Audiência expõe denúncias de trabalho escravo no Sul de Minas

Relatos apresentados em Pouso Alegre apontam casos de trabalhadores sem banheiro, água e local digno para descanso

Audiência expõe denúncias de trabalho escravo no Sul de Minas
Foto: Reprodução

Denúncias de trabalho escravo e de condições análogas à escravidão no Sul de Minas dominaram uma audiência pública realizada nesta sexta-feira em Pouso Alegre. O debate reuniu representantes do Ministério do Trabalho, do Judiciário e de entidades ligadas aos trabalhadores rurais, com relatos sobre falta de água potável, alimentação precária, ausência de banheiros e pessoas obrigadas a dormir no chão ou até debaixo de caminhões. 

Durante a audiência, o superintendente regional do Ministério do Trabalho e Emprego em Minas Gerais, Carlos Calazans, afirmou que o mínimo exigido para esses trabalhadores ainda não é garantido em muitos casos. Já Jorge Ferreira dos Santos Filho, da Articulação dos Empregados Rurais do Estado de Minas Gerais, disse ter sido vítima de trabalho escravo em quatro situações entre os 10 e os 21 anos de idade. Ao cobrar resposta do poder público, ele afirmou que nunca foi resgatado e citou falhas na fiscalização. 

Segundo informações apresentadas no encontro, Minas Gerais lidera o número de denúncias de trabalho escravo e análogo à escravidão no país. Quase 20% dos casos identificados estão em território mineiro. Desse total, 34% se concentram na cafeicultura, setor descrito como um foco persistente desse tipo de violação. Também foram mencionados registros em áreas como agropecuária, carvoaria, confecções e trabalho doméstico, em contextos rurais e urbanos. 

Os depoimentos também chamaram atenção para o perfil das vítimas. Segundo participantes da audiência, pessoas negras, indígenas e imigrantes estão entre os grupos mais expostos a esse tipo de exploração. Uma desembargadora relatou ter participado de um resgate em que trabalhadores consumiam comida estragada e, mesmo nessa situação, ainda pediam desculpas aos empregadores. 

Entre as medidas defendidas no encontro estão a ampliação da divulgação da chamada Lista Suja do Trabalho Escravo, a melhoria dos alojamentos e ações de acolhimento com capacitação profissional para evitar que trabalhadores resgatados retornem ao mesmo ciclo de exploração. Ao fim da audiência, foi anunciado um pedido de providências para apurar irregularidades em contratos de trabalho denunciadas durante a reunião.