Blocos de rua divulgam nota de repúdio às vésperas da agenda oficial do Carnaval de BH e criticam modelo baseado em megashows

Nota foi divulgada nesta sexta-feira (30), um dia antes da abertura oficial do Carnaval de BH, que espera público de 6 milhões de pessoas

Blocos de rua divulgam nota de repúdio às vésperas da agenda oficial do Carnaval de BH e criticam modelo baseado em megashows
Foto: Élcio Paraíso

Entidades que representam blocos de rua, ligas e coletivos carnavalescos de Belo Horizonte divulgaram, nesta sexta-feira, (30) de janeiro, uma nota pública de repúdio ao modelo de gestão do Carnaval da capital. A manifestação ocorreu um dia antes da abertura oficial da festa, que neste ano tem expectativa de reunir cerca de 6 milhões de pessoas nas ruas da cidade.

No documento, os blocos criticam a priorização de grandes shows e atrações de projeção nacional. Segundo as entidades, essa escolha ocorre em detrimento do fortalecimento do fazer cultural local, dos blocos de rua e de toda a cadeia produtiva que sustenta a festa.

Além disso, os coletivos afirmam que o modelo atual esvazia territórios, precariza trabalhadores da cultura e compromete a segurança. Para eles, a lógica dos megashows também descaracteriza o espírito comunitário e descentralizado do Carnaval de Belo Horizonte.

Críticas têm origem na história do Carnaval de rua

A insatisfação expressa na nota tem raízes na história recente do Carnaval de rua da capital. Diferentemente de outros destinos, a festa em BH surgiu como movimento popular de ocupação do espaço público, e não como política institucional.

Após um período de repressão e esvaziamento cultural no fim da gestão do então prefeito Fernando Pimentel (2002–2009), o cenário se agravou no início da gestão Márcio Lacerda. À época, a prefeitura proibiu eventos na Praça da Estação.

No entanto, em janeiro de 2010, a cidade assistiu a uma virada simbólica. Um grupo de jovens ocupou a Praça da Estação em trajes de banho, no protesto que ficou conhecido como “Praia da Estação”. A ação marcou o início da retomada do Carnaval de rua.

Entre 2010 e 2012, o número de blocos cresceu rapidamente. Em 2011, BH contava com cerca de 20 blocos. Já em 2012, esse número ultrapassava 70.

Posteriormente, a partir de 2015, o crescimento se consolidou. A cidade passou de aproximadamente 200 blocos para mais de 500 nos anos seguintes. Assim, Belo Horizonte se firmou como um dos maiores carnavais de rua do país.

Modelo democrático e descentralizado

Nesse processo, o Carnaval de BH ganhou destaque nacional por seu caráter democrático, popular e acessível. Ao contrário de cidades como Rio de Janeiro, Salvador e Recife, a capital mineira ofereceu uma festa menos excludente e mais diversa.

Os blocos dialogam com diferentes gêneros musicais e expressões culturais. Há opções de rock, samba, pagode, MPB, sertanejo e bossa nova. Além disso, existem blocos voltados para crianças, famílias e públicos variados.

Por isso, segundo os organizadores, a presença de megablocos com artistas famosos gera desconforto. Para os coletivos, esse modelo concentra público, recursos e atenção em poucos pontos da cidade.

Segurança e megashows entram no centro do debate

Na nota, os blocos citam como exemplo o show do DJ Alok, realizado no Carnaval de 2025. O evento registrou episódios de violência, incluindo duas pessoas esfaqueadas na Avenida Afonso Pena.

Além disso, houve pânico coletivo e superlotação. Para os organizadores, o caso evidencia os riscos de megaeventos superconcentrados e financiados com recursos públicos.

Essa crítica também aparece em falas de lideranças históricas do Carnaval de BH. O Baianas Ozadas, um dos blocos mais tradicionais da cidade, simboliza a retomada da festa.

O líder do bloco, Géo Ozado, que também dirige a Liga Belorizontina de Blocos, concedeu entrevista exclusiva ao portal DeFato Online. Na conversa, ele critica a postura da Prefeitura de Belo Horizonte sobre o Carnaval.
(Inserir aqui o link do vídeo da entrevista)

Além dos blocos de rua, os representantes lembram que o Carnaval da capital inclui os desfiles das escolas de samba e dos blocos caricatos, que também enfrentam dificuldades de fomento e estrutura.

Nota pública dos blocos de rua de Belo Horizonte (íntegra)

“Nós, representantes de ligas, associações, blocos de rua e coletivos carnavalescos de Belo Horizonte, manifestamos nosso repúdio às escolhas da gestão pública do Carnaval de Belo Horizonte, que prioriza, valoriza e facilita grandes produtores e iniciativas artísticas de fora de Minas Gerais, em detrimento do fortalecimento e fomento contínuo do fazer cultural local, dos blocos de rua e coletivos da nossa cidade, bem como de toda a nossa cadeia produtiva.

Enquanto os cortejos de rua, diversificados e espalhados por todas as regionais, seguem com apoio escasso e sem políticas permanentes de fomento, assistimos ao anúncio de artistas de projeção nacional na programação oficial, a maioria sem qualquer ligação orgânica com a cena carnavalesca local.

O Carnaval de Belo Horizonte se tornou o terceiro destino turístico do país porque foi erguido pelos seus artistas, artesãos, produtores, técnicos, ambulantes e foliões.

No entanto, o atual modelo de gestão pública do Carnaval tem priorizado a lógica dos grandes shows, esvaziando os territórios, precarizando trabalhadores da cultura e desvirtuando o espírito comunitário da folia.

Repudiamos a priorização de megaeventos financiados com dinheiro público e exigimos transparência, participação social e valorização dos blocos de rua, escolas de samba e blocos caricatos.

Pelo Carnaval de Belo Horizonte feito por quem faz.”

Nota da Prefeitura de Belo Horizonte / Belotur (íntegra)

“A Belotur esclarece que não há priorização de megaeventos ou investimento adicional de recursos públicos municipais em atrações nacionais do Carnaval de BH.

O principal instrumento de fomento é o Edital de Auxílio Financeiro, destinado aos blocos de rua, escolas de samba e blocos caricatos.

As contratações de artistas de fora da cidade ou do estado ocorrem por iniciativa dos próprios organizadores, com recursos privados.

A Prefeitura garante infraestrutura e serviços de forma isonômica e reafirma o compromisso com o fortalecimento da cultura local.”