Comunidade médica discute alternativas para evitar a transfusão de sangue
Com o Carnaval chegando, logo após o período de férias, os bancos de sangue precisam cada vez mais de doações. Hemocentros por todo o país fazem campanhas para aumentar a coleta, já que, durante esse período, há um crescimento no número de acidentes nas estradas. E, como muitas pessoas estão viajando, não há doadores suficientes […]

Com o Carnaval chegando, logo após o período de férias, os bancos de sangue precisam cada vez mais de doações. Hemocentros por todo o país fazem campanhas para aumentar a coleta, já que, durante esse período, há um crescimento no número de acidentes nas estradas. E, como muitas pessoas estão viajando, não há doadores suficientes para suprir a alta na demanda.
Os hemocentros de Minas Gerais, por exemplo, registraram uma queda de 50% na quantidade de bolsas de grupos sanguíneos negativos, assim como o da capital, que contabilizou uma queda de 80% em seu estoque de sangue, no começo desse ano.
Essa situação não é muito diferente do que ocorre em outros países. E isso tem impulsionando o trabalho de organizações espalhadas por todo o mundo, que defendem uma linha não-transfusional. Associações médicas como a Society for the Advancement of Blood Management (SABM) e a Network for Advancement of Transfusion Alternatives (NATA) mostram alternativas para resolver esse e outros problemas enfrentados pelos pacientes, que precisam de transfusões de sangue.
No Brasil também existem importantes discussões sobre o tema. O site Bloodless, por exemplo, desenvolvido por uma equipe de médicos de Minas Gerais e São Paulo, reúne material científico completo sobre estudos e evidências que comprovam que, além de resolver o problema dos bancos de sangue, a não-transfusão de sangue é também mais saudável para os pacientes.
“Um artigo publicado na revista Circulation mostra que pacientes que receberam transfusões de sangue demoravam mais tempo a ter alta dos hospitais, tiveram índices mais altos de mortalidade e estavam mais suscetíveis a infecções e doenças pós-operatórias isquêmicas. Também temos observado isso nos hospitais aqui no Brasil”, conta o cardiologista Alceu dos Santos.
Segundo o médico, já existem diversas alternativas às transfusões. “Fizemos, inclusive, um retransplante de coração sem ter que recorrer à transfusão. Existem aparelhos que filtram o sangue do próprio paciente, por exemplo, que conservam o DNA e evitam com que o corpo considere o sangue alógeno, como corpo estranho, por exemplo”, afirma.
E os ganhos ainda se refletem nos custos das transfusões, que têm valores elevados durante uma internação. O Hospital Stanford, da Califórnia, reduziu em 24% o número de transfusões realizadas e conseguiu economizar, com isso, cerca de U$1,6 milhões por ano. Além disso, eles perceberam que a quantidade de dias de internação caiu de 10,1 dias para 6,2 e que a taxa de mortalidade caiu de 5,5% para 3,3%.
Conheça algumas alternativas à transfusão que podem ser adotadas, segundo o cardiologista Alceu dos Santos:
1) Equipamentos que evitam a transfusão: como citado acima, trata-se de máquinas capazes de reaproveitar o sangue do próprio paciente. Elas ainda trazem o benefício de manter o DNA do paciente, o que não representa um corpo estranho para o organismo e evita com que haja perdas do material;
2) Evitar coletas excessivas de sangue: quando o paciente está internado, costuma-se retirar sangue diversas vezes ao dia e, às vezes, só para seguir um protocolo. Esse hábito poderá acabar resultando numa anemia, que, posteriormente, fará com que o paciente precise repor o sangue perdido. Da mesma forma, a alternativa simples, e que ajuda a evitar a perda de sangue, é utilizar tubos pediátricos (que são menores) para as coletas. Isso vai evitar uma perda desnecessária do material;
3) Medicamentos de uso endovenoso e tópicos para parar sangramento: existem medicamentos disponíveis nas duas versões, que auxiliam no combate a uma possível hemorragia, por exemplo, que necessitaria da transfusão;
4) Casos de anemia: estudos comprovam que as pessoas têm resistência à anemia, mas, infelizmente, alguns médicos ainda não têm esse conhecimento. Nesses casos, a transfusão pode ser evitada. E também já existem medicamentos indicados para tratar a disfunção. Outro fator que pode aumentar a tolerância à anemia é a ventilação mecânica com 100% de oxigênio, o que assegura a oxigenação dos tecidos, mesmo em casos de anemia mais graves;
5) Outras técnicas cirúrgicas: como a hemostasia meticulosa e a anestesia hipotensiva, que permitem que o paciente fique com a pressão um pouco mais baixa, que vai resultar em uma menor perda de sangue, já que a pressão do vazamento de sangue para fora do corpo, durante uma hemorragia, será mais baixa.





