Agro, biogás e Bitcoin: Tether mira Mato Grosso do Sul para instalar mineração no Brasil

A escolha do MS combina disponibilidade de biomassa da cana com um pacote fiscal voltado ao biogás e ao biometano

Agro, biogás e Bitcoin: Tether mira Mato Grosso do Sul para instalar mineração no Brasil
Foto: Feepik

A Tether, emissora do USDT e maior empresa do mercado cripto por receita declarada, deu um passo para trazer ao país uma operação de mineração de Bitcoin alimentada por energia renovável do setor sucroenergético.

Depois de assumir 70% da Adecoagro, grupo com usinas em Ivinhema e Angélica (MS) e Monte Alegre (MG), a companhia anunciou um plano para conectar data centers às plantas de biogás e biomassa, começando por Mato Grosso do Sul. Em julho, as empresas formalizaram um memorando de entendimento (MoU) para desenvolver o projeto no Brasil.

Segundo o governo sul-mato-grossense, a estrutura inicial no estado deve ser alimentada por cerca de 12 MW de energia limpa proveniente das duas usinas locais da Adecoagro, enquanto a companhia afirma ter, na América do Sul, mais de 230 MW de capacidade de geração elétrica renovável que podem ancorar a expansão.

O anúncio e o desenho do projeto

A estratégia segue a diretriz pública apresentada pela Tether em 2025, diversificar receita em infraestrutura energética e tornar-se uma das maiores mineradoras de BTC do mundo. O desenho divulgado ao mercado prevê data centers de alta densidade próximos (ou integrados) às plantas industriais.

Onde o biogás gerado a partir da vinhaça da cana e resíduos do processo alcooleiro alimenta motogeradores e a rede interna. Em nota conjunta, as empresas apontaram o Brasil, em especial o MS, como polo para um projeto-piloto com potencial de escala.

Embora o foco industrial da Tether seja Bitcoin e infraestrutura, o investidor brasileiro olha o movimento também pela ótica de carteiras diversificadas. É por isso que, enquanto acompanha a chegada dos data centers ao MS, muita gente segue comparando desempenho das melhores altcoins para equilibrar exposição além do BTC.

A escolha do MS combina disponibilidade de biomassa da cana com um pacote fiscal voltado ao biogás e ao biometano. Desde abril de 2024, o estado reduziu a base de cálculo do ICMS nas saídas internas desses combustíveis, resultando em carga de 12%, e concedeu crédito outorgado de 85% (interno) e 90% (interestadual).

Na prática, a alíquota efetiva nas operações internas pode cair para a casa de ~1,8%, melhorando a viabilidade de empreendimentos elétrico-intensivos como a mineração. O benefício está oficializado em decreto estadual e comunicado pela Semadesc. Além do preço tributário mais competitivo, a logística conta.

As usinas da Adecoagro em Ivinhema e Angélica já operam com cogeração e projetos de biogás, e o estado vem ampliando rapidamente a malha de unidades de biometano. O governo local anunciou novos investimentos para expandir a produção e reforçou metas de Carbono Neutro.

De onde vem a energia e a viabilidade para minerar

No parque sucroenergético, a vinhaça, subproduto da destilação do etanol, é encaminhada a biodigestores. O biogás captado alimenta motogeradores para produzir eletricidade e, em parte dos projetos, é purificado a biometano para substituir diesel em frotas ou para injeção em rede.

Relatórios técnicos e de sustentabilidade da Adecoagro detalham a expansão de biodigestores no MS e a integração com a cogeração a partir do bagaço. Em documentos do Imasul e em cadastros da Aneel, as plantas do grupo aparecem com potência registrada e histórico de licenciamento para bioeletricidade e UTEs.

Em comparação com eólica e solar, estudos públicos mostram que o LCOE dessas fontes variou na última década e segue entre os mais baixos do país. O biogás, por sua vez, oferece despacho controlável e previsibilidade, algo valioso para data centers que não podem parar.

Em outras palavras, o custo por MWh pode ser maior em alguns projetos de biogás, mas a estabilidade e a integração com o ciclo industrial compensam parte dessa diferença. Minerar Bitcoin é um negócio de margens apertadas e hipercompetitivo. A vantagem não vem só do preço por kWh, mas da previsibilidade do suprimento e do desenho tributário.

A Tether já opera ou piloteia bases movidas a renováveis em países como Uruguai e El Salvador e, no Brasil, aposta na integração vertical energia-mineração, reduzindo exposição ao mercado de curto prazo. Globalmente, polos com gás natural barato (como Rússia e Cazaquistão) seguem como referência de custo, o que reforça a importância de incentivos locais para fechar a conta no MS.

Marco regulatório, tributação e efeitos econômicos

O Brasil não tem uma lei específica para mineração de criptoativos. A Lei 14.478/2022 e o Decreto 11.563/2023 regulam prestadoras de serviços de ativos virtuais (exchanges e afins) e atribuíram ao Banco Central a competência regulatória setorial.

A mineração, porém, costuma ser enquadrada pelos municípios como serviço de processamento de dados (LC 116/2003, item 1.03), com possível incidência de ISS conforme a legislação local, além do licenciamento ambiental e das autorizações elétricas usuais.

Para pessoas físicas e jurídicas, a Receita mantém regras de reporte e tributação sobre operações com criptoativos e ganhos de capital, observando o limite de isenção de R$ 35 mil/mês em alienações para PF.

Além disso, em MS, o governo vem apresentando o projeto como parte da agenda de energia limpa e digitalização industrial, com promessa de contratações locais e demanda por serviços de TI, refrigeração e elétrica.