A assustadora desenvoltura do CV e PCC: o Brasil vai colombizar-se?
As duas organizações criminosas parecem utilizar os mesmos métodos de Escobar. Os marginais já conseguiram se infiltrar em alguns níveis da estrutura estatal
A partir da década de 1980, a Colômbia foi literalmente dominada pelo crime organizado. O tráfico internacional de drogas se transformou num estado paralelo. A “indústria” da cocaína colombiana abastecia os Estados Unidos e Europa. O dirigente do “megaempreendimento” tem nome e sobrenome: Pablo Emilio Escobar Gaviria — popular El Patrón. Esse marginal latino foi um dos homens mais ricos do planeta, segundo a revista Forbes. A sua exorbitante fortuna chegou a 30 bilhões de dólares em 1987. Escobar fundou o Cartel de Medellín — uma das maiores organizações criminosas de todos os tempos, a mais autêntica máfia da periferia.
A situação andava crítica no país andino. A cidade de Cali era sede de outro bando de menor potencial, embora bastante ativo. Nesse cenário, os cartéis de Medellín e Cali infernizavam a nação vizinha. Pablo Escobar utilizava a sua privilegiada inteligência para o exercício do mal. O gangster aliciou todas as esferas da sociedade. A princípio, promoveu um consistente trabalho de falso assistencialismo. Distribuiu casas próprias a granel para a comunidade carente. Em outra frente, subornou membros do Judiciário, políticos e forças policiais. Quando alguma autoridade o incomodava, Escobar encaminhava-lhe uma mensagem, que era um misto de oferta de propina com ameaça de morte: “plata o plomo? ” (dinheiro ou bala?). Quem não aceitasse “plata” levava chumbo. A audácia de Pablo era tanta que, antes de cair definitivamente na clandestinidade, conseguiu eleger-se deputado. O triunfo nas urnas foi reconhecimento pela sua “benevolência” social. A aventura na atividade pública, porém, durou pouco. Com menos de dois anos, o narcotraficante abandonou a política.
Na década de 1980, o Cartel de Medellín encurralou o Estado Nacional colombiano. Atentados, invasões de prédios públicos, sequestros e execuções sumárias se transformaram em meros componentes da paisagem urbana. A criminalidade virou sinônimo de banalização. Em dez anos, cerca de cinco mil pessoas morreram nessa guerra informal.
Um exemplo muito representativo ilustra o poder alternativo de El Patrón. Em 1990, haveria eleição para a presidência da República. Um ator despontou como franco favorito. O jornalista e advogado Luis Carlos Galán Sarmiento prometia acabar com a violência e o tráfico de drogas. A principal proposta do corajoso visionário era colocar os traficantes na cadeia. Esse discurso perturbou Pablo Escobar. E não sem motivos. As principais pesquisas de opinião projetavam a vitória de Galán. O chefão do crime organizado não teve dúvidas diante da circunstância adversa. Ordenou a destruição do provável obstáculo. Natural consequência. Sarmiento foi fuzilado durante um comício na cidade de Soacha (região metropolitana de Bogotá).
E não parou aí. O “capo” promoveu outra ação extrema naquele conturbado pleito. Ele decidiu eliminar também o segundo colocado na preferência do eleitorado. A bola da vez seria César Gaviria. Para alcançar seu intento, determinou a explosão de um Boeing 727. O candidato embarcaria nessa aeronave. Um imprevisto fez com que Gaviria desistisse da viagem. O frustrado atentado, porém, pôs um ponto final na vida de 170 passageiros. César Gaviria- até mesmo por conta da comoção popular — elegeu-se presidente. O império de Escobar só desmoronaria em 2 dezembro de 1993. Nesse dia, o facínora foi morto depois de longa perseguição policial. O novo presidente da República-com o mesmo sobrenome do megatraficante — liquidou Pablo Escobar com fundamental ajuda do serviço de inteligência dos Estados Unidos.
A histórica tragédia colombiana é motivo de reflexão para o Brasil de hoje em dia. A desenvoltura do Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) assusta. As duas organizações criminosas parecem utilizar os mesmos métodos de Escobar. Os marginais já conseguiram se infiltrar em alguns níveis da estrutura estatal. O PCC E CV “investem” em postos de combustíveis, empresas de ônibus, segmento imobiliário, internet, distribuição de gás, agronegócios e também em “drogarias”, claro. Tudo isso nas principais metrópoles do país. Nesta altura do campeonato, o Brasil mirou a Colômbia e sussurrou: “eu sou você amanhã”.
P.S.1: Alguns órgãos de imprensa da Colômbia desenvolveram intensa campanha contra Pablo Escobar e seus sicários. A resposta do narcotraficante foi muito dura, como sempre. Guillermo Cano, dono do jornal El Espectador -um dos principais órgãos de imprensa do país- foi executado pelos milicianos do Cartel de Medellín em 1986.
P.S.2: O CV e PCC são apenas as pontas do grande iceberg das facções brasileiras. O Brasil tem cerca de 90 organizações criminosas em diversos pontos do seu território. Está tudo dominado?
Sobre o colunista
Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.
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