Jovens corações em risco

“Sei que uso um dispositivo que pode salvar a minha vida a qualquer momento”- Henrique Terra, fisioterapeuta precisou implantar um marcapasso aos 29 anos

Jovens corações em risco

O estilo de vida da sociedade moderna mudou o público dos consultórios e clínicas de Cardiologia: os pacientes estão cada vez mais jovens. Má alimentação, sedentarismo, hereditariedade e tabagismo são alguns exemplos de fatores que estão incluindo rapazes e moças no grupo de risco das doenças do coração. Hoje, não é incomum pessoas com menos de 30 anos ter complicações.

 
O assistente operacional Marcelo Mota Fonseca, 27 anos, itabirano que hoje mora em Mariana, faz parte dessas estatísticas. Diagnosticado com sopro no coração e hipertensão arterial, teve um princípio de infarto no início de 2011. Estava na casa da avó, em Itabira, quando começou a sentir fortes dores no abdômen, palidez, suores frios e enjôos. Foi socorrido rapidamente pelas tias e vizinhos, que o encaminharam ao Pronto Socorro, onde foi medicado e ficou em observação. Ao ser liberado, o plantonista recomendou que visitasse um cardiologista.
Marcelo reconhece que não levava uma vida saudável. A alimentação não era das melhores, não praticava esportes e era assíduo frequentador de baladas, passando noites acordado e consumindo grande quantidade de bebida alcoólica. O resultado dos excessos e dos hábitos inadequados quase o levou a morte.
 
Segundo o cardiologista Wilhelm Ribeiro Fontoura de Lima, da Angiocor, os principais fatores para disfunção cardíaca são: hipertensão, obesidade, sedentarismo, diabetes e colesterol. “A industrialização dos alimentos, o estresse do dia a dia, o hábito do tabagismo e os benefícios da modernidade favorecem um alto índice de morbimortalidade por doenças cardiovasculares entre os jovens”, afirma.
 
Marcelo já apresentava alguns destes fatores, que deveriam ter sido um sinal de alerta, principalmente a pressão alta. Segundo dados do Ministério da Saúde,entre os jovens de 18 a 24 anos, 5,4% são hipertensos.
 
BOMBA-RELÓGIO
Em geral, as doenças cardiovasculares evoluem de maneira silenciosa durante anos ou até mesmo décadas, sem que o paciente perceba que tem uma bomba-relógio prestes a explodir. É assim que se manifestam as três doenças cardiovasculares mais frequentes: a cardiopatia isquêmica, que consiste em uma redução ou privação do aporte sanguíneo ao miocárdio e evolui para uma angina de peito ou um infarto; a insuficiência cardíaca, que ocorre quando o coração perde a capacidade de bombear uma quantidade suficiente de sangue para todo o organismo; e o acidente vascular cerebral, que se manifesta por uma grave lesão obstrutiva ou ruptura nos vasos sanguíneos que irrigam a cabeça.
 
Wilhem ressalta que a doença cardíaca pode ter origem congênita, isto é, quando o paciente nasce com patologias anatômicas no coração ou podem ser adquiridas, a partir das condições de vida.
 
Depois do susto, Marcelo, que tem o histórico de pessoas hipertensas na família, não ignorou as novas regras do jogo e passou a se cuidar. Além do uso de medicamentos, passou a se alimentar melhor e a praticar exercícios com orientação e supervisão, por causa da doença. Também reduziu o consumo de álcool e frituras. “Sei que se exagerar, corro sérios riscos de um novo infarto”, diz.
 
Após a mudança de hábitos, o assistente operacional contabiliza benefícios. “Tenho mais disposição para praticar exercícios, sonos mais repousantes, menos fadiga durante os dias, sinto menos dor de cabeça e sudorese. E o mais importante: uma expectativa de viver mais e com saúde”, comemora.
 
MARCAPASSO
O fisioterapeuta itabirano Henrique Terra Fonseca, 29 anos, praticava exercícios regularmente: fazia corridas na rua e frequentava a academia cinco vezes na semana. No entanto, um fator chamava a atenção e apontava que nem tudo estava tão bem quanto parecia. Sempre que passava pela avaliação física da academia sua pressão estava um pouco alterada.
 
O problema cardíaco foi descoberto por acaso. Antes de participar de uma corrida de 15km, foi a uma consulta com um cardiologista e, dentro do consultório médico, se sentiu mal.
 
Verificou-se que ele estava com bradicardia, que é uma frequência cardíaca abaixo do normal. Do consultório, saiu de ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) para o CTI do Hospital Carlos chagas, em Itabira, e na manhã seguinte para o CTI do Hospital Biocor, em Belo Horizonte, onde permaneceu por três dias. Descobriu-se que Henrique possui um tipo de dor de cabeça, chamada cefaléia em salvas, que, no momento da dor, faz diminuir os batimentos do coração.
 
Henrique ainda ficou mais seis dias no apartamento e teve a indicação de colocar um marcapasso.
 
Com o implante do dispositivo, o fisioterapeuta ficou triste e preocupado porque achava que não poderia realizar mais nada que um jovem de sua idade fazia. “É claro que ter um marcapasso, ser chamado de cardiopata e mais um monte de coisas me incomodava muito no início. Mas hoje eu sou super tranquilo em relação à minha condição. Sei que uso um dispositivo que pode salvar minha vida a qualquer momento”, conta.
 
Hoje, ele continua praticando atividades físicas, exceto as de maior impacto. Faz consultas regularmente com o cardiologista e anualmente com um arritmologista para controle do marcapasso.
 
Prevenção
De acordo com o doutor Wilhelm, os cuidados devem começar ainda na vida intra uterina, com orientação às gestantes. Na fase infantil e adolescência também é preciso ter sempre esclarecimentos sobre hábitos alimentares saudáveis e prática de atividades físicas. Atualmente, os adolescentes estão cada vez mais obesos, um dos fatores que aumentam os níveis de colesterol e triglicérides e predispõe às doenças do coração.
 
Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística apontam que quase 50% dos adolescentes comem fora de casa no dia a dia. Entre os itens mais consumidos na rua estão salgadinhos (fritos, assados ou industrializados), pizza, refrigerante e batata frita.
 
Em 2009, 16,6% dos meninos entre 5 e 9 anos estavam obesos no Brasil – a taxa era de 2,9% em 1975. A preocupação é tanta, que em 2011 o Governo Federal lançou um programa para reduzir a obesidade entre crianças.
 
Para o cardiologista, este é o caminho para a redução dessas patologias: programas educacionais nas escolas, orientação aos pais, à população de forma geral e restrições às indústrias alimentícias.
 
Atividade Física
Para levar uma vida longa e saudável, não há muito segredo. O educador físico da Quality Personal Class e especialista em reabilitação cardíaca em grupos especiais, Felipe Patta Nunes, 32 anos, enfatiza que a atividade física regular iniciada desde criança é o suficiente para se evitar muitas doenças na fase jovem e adulta. “O jovem de hoje está cada vez mais ansioso, querendo resolver tudo rapidamente, estressado e fumante. Sem pensar na saúde e encontrar um tempo para praticar atividades físicas e se alimentar de forma saudável, como ele chegará ao futuro?”, questiona Felipe.
 
De acordo com Felipe, o fato de uma pessoa praticar atividade física regular já fará com que saia de vários fatores de risco, como acabar com o sedentarismo, controlar a pressão arterial, melhorar os níveis de colesterol, diminuir o excesso de peso e controlar a diabetes também, caso tenha. “Se você faz exercício tem-se um coração mais condicionado, preparado fisicamente e funcionando de maneira correta”, afirma.
 
Ele explica que a frequência cardíaca de uma pessoa em repouso, normalmente, deve ter entre 60 e 80 batimentos por minuto. Se o resultado for acima de 80 batimentos já é um indício de que esta pessoa precisa se mexer, para treinar o coração. “Quanto mais eficiente o coração, menos ele bate, porque a cada batida ele vai levar mais sangue, portanto, não precisará bater tanto. Se estiver acima de 80 o coração já está sobrecarregado”, enfatiza.
 
A atividade física, principalmente exercícios aeróbicos, também traz benefícios para quem já foi diagnosticado com problemas cardiovasculares. No entanto, é necessário acompanhamento profissional, com orientação e adequação a cada caso.
 
Para quem tem isquemia miocárdica induzida pelo esforço, diminui a gravidade e como consequência também atenua a taquicardia. Para quem sofre de insuficiência cardíaca, após um período de treinamento físico regular, ocorre melhora na função respiratória.
 
Em quem tem diabetes, fazer atividade física regularmente significa melhor sensibilidade a insulina e controle glicêmico. Em diabéticos do tipo 2, há a possibilidade da dose ou até mesmo da eliminação hipoglicemiantes orais. “O exercício é como se fosse um remédio e não tem efeito colateral”, afirma Felipe.
 
O fato é que as doenças cardiovasculares não tem mais escolhido idade para se manifestar. É preciso driblar os vilões da modernidade, a ansiedade e estresse de uma juventude apressada e intensa. Seguindo bons hábitos e se preocupando realmente com um envelhecimento saudável, dificilmente o coração estará em risco.
 
CUIDADOS QUE AJUDAM A PREVENIR
 
·         Faça, pelo menos uma vez por ano, um check-up
·         Não fume
·         Se tiver antecedentes familiares para doenças crônicas, como, por exemplo, diabetes, hipertensão e problemas cardíacos, fique mais atento
·         Tenha uma alimentação saudável
·         Beba água regularmente
·         Pratique atividade física orientada
·         Mulheres, não deixem de ir ao ginecologista regularmente
·         Caso sinta dor no peito ou no tórax vá rapidamente ao hospital mais próximo
·         Fique atento ao sobrepeso
·         Evite o estresse
·         Cheque sua pressão arterial
·         Monitore o colesterol

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