Amor do outro lado da tela

Gislaine Adriana Teixeira, 30 anos, foi abordada pelo operador Túlio Souza

Amor do outro lado da tela

Reportagem publicada na edição 257 da Revista DeFato

Esqueça as cenas de encontros em baladas, em barzinhos ou por meio de contatos entre amigos. No Dia dos Namorados, DeFato traz uma reportagem para lá de romântica. Você seria capaz de largar tudo (tudo mesmo!), ir para um local desconhecido e mudar completamente de vida por alguém que conheceu pela internet? Pois tem gente que é capaz.

A seguir, histórias bem sucedidas de casais que conheceram suas almas-gêmeas no mundo virtual e, com muita coragem e ousadia, mudaram de estado e até de país para viverem romances que mais parecem ficção.

Tímido e Evangélica

“Vc tecla de onde?”, perguntou Tímido à Evangélica na sala de bate-papo destinada a itabiranos. Foi assim que a vendedora autônoma Gislaine Adriana Teixeira, 30 anos, foi abordada pelo operador Túlio Souza Santos, 28. O casal, com nicks (pseudônimos) bem peculiares, se conheceu em outubro de 2012. Gislaine havia entrado no chat com a intenção de encontrar um namorado. Mas Túlio só queria passar o tempo. “Eu estava à toa, não tinha nada para fazer. Estava de folga, tomando uma cervejinha e entrei”, assumiu, aos risos.

Sem muitas expectativas, o casal continuou as conversas pelo chat. Como Gislaine não tinha certeza da veracidade das afirmações de Túlio, ela pediu o endereço de sua rede social. Apesar de informações aparentemente desconexas, a vendedora não teve medo e nem imaginou que o rapaz usasse um perfil falso, devido ao teor das conversas. “Não pensei que podia ser fake, porque nossas conversas eram muito boas”, conta. Eles intensificaram os “encontros virtuais” e migraram para outras redes sociais, como o extinto MSN, canal que serviu para a autônoma arriscar um convite para o primeiro encontro, que acabou não acontecendo. Foram mais quatro tentativas, todas frustradas, por causa da agenda de Túlio.  

As horas a mais à frente do computador chamaram atenção de dona Terezinha, mãe de Gislaine, que logo desconfiou que algo estava acontecendo. “Minha mãe perguntou se eu estava namorando pela internet e contei a ela só depois que eu e o Túlio nos encontramos no cinema, depois de um mês que nos conhecemos”. A postura contida do jovem chamou a atenção da moça. Por não ter tomado iniciativa de beijá-la, ele ganhou a confiança da vendedora.

No dia seguinte eles se viram, e, no terceiro dia, quando Gislaine viajou para Porto Seguro, a web foi novamente uma aliada para encurtar a distância entre eles. Mesmo assim, Túlio ainda tinha dúvidas sobre o relacionamento, pela forma em que se conheceram: “Não botei fé. Achei que não ia render em nada, por ser pela internet”. Mas o romance engatou e, se antes os objetivos eram diferentes, hoje, dois anos e meio depois, certamente são os mesmos: “Nosso plano é ter uma casa própria, casar e ter dois filhos”, disse Túlio, com o aval da namorada.

Minas Gerais é ali

A paixão à primeira vista entre a estudante monlevadense Bárbara Eloísa Martins de Lima, 25 anos, e o enfermeiro paulista Vitor Aguiar Colaço, 24, não aconteceu depois de uma “trombada” pela rua, muito menos em uma balada. A tela de um computador foi o pano de fundo da história de amor entre o casal, que está junto há cerca de sete anos.

No final de 2007, Vitor navegava pela rede social Orkut, quando a foto de uma moça chamou-lhe a atenção. Sem nunca tê-la visto antes, enviou um convite de amizade e ela aceitou. Pronto. Bárbara, sua nova “amiga”, começou a trocar recados com o jovem por alguns dias. Eles passaram a se comunicar por um chat reservado para usarem a webcam e encontraram várias afinidades, como a religião em comum. Sem poder conter o rápido sentimento, Vitor se derrete: “Não conseguíamos ficar sem nos falar, parecia um vício, eu não pensava em outra coisa. Não a tirava da minha cabeça”.

Durante cerca de seis meses, a tecnologia continuou sendo a favor do futuro casal, que papeava pela internet e pelo celular. Depois desse tempo, o rapaz decidiu que transporia a barreira que os separava. “Em junho de 2008 decidi que não poderíamos mais ficar apenas nos falando virtualmente, teríamos que nos conhecer pessoalmente”. O detalhe era que Vitor morava em Iguape, litoral de São Paulo, e Bárbara, em João Monlevade.

Mas os 892 quilômetros que os separavam não foram empecilhos para que o jovem estudante de Enfermagem pedisse a transferência de seu curso. Ele deixou tudo pronto para viajar e acabou surpreendendo os pais, que só ficaram sabendo da mudança dias antes. No final, eles conversaram e decidiram o apoiar, uma vez que o estudante já estava totalmente decidido.

Ele sabia dos riscos que poderia correr, mas confiou na questão religiosa como uma segurança a mais. “Eu ouvi notícias de pessoas que faziam isso e, de alguma maneira, não acabava bem. Mas isso não iria acontecer comigo, já que éramos espíritas e da mesma doutrina”. Vitor conversou por algumas vezes com a mãe de Bárbara e os pais o aceitaram em casa, para manter a filha por perto. O primeiro encontro, na rodoviária de Monlevade, deu a sensação de que eles já se conheciam há muito tempo, como asseguram.

A partir de então, tudo fluiu naturalmente. Eles oficializaram a união e em 2010 nasceu o primeiro filho do casal, Luiz Gustavo. É a prova de que tudo valeu a pena e que os pressentimentos não estavam errados.

Cruzou o oceano

Há 14 anos, quando o ipatinguense Jadelson Viana Cadete andava de skate próximo à igreja frequentada por Jéssica Oliveira Cardoso, ele jamais imaginaria que após mudarem de cidades, mais de dez anos depois, uma rede social pudesse promover o reencontro e até o casamento.

Jéssica, 25, é natural de Cerejeiras, em Rondônia, e morou por um tempo em Itabira. Jadelson, 26, nasceu em Ipatinga, mesma cidade em que conheceu a jovem, quando tinham apenas 11 anos. Havia amizade entre eles, até que um ano depois ela se mudou para a cidade de Timóteo e eles acabaram perdendo o contato. “Se passaram quase 14 anos e por acaso o reencontrei no Facebook de um amigo em comum. O adicionei e começamos a nos falar todos os dias”, conta Jéssica. Nesta época, Jadelson estava morando em Londres, e ela em Coronel Fabriciano, cursando a faculdade de Direito.

Em apenas dois meses de conversa pela rede, ele a pediu em casamento, ali mesmo, pelo Facebook. O pedido foi rapidamente aceito. Mesmo estando tão longe e mantendo contato apenas pela internet, Jéssica não receou em momento algum. “Não sei por que, mas ele me passou uma grande segurança, afinal de contas já o conhecia há muitos anos”, comenta.

Para a grande surpresa dela, o futuro marido mandou a passagem somente de ida para que Jéssica fosse para Londres no final do ano passado. Desprevenida, ela se apressou em organizar todos os detalhes em tempo recorde. No dia do embarque, tudo parecia dar errado. O carro deu defeito e ela quase perdeu o voo para a capital da Inglaterra, chegando em cima da hora.

Quando Jadelson e Jéssica se viram pessoalmente, após 14 anos, o casal ficou bastante emocionado. Hoje em dia eles vivem juntos, casados legalmente. No momento, a jovem se ocupa com os preparativos para a cerimônia, que será realizada no Brasil, em novembro deste ano. Atribuindo à tecnologia sua felicidade, ela se empolga: “Fiquei feliz com o Facebook, afinal de contas, estou realizada do outro lado do mundo e rodeada de uma família maravilhosa que é a dele, mas cheia de saudades da minha família”.

Todo cuidado é pouco

A internet, sem dúvidas, é um dos maiores avanços em termos de tecnologia que tivemos nos últimos anos. O mundo inteiro está ao alcance de um click, na palma da mão. As histórias relatadas na matéria são bem sucedidas e escancaram muita audácia. Mas, quando se trata do mundo virtual, todo cuidado é pouco.

 A tela do computador pode servir como uma máscara para pessoas mal intencionadas. De acordo com a delegada da Polícia Civil de Itabira, Amanda Celestino, são comuns os casos de estelionato, divulgação de fotos íntimas, publicações indevidas e abusos sexuais. “O alerta, nesses casos, é evitar a divulgação de informações sensíveis ou íntimas pela internet, avaliar a segurança dos sites de relacionamento e certificar a identidade do interlocutor. Ou seja, saber se quem está do outro lado da tela é realmente quem diz ser pelas redes sociais, antes de marcar um encontro real”, diz.

É preciso, também, tomar cuidado com a divulgação de fotos, especialmente íntimas. Segundo a delegada, essa tem sido uma grande preocupação da Polícia Civil. “Nessas situações, algumas dicas são importantes: evite fotografias íntimas; não sendo possível evitá-las, não mostre o rosto ou outros sinais identificadores, tais como tatuagens, cicatrizes ou piercings; proteja os tablets e smartphones com senha pessoal e intransferível; utilize programas de antivírus e programas de rastreamento de celular; criptografe fotografias, não deixe o aparelho celular, tablet ou smartphone em lugares de fácil acesso”.