Na última quarta-feira (24), a Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) realizou uma audiência pública para discutir o aumento da mineração em Congonhas, na Região Central do estado. O encontro deixou clara uma constatação: não se deve discutir, e muito menos promover, a ampliação da atividade minerária no município antes de resolver os problemas já causados pelo setor.
Entre as principais preocupações levantadas estão os danos ambientais, o comprometimento da qualidade de vida da população e a sobrecarga na infraestrutura local. Representantes de comunidades atingidas reforçaram que Congonhas já enfrenta sérias consequências socioambientais da mineração, e que novas expansões agravariam ainda mais esse cenário.
Com cerca de 40% do território ocupado por mineradoras, o município enfrenta aumento da poeira proveniente de explosões nas minas e tráfego intenso de caminhões, além da destruição de mananciais. A situação é agravada pelo projeto de expansão da Ferro+, que prevê ampliação da extração de minério de ferro em lavra a céu aberto, com disposição de rejeitos em pilhas e em cava já existente.
A comunidade mais afetada é o Bairro Pires, cujas casas ficariam a apenas 150 metros da área de mineração caso a expansão seja autorizada. Moradora do bairro, Marlene de Souza Alves denunciou que famílias vivem há décadas sob poeira constante, com impactos na saúde de crianças e idosos. “Já sentimos os impactos antes do projeto sair do papel; imagine quando as máquinas estiverem tão perto de nossas casas?”, questionou.
A deputada Beatriz Cerqueira (PT), autora do requerimento pela audiência, ressaltou falhas nos instrumentos de participação da população e a falta de avanços nas negociações com a mineradora. O presidente da Câmara Municipal, vereador Averaldo Pereira da Silva, defendeu que problemas estruturais, como poluição do ar e destruição de mananciais, sejam resolvidos antes de qualquer expansão. “A cidade não suporta mais a forma como a mineração vem avançando”, alertou.
Conflitos e desrespeito à comunidade
A audiência também trouxe à tona episódios de desrespeito, como em evento promovido pela Semad em julho, quando moradores foram hostilizados por representantes da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Sandoval de Souza Pinto, diretor da União das Associações Comunitárias de Congonhas (Unaccon), questionou a capacidade da Ferro+ em controlar a poeira e garantir a preservação da água, apontando riscos ainda maiores com a expansão.
Impactos socioeconômicos e ambientais
Edilson Pereira, do sindicato Metabase, criticou os baixos benefícios para a população e trabalhadores, apontando que 70% dos lucros vão para empresas, enquanto os salários caíram de oito salários mínimos em 2005 para dois em 2025. O secretário de Meio Ambiente de Congonhas, João Luís Monteiro de Castro, destacou episódios recentes de nuvem de poeira e alertou para a poluição futura dos mananciais e a ameaça à biodiversidade da Serra do Pires, área que abriga 83 espécies ameaçadas em Minas.
Ferro+ afirma buscar diálogo e medidas mitigadoras
Representantes da Ferro+ afirmaram que a expansão visa modernizar a operação, mantendo compromissos socioambientais. Entre as medidas citadas estão controle de poeira, aspersão de vias públicas, pavimentação de áreas e manutenção de áreas verdes. Thereza Balbi, gerente de Comunicação da empresa, afirmou que o diálogo com a comunidade é prioridade e destacou que a empresa emprega mil trabalhadores diretos e cerca de 9 mil indiretos.
Thiago Maciel, gerente de Meio Ambiente, disse que a ampliação permitirá recomposição topográfica das áreas lavradas e garantirá a proteção da Serra do Pires, além de controle de poeira e reposição hídrica. Sobre o Projeto de Lei que cria o monumento natural da Serra dos Pires, a empresa afirmou não se opor, desde que a proposta não inviabilize a mineração.

