Angra tem três baleados em tiroteio intenso após Witzel declarar ‘fim da bandidagem’

Cinco dias após o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), sobrevoar Angra dos Reis e declarar que iria “botar fim na bandidagem”, a cidade registrou três feridos durante um tiroteio intenso entre facções criminosas que durou mais de três horas e causou bloqueios na rodovia Rio-Santos. Os tiros começaram a ser ouvidos na comunidade Sapinhatuba 1, […]

Angra tem três baleados em tiroteio intenso após Witzel declarar ‘fim da bandidagem’

Cinco dias após o governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), sobrevoar Angra dos Reis e declarar que iria “botar fim na bandidagem”, a cidade registrou três feridos durante um tiroteio intenso entre facções criminosas que durou mais de três horas e causou bloqueios na rodovia Rio-Santos. Os tiros começaram a ser ouvidos na comunidade Sapinhatuba 1, no município do litoral sul fluminense, por volta das 10h desta quinta-feira (9). Segundo moradores, foi uma briga em que criminosos do Terceiro Comando Puro retomaram o controle da favela das mãos Comando Vermelho.

Os três baleados foram levados ao Hospital Geral da Japuíba. Entre eles estão dois funcionários de uma drogaria que não correm perigo de morte: Diogo Augusto Teixeira, 27, baleado nos glúteos, e Luís Antônio Alves, 52, baleado no tornozelo esquerdo e nos glúteos. Um vídeo mostra o carro em que eles estavam cravejado de balas. O terceiro ferido foi Mike Oscar Amâncio, 27, atropelado enquanto fugia dos tiros. Ele chegou ao hospital baleado e está em estado grave de saúde, segundo a prefeitura de Angra. Crianças também tiveram que se deitar no chão para se proteger na Escola Municipal Antonio Joaquim de Oliveira, e as aulas foram suspensas nos bairros próximos.

O confronto fez com que a estrada Rio-Santos (BR-101) fosse totalmente fechada por duas horas durante a manhã na altura do km 483, segundo a Polícia Rodoviária Federal. Motoristas dirigiam no sentido contrário do tiroteio. É a segunda vez que o trecho é interditado em quatro dias –na segunda-feira (6) isso também ocorreu por causa de confrontos entre grupos criminosos. Na terça (7) houve mais trocas de tiros na região, durante uma operação da Polícia Civil. A plataforma colaborativa Onde Tem Tiroteio havia feito o último alerta sobre disparos em Sapinhatuba 1 nesta quinta por volta das 13h30, mas voltou a registrar tiros no fim da tarde, depois que circularam vídeos e áudios feitos por moradores indicando que diversos carros da Polícia Militar se dirigiam à região.
Questionada, a corporação não respondeu se faria operação no local. Mais cedo, afirmou apenas que agentes foram informados do tiroteio entre facções rivais na comunidade e que não tinha mais detalhes. A Polícia Rodoviária Federal voltou a fazer bloqueios na Rio-Santos durante a tarde.

O conteúdo continua após o anúncio

Angra do Reis fica às margens da rodovia, em uma posição estratégica para a rota do tráfico de drogas, o que contribuiu para a violência crescente no município nos últimos anos. A guerra entre facções se acirrou por volta de 2014, quando os fuzis começaram a chegar, junto com traficantes que migraram da capital e da região da Baixada Fluminense. Witzel em Angra No último sábado (4), o governador Wilson Witzel publicou um vídeo em suas redes sociais onde aparece dentro de um helicóptero, sobrevoando comunidades de Angra e anunciando o início de uma operação da Polícia Civil em favelas da região. “Vamos botar fim na bandidagem”, diz ele. Um vídeo gravado na mesma ocasião e exibido pelo telejornal “RJTV”, da TV Globo, mostra um policial de costas disparando uma rajada de tiros sobre uma pequena lona azul cercada de grama, no topo de um morro (chamado de Monte do Campo Belo), que, segundo relatos de moradores, é frequentemente usada por religiosos para orar.

Ela serve como ponto de apoio para peregrinos cristãos, que também se protegem do sol e urinam ali durante os dias de andança. “Ali é um ambiente de oração, os cristãos estão diariamente ali, idosos, crianças”, disse à Folha o diácono Shirton Leone, da igreja Assembleia de Deus, que contou quatro ou cinco tiros no tecido após o sobrevoo.  O uso de helicópteros para disparar rajadas vai contra uma normativa publicada em outubro pela extinta Secretaria de Segurança Publica do RJ, que determinava diretrizes para a atuação das polícias fluminenses durante operações. A regra não impede que agentes disparem de helicópteros, mas estabelece que os tiros só sejam dados quando forem estritamente necessários para proteger vidas. Também ressalta que deve ser feito um tiro de cada vez, nunca rajadas, e que essas investidas devem ser evitadas em locais populosos.

Questionada, a Polícia Civil não se pronunciou sobre a rajada de disparos contra a lona usada por religiosos. Também não respondeu quais foram os resultados daquela operação, informando apenas os efeitos da ação de terça-feira. Segundo a corporação, os cerca de cem agentes que participaram cumpriram sete mandados de prisão, recuperaram três veículos roubados, mapearam a área, checaram denúncias de um cemitério clandestino e colheram provas para auxiliar inquéritos contra o tráfico de drogas. Já o governo do estado disse em nota que a operação em que Witzel esteve presente “foi para reconhecimento de áreas atingidas pela criminalidade e não houve vítimas”, ressaltando que “sua política de segurança é baseada em inteligência, investigação e aparelhamento das polícias Civil e Militar”. A presença do governador no episódio em Angra foi citada em uma denúncia contra ele enviada nesta terça à ONU (Organização das Nações Unidas) pela Comissão de Direitos Humanos da Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) e pela deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ).

MAIS NOTÍCIAS