A presença indireta da Orquestra Ouro Preto em minha vida

Na semana atrasada, a filarmônica ouro-pretana (ou ouro-pretense) fez outra exibição de gala, na Praça do Areão, aqui em Itabira. Foi um show à altura dos 80 anos do Metabase

A presença indireta da Orquestra Ouro Preto em minha vida
Foto: Orquestra Ouro Preto/Divulgação
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A maravilhosa Orquestra Ouro Preto tem algo a ver com a minha vida. Neste mês, a atração artística da cidade histórica fez duas performances sublimes, só para não perder o costume. A apresentação com Alceu Valença, na icônica Praça Tiradentes, foi apoteótica. O acontecimento teve sofisticação barroca (com riqueza conceptista).

A Praça Tiradentes sempre foi palco de grandes manifestações socioculturais. Na década de 1970, por exemplo, se transformou em passarela privilegiada do Movimento Hippie. Mas nada tão encantador quanto a Valenciana “belle de Jour” na Ouro Preto. Como o emblemático espaço do herói da Inconfidência Mineira comportou tão imensa e emotiva multidão? Há uma explicação metalinguística para o fenômeno. A impressionante imagem do público compacto é a própria definição da praça na Praça.

Na semana atrasada, a filarmônica ouro-pretana (ou ouro-pretense) fez outra exibição de gala, na Praça do Areão, aqui em Itabira. Foi um show à altura dos 80 anos do Metabase. André Viana descobriu o mapa das minas. Afinal, o líder dos trabalhadores percebeu que sindicato também pode ser uma poderosa ferramenta de difusão da cultura.

Mas, afinal, onde entra a Orquestra Ouro Preto em “meu eu” específico, além da nossa origem comum, apesar do “itabiranismo” latente em mim? Vem aí mais um mergulho no tempo.  No início da década de 1970, fui estudante de Mineração na Escola Técnica Federal de Ouro Preto (ETFOP). Ali, então, começou a minha caminhada rumo a Itabira.  Naquela época, os alunos de engenharia da Escola de Minas da UFOP lecionavam na ETFOP, nas horas vagas. Esse malabarismo didático era a garantia de alguns trocados para as cachaçadas das orgias republicanas.

Tudo ia muito bem. Até que começou a segunda série do curso. Foi o início da minha via-crúcis na instituição de ensino. Confesso: sempre tive monumentais dificuldades com números. Sou praticamente “analfabeto” na matéria. E, para complicar ainda mais, pintou um imenso pesadelo no meu sonho de verão. A aparição assustadora atendia pelo nome professor Ronaldo Rebert Bayão Toffolo, o homem da mais pura matemática. Tratava-se de um jovem magricela, com cabelos loiros curtos bem cuidados e barba aparada com apuro. Era muito bem-humorado. O mestre lecionava em alta velocidade. Falava rápido e caminhava a passos largos pela sala de aula.

Naquela paisagem infame, seno, cosseno e tangente se transformaram em instrumentos da minha tortura. E a tragédia trigonométrica parecia não ter fim.  Com o tempo, descobri uma perturbadora verdade: as retas paralelas só se encontram no meio do inferno. No final do ano letivo, o meu intenso sofrimento e esforço sempre foram recompensados com uma nota quase sub-zero. E tome recuperação (ou segunda época).

Finalmente, aos trancos e barrancos, me superei. Herculeamente ultrapassei o caudaloso Rubicão da minha existência escolar. Concluí a dramática formação técnica e me transformei num tatu.  E chegamos aqui. O que a Orquestra Ouro Preto tem a ver com este conto realista?  Elementar, meu caro Watson! O terrível “matemático”- engenheiro Ronaldo Toffolo- é pai de Rodrigo Toffolo, o carismático e talentoso maestro da sinfônica de Ouro Preto.

P.S.1: Alguns dos meus antigos professores da ETFOP também passaram pela Vale. Dentre eles, os engenheiros João Antunes, Marconi Tarbes Vianna e Vicente Bernardes- que até pensou em se candidatar prefeito de Itabira. Todos eles tentaram ensinar-me um pouco de Topografia.

P.S.2: O professor e engenheiro, Ronaldo Toffolo, criou a maravilhosa Orquestra Ouro Preto há 25 anos.

P.S.3: O gentílico de Ouro Preto pode ser ouro-pretano ou ouro- pretense. Agora, chamar itabirano de itabirense? Tenha dó. Isso é uma desrespeitosa aberração. Que Drummond o amaldiçoe pela iconoclastia.

Sobre o colunista

Fernando Silva é jornalista e escreve sobre política em DeFato Online.

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