“Arte é trabalho, músico é profissão”, ressalta o baterista itabirano Ronan Fabrício

O artista conta como a pandemia desestruturou sua carreira e o fez repensar o seu ofício

“Arte é trabalho, músico é profissão”, ressalta o baterista itabirano Ronan Fabrício
Foto: Arquivo Pessoal / Ronan Fabrício
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Nascido e criado em Itabira, Ronan Fabrício da Silva, 37 anos, escolheu a arte como ofício. Mais conhecido como Barbazul Batera, o músico se orgulha de ter trilhado uma carreira sólida e com reconhecimento no cenário cultural local. “Sou baterista profissional há 20 anos. Tive a chance de tocar com grandes artistas, conhecer muitas culturas e me apresentar em cidades no Brasil todo. Mas, nunca imaginei viver uma pandemia”, ele conta. Nessa entrevista, o artista explica como a pandemia impactou diretamente em sua carreira.

DeFato: Como era a rotina profissional antes da pandemia começar?
Eu fazia bastante shows! Vinha de um bom começo de ano tocando, como freelancer, com várias bandas e projetos daqui e de fora de Itabira. Menos de um mês antes da pandemia começar no país, eu tinha percorrido algumas cidades da região, me apresentando no Carnaval. Eu também dava aulas de bateria e cajon. O ano prometia ser de muito trabalho. 

DeFato: O que você pensou quando o setor de eventos parou? Imaginava que passaria logo?
Eu acompanhava o avanço e facilidade de transmissão do vírus. Sempre fiquei de olho nas notícias sobre o avanço da pandemia. Assim, nunca imaginei que acabaria rápido. Claro que pensei: “e agora, o que vou fazer?”. Não demorou para eu ter certeza que ia enfrentar um período muito difícil, já que eu vivo e dependo exclusivamente do meu trabalho. Logo no início da pandemia, perdi meus alunos. Depois, shows cancelados. A agenda estava bem cheia e isso me desestruturou 100%. Eu tinha muitos planos para 2020, adiados para 2021. E agora, só Deus sabe quando conseguirei realizá-los.

DeFato: Como a pandemia transformou sua rotina profissional?
Eu sempre tive uma coisa bem clara: arte é trabalho e música é profissão. Mas, sofremos muitos preconceitos. Por isso, a pandemia está sendo muito pesada para quem tem a cultura como profissão. A primeira coisa que mudou foi a ida para o digital. Alguns dos projetos dos quais faço parte, acompanharam a onda. Infelizmente, os músicos fora do mercado nacional não conseguem tirar seu sustento das lives. Quem vive de se apresentar na noite, de dar aulas e fazer freelancers, viu as dificuldades bateram muito rápido na porta. Ainda assim, a pandemia me ajudou a evoluir, como pessoa e músico. Aumentei minha carga de estudo, fiz cursos e assisti a aulas on-line, gravei vídeos e investi nas redes sociais.

DeFato: Esperava que o poder público tivesse mais sensibilidade ao setor artístico?
Para mim, que vivo plenamente da minha arte, as possibilidades se esgotaram muito rápido. Acho que um auxílio emergencial, específico para o setor, seria de grande valia. A Lei Aldir Blanc ajudou sim! Mas, a forma como foi realizada, não teve direcionamento para os artistas que vivem 100% da arte. Por causa da burocracia exagerada, muitos acabam ficando de fora e a ajuda não chegou a quem realmente precisa. Nesse momento, para os artistas, é fundamental dar sequência a seus projetos. Temos que pensar no pós-pandemia. Assim, o custeio de gravação de músicas autorais, clipes e a produção de um bom material de divulgação, por exemplo, ajudaria os músicos a não ficarem parados. Teríamos material para gerar conteúdo em redes sociais, montar portfólios e buscar novas fontes de renda. Para isso, é preciso investimentos constantes e maciços. Além de superar a pandemia, seria possível enfrentar o pós. 

DeFato:Como você enxerga o futuro? É possível ter esperanças?
Tenho muitas esperanças de ver o mundo voltar ao normal. Meu trabalho nunca me fez depender de ninguém, mesmo como músico instrumentista, sempre corri atrás dos meus sonhos. Alguns realizados e outros ainda para realizar. A volta à normalidade é um desejo de todos nós.