Aprendizado negativo
O recente massacre ocorrido numa escola do Rio de Janeiro, que culminou com a morte de 12 crianças, chamou a atenção do país para um assunto que, embora a princípio possa parecer insignificante, já motivou vários crimes pelo mundo: o bullying. O que mais preocupa é que a esmagadora maioria dos casos de bullying tem […]
O recente massacre ocorrido numa escola do Rio de Janeiro, que culminou com a morte de 12 crianças, chamou a atenção do país para um assunto que, embora a princípio possa parecer insignificante, já motivou vários crimes pelo mundo: o bullying. O que mais preocupa é que a esmagadora maioria dos casos de bullying tem origem nos recintos onde as crianças deveriam assimilar suas primeiras lições positivas de vida.
“Bullying é um termo da língua inglesa (bully = “valentão”) que se refere a todas as formas de atitudes agressivas (verbais ou físicas), desde que intencionais e repetitivas. Elas ocorrem sem motivação evidente e são exercidas por um ou mais indivíduos com o objetivo de intimidar ou agredir outra pessoa, que não tem a capacidade de se defender. “Acontecem dentro de uma relação desigual de forças ou poder”, explica a neuropsicóloga Brenda Martins da Costa, que atende em Itabira.
De acordo com Brenda, o bullying pode ser direto (mais comum entre os homens) ou indireto (mais frequente entre mulheres e crianças). “O bullying é um problema mundial e pode ocorrer em qualquer contexto: família, local de trabalho e entre vizinhos. Em geral, a vítima teme o agressor em razão da violência ou de ameaças, que podem ser físicas, sexuais ou a perda dos meios de subsistência”, afirma.
Segundo Brenda, geralmente os agressores são pessoas com pouca empatia e que pertencem a famílias desestruturadas, nas quais o relacionamento afetivo entre os membros é deficiente. “Por outro lado, o alvo dos agressores geralmente são pessoas pouco sociáveis, com baixa capacidade de reação. São ansiosas e podem desenvolver fobias, como a Síndrome do Pânico. Elas possuem forte sentimento de insegurança, o que as impede de solicitar ajuda”, explica.
Ajuda profissional
A neuropsicóloga comenta que as vitimas de bullying têm buscado auxílio para superá-lo: “A procura tem sido maior porque as pessoas estão mais conscientes sobre o problema. Mulheres são a maioria, os homens têm dificuldade em admitir”.
Nas sessões realizadas na clínica são feitas a orientação familiar e a psicoterapia para trabalhar a ansiedade e a insegurança das vítimas. “Já no tratamento voltado ao agressor, temos que trabalhar as estruturas afetivas, a consciência, a socialização e a interação. Também orientamos seus pais, porque eles têm que impor limite esaber dizer não ao filho”, afirma.
“As crianças ou adolescentes que sofrem bullying podem se tornar adultos com sentimentos negativos e baixa autoestima. Tendem a adquirir sérios problemas de relacionamento, podendo, inclusive, se tornarem agressivos. Em casos extremos, a vítima poderá tentar suicídio”, alerta Brenda.
Apelidos
Nas escolas, o bullying pode começar com a criação de apelidos indesejáveis ou humilhantes. “Caso o aluno sinta-se ameaçado, deve pedir ajuda à equipe da escola. Se o agressor não for punido, o ato vai se repetir”, aponta Brenda. Ela acrescenta que os colegas que testemunham o problema acabam ficando em silêncio, pois temem ser as próximas vítimas.
Outra situação citada pela neuropsicóloga é a postura das escolas diante do problema: “Há escolas que se preocupam com o bullying, procuram auxílio de psicólogos ou promovem palestras. Outras negam, falam que é coisa de criança e não entendem as consequências”.
Caso em Itabira
Em março deste ano, a imprensa itabirana divulgou uma agressão ocorrida na Escola Estadual Professora Marciana Magalhães. As informações foram de que 19 crianças e adolescentes, com idades entre 11 e 14 anos, foram encaminhadas ao Conselho Tutelar e à Delegacia de Polícia Civil de Itabira. Uma estudante de 12 anos teria sido agredida durante o intervalo das aulas.
A diretora da escola, Mariza Chaves, relata que a situação foi contornada. “Na semana seguinte, houve uma reunião com representantes do Conselho Tutelar, direção da escola, inspetora, pais e alunos envolvidos, com o objetivo de esclarecer o fato. Não foram 19 agressores, apenas um. Os outros acompanhavam”, afirma.
Ela comenta que, diante dessa situação, foi necessário chamar a Polícia Militar. A diretora acrescenta que problemas desse tipo geralmente são resolvidos com diálogo entre a direção e o aluno. “Em 90% dos casos em que conseguimos dialogar, temos bons resultados”, destaca Mariza.
Segundo a diretora, a escola vai desenvolver um projeto para refletir sobre o assunto. Haverá palestras, vídeos e textos a serem trabalhados com os alunos. A previsão é de que a iniciativa seja aplicada no início de maio: “Futuramente, há a intenção de se fazer um trabalho com os pais”.
“Em minha opinião, nossos jovens estão ficando doentes, pois o tempo todo são influenciados por outras pessoas, pela mídia, e tudo está se tornando ‘banal’. É como se fosse normal agredir o outro, desrespeitar, drogar-se ou se prostituir. Não, não é normal. Precisamos urgentemente colocar no coração um pouco de amor, paz, vontade de viver bem e feliz. Penso que essa é a única maneira de transformar a sociedade”, finaliza.
Perfil do bullying nas escolas brasileiras
A Organização não Governamental Plan divulgou, em 2010, o resultado da pesquisa sobre “Bullying no Ambiente Escolar” nas cinco regiões do país. Cerca de 5 mil alunos de escolas públicas e particulares responderam ao questionário. Houve também grupos focais com alunos, pais, professores e gestores de escolas. Confira um trecho das conclusões sobre o levantamento:
“A pesquisa mostra que o bullying é mais comum nas regiões Sudeste e Centro-Oeste do país e que a incidência maior está entre os adolescentes na faixa de 11 a 15 anos.
As crianças e adolescentes tendem a considerar que os agressores buscam obter popularidade junto aos colegas, que necessitam ser aceitos pelo grupo de referência e que se sentiram poderosos em relação aos demais, tendo esse ‘status’ reconhecido na medida em que seus atos são observados e, de certa forma, consentidos pela omissão e falta de reação dos atores envolvidos.
Já as vítimas são sempre descritas como pessoas que apresentam alguma diferença em relação aos colegas, como um traço físico marcante, algum tipo de necessidade especial, o uso de vestimentas exóticas além de indícios de status socioeconômico inferior. Elas são tímidas, inseguras e passivas, o que faz com que os agressores as considerem merecedoras dos abusos”. Disponível no site www.aprendersemmedo.org.br