Álcool, e não maconha, é porta de entrada para outras drogas, diz deputado
Pesquisa foi divulgada em audiência realizada em Mantena, onde consumo de álcool e outras drogas preocupa

Ao contrário do que prega o senso comum, é o álcool, e não a maconha, a verdadeira porta de entrada para outras drogas. A declaração é do deputado Antônio Jorge (PPS), presidente da Comissão de Combate ao Uso do Crack e Outras Drogas da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Com essa afirmação, o parlamentar surpreendeu os participantes de uma audiência pública realizada a pedido dele, na última semana, na Câmara Municipal de Mantena, no Vale do Rio Doce.
Na reunião, foram debatidos o impacto da propaganda no consumo de bebidas alcoólicas entre jovens e a necessidade de adequação da Lei Federal 9.294, de 1996, que trata das restrições ao uso e à publicidade de bebidas. Também durante o encontro foram apresentadas as dificuldades do poder público local para lidar com o aumento do consumo de álcool e drogas pela juventude de Mantena, e sugeridas ações para minimizar o problema.
Para desfazer o mito em torno da maconha como porta de entrada para outros vícios, Antônio Jorge se valeu de uma pesquisa recente do Journal School of Health, dos Estados Unidos. O trabalho mostrou que a bebida alcoólica é, de fato, a primeira substância consumida por aqueles que mais tarde apresentam graves problemas relacionados ao uso de entorpecentes. Na apresentação de slides, o parlamentar alerta ainda que a doença do alcoolismo atinge cerca de 10% da população brasileira e, diferentemente de outras enfermidades, ela não é tratada.
Consumo precoce
Outro dado preocupante, segundo o parlamentar, vêm de um estudo nacional conduzido pela UFMG, o qual revela que os jovens (considerados na faixa etária entre 12 e 17 anos) têm experimentado cada vez mais cedo o álcool. Se em 2003, 48% desse público já havia respondido positivamente à pergunta sobre já ter experimentado a bebida alcoólica, esse percentual chegou a 54,5%, em 2005, e a 71%, em 2009.
Além do consumo precoce, o presidente da comissão também frisou a homogeneização do uso do álcool, uma vez que, atualmente, pessoas de todos os sexos, raças e perfis de renda consomem bebidas. “Há 20 ou 30 anos, a cada cinco rapazes, uma moça bebia; hoje a diferença é mínima, com 65% de homens e 62% de mulheres”, declarou Jorge, acrescentando que há uma aceitação social do consumo, inclusive com experimentação nas famílias. Para completar, a pesquisa mostra que os adolescentes bebem em maior quantidade, pois o gasto mensal com o álcool fica em R$ 120, na média.
“Cerveja também é álcool”
Por todos esses motivos, o deputado advoga que não haverá avanços no combate ao uso de bebida alcoólica caso não se modifique a legislação que trata da publicidade desse produto. Nesse sentido, Antônio Jorge divulgou a campanha “Cerveja também é álcool”, a qual busca sensibilizar a população para a necessidade de modificar a Lei 9.294, de 1.996. Ele explicou que a norma, de autoria do ex-deputado e crítico histórico das drogas, o professor José Elias Murad, restringe o horário de veiculação de propagandas de bebidas alcoólicas, entre 22 horas e 6 da manhã.
Ocorre que o projeto, pouco antes de ser aprovado, foi modificado, de acordo com o parlamentar, para excluir a cerveja da definição de bebida alcoólica. “Pela lei, considera-se bebida alcoólica somente aquela com teor alcoólico acima de 13 graus Gay Lussac. Por isso, somos motivo de ridículo no mundo porque, no Brasil, cerveja não é bebida alcoólica”, criticou.
Por fim, o deputado mostrou um vídeo da campanha “Cerveja também é álcool”. A peça divulga que a lei proíbe a associação de bebidas alcoólicas com temas ligados ao sexo e ao esporte e com temas que induzam a uma ideia de bem-estar e saúde. E na opinião do deputado, são essas três temáticas que a indústria da cerveja e das bebidas ices (também com teor alcoólico abaixo dos 13 graus) utiliza o tempo todo em propagandas no Brasil. “É criminoso e aético induzir adolescentes ao consumo de álcool. Isso só acontece no Brasil. Não há problema em beber, confraternizar, o problema é induzir ao consumo inadequado”, criticou.
Antônio Jorge disse ainda que o objetivo final da campanha é coletar 1,5 milhão de assinaturas em um projeto de lei federal de iniciativa popular para que seja alterado o parágrafo que considerou como bebida alcoólica somente aquela com mais de 13 graus de graduação.





