Não sou patriota. Nunca tive tamanha pretensão. Muito pelo contrário. “Herói é o cabra que não teve oportunidade de fugir”. Concordo com este aforismo atribuído a Millôr Fernandes. Este ligeiro preâmbulo é gancho para uma confissão. Não torcerei pela Seleção Brasileira na Copa do Mundo deste ano. Por motivo óbvio. Não pretendo ser cúmplice de vexame previamente anunciado. Mesmo porque, a equipe nacional se especializou na arte da vergonha alheia planetária. A chacota se repete a cada quatro anos.
Raramente, escrevo sobre o esporte bretão. Esta lorota não é minha praia. Prefiro ler crônicas de Tostão, Juca Kfouri, Alicia Klein, Mauro Cezar, Milly Lacombe e Chico Maia. E vou aquém. Contento-me com vitórias e grandes conquistas do Cruzeiro. E ponto. Ocasionalmente, converso sobre jogo de bola nas desarrumadas mesas dos botequins da periferia. Mas tem um porém. A paixão doentia pelo time da Toca limita minha argumentação racional. A obsessão pelo Palestra de Minas é pragmática. Coleciono camisas, chaveiros, flâmulas, copos, broches, bonés e outros símbolos da cabulosa Raposa. Não perco uma partida da mais bela constelação do Hemisfério Sul. Desta forma, jamais trocaria inexpressivos amistosos do esquadrão celeste pelas “peladas” oficiais do escrete nacional. Esta “pelada” não é sentido literal. É mera referência ao jogo mal jogado. Trata-se de costumeiro adjetivo para definir arranca-tocos.
Que fique bem claro. A minha conversa é de simples torcedor. Não existe nada de técnico na análise. O talentoso jornalista Victor Eduardo é o especialista, de fato, na área. E vamos lá, como diria o bom profissional da Vênus Platinada. O último mundial foi no Qatar. E o que aconteceu, além do sol escaldante? O script natural. O desempenho do ajuntamento verde/amarelo torrou a paciência da massa. Que fiasco! Os “comandados” de Tite foram atropelados pela “poderosíssima” Croácia. Os “perebas” capotaram em plenas quartas de final. O que é Croácia? Pratica-se futebol neste lugar? Cá para nós, os “titenianos” foram até longe demais. E nada mudou de lá para cá. Então, competir para quê? Para que competir? O resultado derradeiro é previsível. Agora, a seleção (sic) nacional disputará a personalíssima Copa no reino do imperador Donald Trump. Os Estados Unidos nem deveriam ser uma das sedes. Mas tem explicação para tal desatino. O dinheiro rola com muita desenvoltura nos gramados do mercado. A Fifa é uma instituição extremamente capitalista.
Na década de 1970, Jota Júnior- o maior locutor esportivo mineiro de todos os tempos- abria as jornadas esportivas da rádio Guarani com o seguinte bordão: “o esporte é o congraçamento dos povos”. É mesmo? Um esclarecimento. O Jota de Minas nada tem a ver com o xará paulista, ex- narrador do canal sportv. O mineiro (de Goiás) morreu precocemente aos 42 anos de idade, no início dos anos 1980. Um câncer na garganta calou a mais potente voz das Alterosas. Quanta fatalidade! Mas fica a constatação. O mundial da terra de Tio Sam jamais será congraçamento de povos. Pelo contrário. Tem tudo para se transformar num asqueroso desfile de discriminação racial e xenofobia. Afinal, estas são as marcas registradas do governo do pato manco. E pior. O atual ocupante da Casa Branca não sabe a real diferença entre bola de futebol e uma melancia. Trump mal entende de Melania.
Então, só resta torcer para tudo dar certo, sem violências físicas ou verbais. Nada de barbarismo. E para concluir. Ando com pressentimento sobrenatural. Um misterioso passarinho me cantou que a França será campeã da tradicional competição. O Brasil passará distante da taça. Argentina idem. O combalido Neymar e seus parças não irão muito adiante. Apenas encenarão o ridículo papel de sempre. Enfim, é hora de cervejada. A Copa do Mundo permite justos pretextos para honrosos porres. O som de La Marseillaise, no entanto, ecoará numa Paris literalmente em festa.
PS: ficarei mais de um mês sem ver uma partida do Cruzeiro por causa desta bendita seleção. É sacrifício muito desumano. Ainda assim, vestirei a linda camisa da Raposa em homenagem à “selenada”.
Sobre o colunista
Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.

