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“Agosto Lilás”: qual o meu papel na equação da violência contra as mulheres?

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Foto: Arquivo/Agência Brasil

Estamos no “Agosto Lilás”, mês dedicado à luta pelo fim da violência contra a mulher. Infelizmente, a cada ano, os dados apontam um crescimento nas denúncias de violência doméstica e também de feminicídios no Brasil. Segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgado neste mês, 1.492 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2024, o que representa uma média de quatro feminicídios por dia. A maior parte das vítimas eram mulheres negras (63,6%), com idade entre 18 e 44 anos (70,5%). Mais da metade dos crimes ocorreram dentro da casa da vítima (64,3%), e 8 em cada 10 feminicídios foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros.

Uma realidade cruel que nos leva a perguntar, sobretudo neste “Agosto Lilás”: o que está por trás desse grave problema social? Sem dúvidas, esse é um tema complexo e de causas multifatoriais, porém quero apontar nesse texto um aspecto que julgo ser essencial reavaliarmos: a normalização da violência. Ao longo dos séculos fomos submetidos a muitas relações verticais, onde um se colocava sobre o outro para manter-se no poder. Alguns exemplos de relações tipicamente verticais na nossa sociedade: reis sobre plebeus, senhores sobre escravos, patrões sobre empregados, professores sobre alunos, pais sobre os filhos e, também, homens sobre as mulheres. As estratégias de controle daqueles que estavam no poder incluíam ameaças, chantagens, barganhas financeiras, humilhações, gritos, punições, castigos, isolamento, imposições, o uso do medo e até a força física. Os efeitos dessas relações, naqueles que estavam sob o poder, eram sentimentos de insegurança, medo, menos valia mas também raiva e revolta. Afinal, o ser humano não foi criado para se manter em relações assim. Muitos movimentos e revoluções aconteceram. A escravidão foi abolida, os profissionais conquistaram direitos trabalhistas, as crianças passaram a ser vistas como sujeitos de direitos e as mulheres também conquistaram mais espaço na sociedade e uma legislação que as protege.

No entanto, a herança de uma cultura que normalizou a violência por tantos séculos não desaparece instantaneamente. Estamos em transição. Já tivemos muitos avanços, mas há muito mais para ser feito. O discurso e as leis precisam refletir mudanças concretas no cotidiano das escolas, famílias e instituições. Para que isso aconteça, defendo a Educação Parental como base dessa transformação. Uma virada de chave desse modelo vertical e violento para um modelo horizontal e respeitoso nas relações só será possível quando nós — adultos, pais, educadores, cidadãos — nos responsabilizarmos por essa mudança, deixando um legado diferente para as gerações seguintes.

Uma menina que vê o seu pai tratando bem a sua mãe e sendo um pai respeitoso, dificilmente irá se sujeitar a um padrão diferente em seus relacionamentos. Precisamos modelar padrões mais elevados para nossos filhos ou então continuaremos a ver a violência se perpetuar a cada dia. Pais e educadores de hoje têm uma grande responsabilidade para que as estatísticas de violência doméstica daqui a 10 anos sejam diferentes das atuais.

E, de forma prática, como podemos mudar esse padrão nas nossas casas? Primeiro é importante detectar as violências invisíveis que praticamos todos os dias. Sim, eu e você precisamos reconhecer que ainda somos violentos nas nossas falas e atitudes. A seguir algumas dicas práticas para você se autoavaliar:

Se você respondeu positivamente a alguma das questões acima, saiba que não está sozinho. Mas só podemos mudar uma realidade quando a reconhecemos. Que neste “Agosto Lilás” eu e você possamos mais do que lamentar as estatísticas cruéis que nos são apresentadas, mas reconhecer qual o nosso papel nessa equação da violência, buscando eliminá-la mesmo na sua forma mais sutil nas nossas relações. É tempo de nos responsabilizarmos para deixar um modelo diferente para os meninos e meninas que nos observam atentamente e aprendem conosco todos os dias.

Sobre a colunista

Nina Magalhães é mãe de três, Terapeuta Ocupacional, mestre em Educação e Saúde e certificada como Educadora Parental e Consultora em Encorajamento. Palestrante e escritora, atua em diversos projetos em defesa da infância.

O conteúdo expresso é de total responsabilidade do colunista e não representa a opinião da DeFato.

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