O embate entre Davi e Golias atingiu patamar inédito. Ou melhor. O arranca-rabo de Davi do Macapá (AP) e Golias de Garanhuns (PE) ameaça sair do controle. Vale relembrar o motivo do início deste charivari de republiqueta de bananas. Um dia, o presidente Lula selecionou Jorge Messias para a vaga de Luís Roberto Barroso no Supremo Tribunal Federal (STF). Davi Alcolumbre — presidente do Senado — apostava todas as suas fichas em Rodrigo Pacheco, o representante de Minas Gerais na capital federal. O mineiro também contava com apoio de estrelas cintilantes do STF.
Até aqui tudo bem. A escolha de um juiz para a Suprema Corte é atribuição exclusiva do chefe de Governo (e Estado). Este é o script em condição normal de temperatura e pressão. Sempre foi assim. Desde mil oitocentos e antigamente funciona desta forma. De repente, no entanto, um iconoclasta tenta demolir tradicionais preceitos legais. O mandachuva do Senado pretende sequestrar a prerrogativa do morador do Palácio do da Alvorada. No extravagante arcabouço “alcomlubriano”, os senadores escolheriam os seus futuros togados de estimação, ou terrivelmente qualquer coisa. Este devaneio é sonho de consumo do político amapaense. Uma aberração, diga-se.
Essa confusão, porém, era desnecessária. O bate-boca de lavadeiras não teria acontecido caso Lula tivesse trocado Messias por Rodrigo Pacheco. Seria apenas a permuta de um causídico por outro. A mudança — data venia — não provocaria transtornos. Mesmo porque, o Gulliver das montanhas é de plena confiança do Lulopetismo. Na presidência do Senado, ele fez malabarismos mil pelo governo. Do alto de sua estatura de arranha-céu, descascou imensos abacaxis. Chegou a bater de frente com Arthur Lira, o então truculento e arrogante presidente da Câmara. E esta confiabilidade só aumentou com o tempo. Tanto que Rodrigo era (ou é) o “plano A” para a disputa do governo das Alterosas.
Agora, então, pinta no ar a pergunta que insiste não se emudecer: por que Lula não enfiou a toga em Pacheco? A resposta é óbvia. As contradições da alma do “homem” impediram o recuo tático. Vaidade intensa e teimosia excessiva “os males de Lula são”. A crise se instalou de vez no sistema. O cenário piorou ainda mais por motivo patético. Alcolumbre quase levou apoteótica rasteira do companheiro maior. Lula não informou oficialmente à Câmara Alta a indicação de Messias. Neste caso, a data da sabatina não deveria ter sido marcada. Davi ficou uma arara quando descobriu a picardia lulista. E aí o “trem” azedou definitivamente. O Calvário (ou Gólgota) do neomessias foi montado com esmero. A encenação provocará a mesma comoção do sacro teatro da Vila Amélia.
Em toda esta história, porém, um aspecto crucial não passa despercebido. O advogado-geral da União dificilmente será aprovado na inquirição da CCJ. Pelo menos, na atual configuração. Lula, diante de possível revés, terá que apresentar novo candidato. O mandarim da República retrocederá e colocará Rodrigo Pacheco na fita? Difícil acreditar nesta hipótese. Davi Alcolumbre, por sua vez, engolirá outro nome, distinto do distinto Rodrigo? Talvez. Afinal, o país não pode ficar refém de briga típica de crianças birrentas.
Na década de 1980 — durante as grandes lutas por conquistas trabalhistas — o PT bradava para a plateia: “a luta continua, companheiros”. Nos dias de hoje, a retórica é sobre outra realidade: “a crise continua, companheiros”.
P.S.: Davi Alcolumbre adora atazanar a vida dos candidatos a ministro do STF. O senador tentou — de todas as formas — melar a sabatina de André Mendonça, o terrivelmente evangélico da preferência de Jair Bolsonaro. Alcolumbre, então presidente da CCJ, cozinhou por quatro meses o interrogatório de Mendonça.
Sobre o colunista
Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.
O conteúdo expresso é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião do portal DeFato Online.

