“A mineração ajudou a cidade a crescer, mas precisamos criar novas fontes de emprego e renda”, afirma prefeito de Barão de Cocais

Geraldo Abade concedeu entrevista ao jornal “DeFato – Cidades Mineradoras” e falou sobre dependência econômica e o planejamento pós-mineração para o município

“A mineração ajudou a cidade a crescer, mas precisamos criar novas fontes de emprego e renda”, afirma prefeito de Barão de Cocais
Foto: Divulgação/Ascom/Barão de Cocais

Em 2024, Geraldo Abade das Dores (PSD) foi eleito prefeito de Barão de Cocais com 53,02% dos votos válidos — em uma chapa composta com Bruce de Armando (PSDB), que assumiu como vice-prefeito. Com a experiência de três mandatos anteriores, Abade chega à metade da sua quarta passagem à frente do Executivo cocaiense com a missão de guiar o município na busca pela diversificação econômica e o planejamento para o pós-mineração.

Com mais de 32 mil habitantes, além de uma população flutuante de outras 12 mil pessoas, Barão de Cocais, assim como muitas cidades do Médio Piracicaba, ainda tem a sua economia bastante atrelada ao setor mineral. Segundo informações da Prefeitura Municipal, cerca de 81% da arrecadação vem da mineração.

Ciente da situação e do desafio, Abade vem desenvolvendo com a sua equipe um planejamento que prevê o fortalecimento de outras áreas da economia de Barão de Cocais, como turismo, comércio, serviços e indústria. Além disso, o prefeito afirma que pretende “aproveitar a boa localização da cidade, perto da Região Metropolitana de Belo Horizonte, e melhorar ainda mais a infraestrutura para atrair novas empresas e gerar empregos”.

Confira abaixo a entrevista com Geraldo Abade, prefeito de Barão de Cocais:

DeFato: Hoje, qual é o grau de dependência da economia do município em relação à mineração (emprego, arrecadação, cadeia produtiva)?

Abade: Hoje, aproximadamente 81% da arrecadação do município vem da mineração, principalmente por meio da CFEM [Compensação Financeira pela Exploração Mineral] e ISS [Imposto Sobre Serviços]. Isso representa aproximadamente R$ 30 milhões por mês.

Barão de Cocais tem 32.485 moradores segundo o último censo do IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística], mas estima-se que outros 12 mil trabalhadores estejam na cidade por causa da mineração — uma população flutuante.

Como toda cidade minerária, a economia de Barão Cocais está direto e indiretamente ligada ao setor. Essa presença da mineração não é vista apenas como dependência, mas como base que permitiu à cidade avançar em infraestrutura e organização econômica.

DeFato: O senhor considera que essa dependência representa um risco estrutural para o futuro da cidade? Por quê?

Abade: Sim. Quando a maior parte da economia depende de um único setor, existe sempre um risco. Mesmo havendo previsão de minério para muitos anos, o preço desse minério pode variar, as regras podem mudar e isso pode afetar empregos e arrecadação. Por isso, é importante preparar a cidade para ter outras fontes de renda no futuro.

DeFato: A prefeitura trabalha com algum estudo ou projeção sobre o ciclo de vida da atividade mineral no município?

Abade: A Prefeitura acompanha estudos técnicos feitos pelo Instituto Euvaldo Lodi (IEL), que analisaram a economia de Barão de Cocais e apontaram caminhos para o futuro. Esses estudos mostram onde a cidade pode crescer além da mineração. Também acompanhamos as informações das próprias mineradoras, que indicam que ainda há reservas para muitos anos, o que permite planejar com calma e responsabilidade.

DeFato: A cidade possui um plano de diversificação econômica?

Abade: Nosso planejamento prevê fortalecer outras áreas da economia, como turismo, comércio, serviços e indústria. Queremos aproveitar a boa localização da cidade, perto da Região Metropolitana de Belo Horizonte, e melhorar ainda mais a infraestrutura para atrair novas empresas e gerar empregos.

DeFato: Quais setores foram definidos como prioritários para reduzir a dependência da mineração?

Abade: Estamos discutindo o fortalecimento da indústria, principalmente nas áreas de metalurgia, fabricação de estruturas metálicas, laticínios. Também queremos desenvolver melhor o turismo, incentivar a economia criativa e melhorar a logística da cidade, facilitando a chegada de novas empresas.

DeFato: Que ações concretas já foram implementadas para atrair novos empreendimentos?

Abade: Estamos reorganizando o Conselho de Desenvolvimento Econômico, planejando uma área estratégica para áreas industriais na região da comunidade do Boa Vista — entre a BR-381 e a MG-436 —, revisando o Plano Diretor para facilitar novos investimentos e mantendo diálogo com o InvestMinas para colocar Barão de Cocais no mapa das cidades que podem receber empresas.

Também garantimos o protagonismo da Sala Mineira do Empreendedor, apoiamos feiras, comércio local e capacitação profissional.

DeFato: Parte dos recursos oriundos da mineração está sendo direcionada para estruturar a economia do futuro? De que forma?

Abade: Estamos investindo em infraestrutura, pavimentação, melhoria de acessos, iluminação pública, saneamento e organização da cidade. Também investimos em qualificação profissional por meio de parcerias com o Senai, incentivamos pequenos negócios e buscamos novos cursos técnicos e superiores para a cidade. A ideia é usar os recursos de hoje para preparar o amanhã.

DeFato: O município tem criado fundos, programas ou investimentos estruturantes com visão de longo prazo?

Abade: Estamos reorganizando o Conselho de Desenvolvimento Econômico para que ele ajude a planejar o futuro da cidade de forma permanente, não apenas pensando no presente.

Além disso, estamos trabalhando a criação de um fundo que servirá como uma reserva para momentos em que a arrecadação diminuir, garantindo que a cidade continue funcionando bem.

DeFato: A cidade possui um plano específico para o pós-mineração?

Abade: Os estudos realizados já pensam no futuro da cidade além da mineração. O objetivo é fortalecer outros setores, gerar novos empregos e preparar Barão de Cocais para continuar crescendo mesmo quando a atividade mineral diminuir.

DeFato: Quais são os principais eixos desse planejamento?

Abade: Os principais pontos são: fortalecer a indústria, melhorar a infraestrutura, qualificar a mão de obra, atrair novas empresas, incentivar o turismo e apoiar pequenos empreendedores.

DeFato: Existe diálogo com as mineradoras sobre a transição econômica?

Abade: O diálogo com as mineradoras é permanente e tem gerado resultados concretos para a população. Um exemplo recente é o acordo histórico liderado pela Prefeitura para minimizar os impactos da mineração na cidade

Após diversas reuniões e articulações, foi firmado um acordo com sete empresas mineradoras para reforçar a limpeza urbana nas áreas mais afetadas pelo tráfego da atividade mineral. O compromisso prevê serviços diários de varrição, capina, lavagem de vias e controle da poeira em ruas e avenidas do município. A Prefeitura atua como fiscalizadora do contrato, garantindo que as ações sejam executadas corretamente.

Esse acordo mostra que o município mantém uma postura firme, responsável e aberta ao diálogo, buscando soluções práticas que tragam melhorias reais para a qualidade de vida da população.

DeFato: Quais investimentos em infraestrutura estão sendo feitos para atrair novas atividades econômicas?

Abade: Estamos revisando o Plano Diretor, planejando áreas para galpões industriais perto da BR-381, buscando melhorias na MG-436 e organizando melhor o uso do solo da cidade, com a revisão do Plano Diretor, em tramitação na Câmara. Também investimos em pavimentação, drenagem, iluminação e melhorias urbanas, que são importantes para atrair empresas.

DeFato: Qual é o maior desafio para preparar a cidade para o futuro sem a mineração?

Abade: O maior desafio é ampliar as oportunidades. A mineração ajudou a cidade a crescer, mas precisamos criar novas fontes de emprego e renda. Estamos trabalhando para que Barão de Cocais tenha uma economia mais forte, com várias áreas se desenvolvendo ao mesmo tempo, garantindo segurança e qualidade de vida para as próximas gerações.