A Justiça brasileira encontra-se cega, surda e nua
Desafio de Jesus Cristos aos togados do STF: “quem não recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro que atire a primeira pedra”
O título acima não é uma percepção universal. Uma instância do judiciário não se enquadra no ponto de vista do senso comum. Justiça se faça. Os tribunais dos grotões periféricos atuam com discrição e relativa eficiência, apesar da síndrome de tartaruga. Em exercício profissional, mantive escassos contatos com magistrados do fórum Desembargador Drumond. Ainda bem! Num dos processos eleitorais, tentei entrevistar a juíza responsável pela organização do pleito. Persisti no intento. Não teve jeito. A meritíssima fugiu como o demônio da cruz. Desisti. A distinta senhora fez uso da prerrogativa de não falar com jornalista. Um direito líquido e certo, diga-se.
Os capas- pretas de Brasília têm comportamento diverso. Extasiam-se diante de microfones e câmeras. São idólatras do deus holofote. Pavoneiam-se com extrema facilidade. Manifestam-se costumeiramente fora dos autos. Um horror. A imensa cauda colorida de pavão é marca registrada desta poderosa elite institucional de republiqueta de bananas. E nós, contribuintes, somos o delicioso fruto. Realmente, a nação é formada por uma população banana.
E como funciona o Supremo Tribunal Federal (STF)? A entidade é manancial de regras arcaicas e extravagantes. Um exemplo. Os togados só se erguem das cadeiras com auxílio de servidores especializados, os famosos capinhas. Durante as sessões, acontecem festivais de caras e bocas com falsa erudição juridiquês. A embromação linguística forma a comunidade de fala desta “brava gente” do terceiro poder da República. Nós outros, mortais comuns, entendemos bulhufas do dialeto do STF. E não é para compreender mesmo, claro.
Este universo fora de órbita, porém, tinha um encontro marcado com o seu apocalipse. A data escatológica caiu na terça- feira passada (15/9). Foi evento histórico. Um autêntico teatro dos horrores. A Suprema Corte literalmente virou pó. Viu-se, no caótico plenário, uma baderna típica de arruaceiros de ”copos sujos”. Na verdade, o debate (ou embate) mais parecia uma refrega entre peraltas da primeira série do ensino fundamental. Tudo dentro da liturgia do cargo. Só faltou o discurso descambar para algo do tipo: “com todo o respeito, vossa excelência é um ilustre fdp”.
E haja estômago para aguentar a oratória visceral de Moraes, Dino, Mendes, Mendonça e Fux. Todos apopléticos, terrivelmente com sangue nos olhos. Não se iludam. A Justiça superior do país mergulhou num imensurável mar de lama. E aqui entra certa contextualização com Jesus Cristo. O Messias (o verdadeiro), caso habitasse entre nós, proporia o seguinte desafio aos juízes do STF: “quem não recebeu alguns trocados de Daniel Vorcaro que atire a primeira pedra”.
A coisa anda feia lá pelas bandas da Praça dos Três Poderes. O ar encontra-se irrespirável. Mas há uma maneira de se estancar a intensa hemorragia moral e ética. Uma recomendação. Os supostos envolvidos na teia de corrupção do “mineirinho come quieto” deveriam deixar o cargo imediatamente. Desta forma, ficariam vagos os tronos de Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Kassio Nunes Marques, André Mendonça e Luiz Fux. A princípio. Há mais alguém no escurinho do cinema? A exclusão dos citados “digníssimos” provocaria a inviabilidade funcional do tribunal. Esta seria a consequência drástica da solução milagrosa.
A Justiça nacional está literalmente cega. Os membros do judiciário- lá de cima- não enxergam a extensão da desfaçatez. Surda. As “turmas” não ouvem o clamor do bom senso (ou o pedido para que deem no pé). A justiça brasileira encontra-se moralmente nua. O vergonhoso striptease aconteceu na pornográfica sessão do dia 15- quando foi exibido um filme da Boca do Lixo. “Alea jacta est”, como diria Júlio César. Chegamos às margens do Rubicão ou ao fundo do poço.
Sobre o colunista
Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.