A vaidade pelo crachá e a inércia da entrega
Existem profissionais que fiscalizam o trabalho alheio com rigor cirúrgico e tratam a própria produção com indulgência escandalosa
Há uma cena frequente em muitas organizações, que revela a decadência silenciosa do trabalho sério: profissionais que desejam mais título do que tarefa, mais holofote do que execução, mais deferência do que cobrança. O crachá vira troféu. O cargo vira verniz. A promoção vira altar. Só que, quando chega a hora de cumprir metas, prazos e resultados, o entusiasmo evapora. Fica a inércia.
Para esse perfil, vale uma lembrança incômoda: o show não acontece no palco. A plateia pode aplaudir a pose, o discurso e a assinatura bonita no e-mail, mas a realidade se constrói nos bastidores. É no cliente atendido com excelência, no processo ajustado, na crise resolvida sem alarde, na meta perseguida sem desculpas. É ali, longe do holofote, que se mede caráter profissional. Quem vive de encenação se irrita com o trabalho, porque ele expõe.
E aqui entra uma metáfora que dói: empresa é sala de aula. Entrega é prova. Você pode sentar na primeira carteira, levantar a mão o tempo todo, corrigir o colega e repetir frases bonitas do “professor”. Pode ter crachá, cargo e voz firme. Mas, quando o exame chega, não há performance que passe. O que vale é o que você resolveu, construiu e concluiu. No fim do ciclo, o mercado entrega um boletim implacável: quem realiza tira nota alta e ganha confiança, espaço e projetos. Quem só aparece sobrevive de média fabricada.
Crescer na carreira deveria significar ampliar poder de decisão, capacidade de execução e impacto real. Mas, para uma parcela barulhenta, promoção virou sinônimo de status: cadeira melhor, nome maior na assinatura, a sensação de “cheguei”.
Não há nada errado em ambicionar evolução. O erro está em buscar apenas a moldura e desprezar a obra.
Há quem suba na hierarquia como quem sobe ao palco: quer ser visto, não quer produzir. E, quando a entrega não vem, o repertório de desculpas aparece com a pontualidade de quem nunca falha. Só falha, curiosamente, no que importa.
Nesse ambiente, a crítica vira passatempo corporativo. Falta braço para fazer, mas sobra língua para apontar.
Existem profissionais que fiscalizam o trabalho alheio com rigor cirúrgico e tratam a própria produção com indulgência escandalosa.
A régua é de aço para o outro e de espuma para si. Criticar dá aparência de competência; opinar cria sensação de controle. Só que empresa não remunera impressão. Empresa remunera resultado.
E a vaidade de cargos tem um combustível perigoso: o palpite como moeda de poder. Gente que fala com segurança sobre o que não domina, interfere onde não tem repertório e desfila ignorância justamente onde deveria se destacar. Fala alto, interrompe, dá aula, “fecha questão”. É uma autoridade encenada que não se sustenta na prática. O desfecho costuma ser o mesmo: decisões frágeis, retrabalho, ruído entre equipes e uma organização que se acostuma a ouvir muito e fazer pouco.
Quando a entrega é substituída por narrativa, a empresa vira palco de vaidades. Objetivos pessoais legítimos, quando equilibrados, passam a engolir o propósito coletivo. O “meu” vale mais do que o “nosso”. O tempo é drenado por política interna, disputa de território, sede de protagonismo e uma compulsão por se posicionar. Não pelo que se faz, mas pelo que se aparenta ser. Enquanto isso, cliente, eficiência, inovação e qualidade tornam-se coadjuvantes. A organização adoece sem perceber. Não por falta de talento, mas por excesso de ego.
Outra distorção comum é a idolatria do currículo. A ocupação vira medalha; o cargo anunciado no LinkedIn vira certificado de relevância. Há quem colecione funções como quem coleciona adesivos: “fui isso”, “fui aquilo”, “liderei isso”, “participei disso”. Mas a pergunta permanece: e daí? Qual foi o impacto? O que melhorou? O que mudou? O que ficou de pé depois da passagem? Currículo, por mais bem escrito, não produz. Não reduz custo, não aumenta receita, não melhora processo, não corrige rota, não retém cliente, não fortalece cultura. Currículo é relato. Entrega é evidência.
O problema não está no crachá nem no currículo. Está na devoção a eles. Está no momento em que o status vira substituto do trabalho e a organização, por preguiça ou conveniência, começa a premiar presença, discurso e alinhamento político. Empresas que recompensam vaidade compram um tipo de “liderança”, que cresce para si e encolhe para o time. E o profissional que se alimenta de símbolo vira dependente de reconhecimento vazio, porque não construiu sustentação concreta.
No fim, toda carreira e toda organização deveriam ser medidas por uma pergunta que não cabe na assinatura nem no organograma: o que foi entregue, de fato? Não o cargo. Não o crachá. Não a pose. A entrega. Porque, no mundo real, status não sustenta operação. O crachá pode até identificar alguém, mas só a entrega justifica.
Sobre o colunista
Thiago Jacques é professor universitário, mestre em Administração, MBA em Marketing e Mídias Digitais e treinador na Escola Troka.
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