresponde a outros dois no comércio local
Souza comanda um sindicato que, até recentemente, era ligado à Central Única dos Trabalhadores (CUT), ligada ao PT. Recentemente, o Metabase de Itabira desligou-se da CUT para filiar-se s à Conlutas, uma central ligada ao PSTU, partido de extrema-esquerda. Por ser sindicalista, Souza não está com o emprego ameaçado, pois tem estabilidade garantida por lei. Como deixa claro, sua disputa é política e está concentrada na preservação dos direitos trabalhistas estabelecidos pela primeira vez nos anos 1930, pelo presidente Getúlio Vargas.
A questão, no entanto, passa ao largo da situação concreta dos 4.500 trabalhadores que vivem na região mais de 50 anos após a morte de Vargas. Empregados da Vale ligados aos dois sindicatos disseram a ÉPOCA que a maioria considera que o melhor seria assinar o acordo para tentar evitar mais demissões – uma consequência previsível se o acordo não for assinado. “A gente vinha trabalhando num ritmo alucinante. De uns tempos para cá, algumas minas pararam, mas a cobrança continua. É pressão para tudo, principalmente para assinar o acordo”, disse a ÉPOCA um funcionário da Vale, enquanto se preparava para entrar no ônibus que o levaria ao trabalho na Mina de Máquina, em Congonhas. Lá, 206 funcionários diretos e indiretos da Vale foram demitidos. Em Itabira, uma assembleia para decidir sobre o acordo está prevista para esta semana.
Assim como a Vale, outras mineradoras enfrentam dificuldades. As concorrentes BH Billiton e Rio Tinto também demitiram funcionários. “A Vale está com várias de suas minas paradas no Brasil”, afirma Raimundo Nonato, presidente do Sindicato Metabase de Carajás, no Pará, filiado à Central Única dos Trabalhadores (CUT). “Mas esses dois aí (os sindicatos de Congonhas e de Itabira) pertencem à turma do ‘quanto pior, melhor’. Querem crescer em cima do radicalismo, pondo em risco o emprego de milhares de pessoas.” Inicialmente, o Metabase paraense, comandado por Nonato, não estava incluído na proposta da Vale de preservar empregos, mas pediu para aderir, com medo de demissões.
Os funcionários ligados aos sindicatos de Itabira e Congonhas têm medo de enfrentar as mesmas dificuldades que vivem os 230 funcionários demitidos pela Vale na mina de Itabira. O operador de britador Nilton Santos, de 44 anos, é um deles. Casado, pai de duas filhas – uma delas com problemas de saúde –, Santos pensa em interromper o curso de Direito e tirar a filha mais velha da faculdade. “Neste país, quem passa dos 40 anos dificilmente arranja trabalho”, diz ele. “Estou num sofrimento danado, vivendo do dinheiro da indenização.” Santos tem direito ao plano de saúde por mais cinco meses. “Não sei como vou fazer para continuar o tratamento da minha filha mais nova”, afirma. Santos também construía sua casa.
Os efeitos da crise econômica foram imediatos em Itabira: em dezembro, em vez de crescer por causa do Natal, as vendas no comércio da cidade caíram 10%. “Itabira vive em função da Vale. Se ela demite um (trabalhador), o reflexo será a perda de dois ou três postos de trabalho na cidade”, afirma o empresário Maurício Henrique Martins, presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Itabira. Com medo dos efeitos na arrecadação, a Prefeitura anunciou corte de R$ 30 milhões do orçamento (cerca de 20% do total) e cancelou os gastos com os desfiles de Carnaval.
“O trabalhador demitido não terá mais plano de saúde nem escola particular para os filhos. A pressão por esses serviços vai vir para o poder público”, diz o prefeito José Izael Querilo Coelho (PR). “A Vale nasceu aqui em Itabira e esta crise nos afeta muito psicologicamente.” Infelizmente, até a crise passar, as farmácias de Itabira ainda deverão vender muito antidepressivo. E a cidade pode apenas confirmar a sina descrita no melancólico poema do mais célebre de seus farmacêuticos: Itabira é apenas uma fotografia na parede./Mas como dói!

