Dengue: um velho problema

Thereza Horta, chefe do Departamento de Vigilância em Saúde, explica as medidas que o município vem tomando para evitar a disseminação da dengue

Dengue: um velho problema

O problema não é novo. As formas de combatê-lo também não. Mesmo assim, a dengue ainda é uma ameaça no Brasil. Em Itabira, o prefeito João Izael convocou a população a declarar guerra ao mosquito Aedes aegypti, o transmissor da doença, no lançamento da campanha 2011 de conscientização acerca dos métodos de erradicação da doença. O Ministério da Saúde estabelece como meta um índice de infestação médio por cidade de no máximo 1%. Em Itabira, esse número foi 3,83% em janeiro deste ano, segundo o Levantamento do Índice Rápido do Aedes aegypti (LIRAa).

A população é a única capaz de definir o sucesso de qualquer política pública de combate e erradicação da doença. Dentro das residências estão 85% dos focos encontrados pelos agentes. Na entrevista a seguir, Thereza Cristina Oliveira Andrade Horta, chefe do Departamento de Vigilância em Saúde, explica as medidas que o município vem tomando para evitar a disseminação da dengue e o trabalho dos agentes de combate, bem como a importância da participação da sociedade.

Atualmente, toda a cidade é rastreada pelos agentes e por armadilhas espalhadas em áreas estratégicas. No entanto, muitas pessoas ainda recebem mal os servidores, que têm o papel de orientá-las sobre o que é melhor para todos. A partir deste mês, está em vigor também uma lei que prevê aplicação de multas para quem não colaborar. O valor pode chegar a R$ 1,2 mil.

 

A Prefeitura de Itabira lançou uma campanha que promete guerra contra a dengue. É um trabalho que precisa ser feito sempre?

Na realidade, a cada ano o trabalho é feito para prevenir a doença e eliminar o mosquito. Essa mobilização acontece em todos os níveis: governos estadual, federal e municipal, e nós, mais uma vez, vamos suplementando essa situação, na questão de trabalhar a prevenção, mostrando à população os riscos, o trabalho duro da nossa equipe, dos agentes de combate e de divulgação. Essa nova campanha mantém o mesmo princípio básico, que é a questão de mobilizar a população para acabar com a dengue. Em 2010, dos 234 casos notificados que tivemos, 23 casos positivos foram autóctones (contraídos no município), 23 importados, 120 casos negativos e 68 ainda aguardam resultados. Os casos importados são de pessoas que são residentes aqui, viajam para outras cidades, se contaminam lá e adoecem aqui, porque há um período de 15 dias entre a contaminação e os sintomas. Em cima dos casos, a gente define uma área de trabalho para identificar e eliminar os focos. Alguns ambientes de água parada a gente consegue eliminar; em outros, como piscinas abandonadas, se faz o tratamento. Para a doença ter continuidade, o mosquito precisa de uma pessoa infectada. Se ela está doente, mesmo que não tenha se contaminado aqui, transmite a outras. A fêmea do Aedes, principalmente, precisa do sangue humano para a maturação dos ovos. Então, se a gente encontra em determinada casa pessoas com sintomas, fazemos a investigação para evitar a transmissão.

 

Quais os principais mecanismos, usados hoje, para eliminar os focos?

Na realidade, a água parada é o grande vilão. Uma pequena lâmina d’água é o suficiente para a orientação da fêmea, que faz a postura dos ovos na base do recipiente. Alguns ovos vão se perder, mas muitos chegarão à fase adulta. Por isso a gente fala para eliminar aquela água, que pode ser evaporada ou preenchida, e lavar o recipiente. A limpeza das paredes é muito importante. Às vezes as pessoas só jogam a água fora, mas não fazem a limpeza. Aí vem mais água e os ovos viram mais mosquitos.

 

Qual a importância das armadilhas instaladas em Itabira?

Em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais, foi desenvolvido um método de trabalho diferente. Uma empresa de Belo Horizonte desenvolveu essa armadilha, que captura o mosquito numa espécie de fita adesiva. Como há uma abertura, a fita tem um feromônio que atrai a mosca; quando ela pousa, fica presa e morre. Essas armadilhas são colocadas com GPS, para poder fazer, dentro da cidade como um todo, um rastreamento dos locais onde estão mais mosquitos. Então, o que essa armadilha nos permite é uma outra técnica de trabalho para acrescentar aos métodos que já utilizamos. Temos mais de 200 armadilhas espalhadas pela cidade. Usamos o Google para monitorar e uma vez por semana os funcionários vão aos locais e abrem as armadilhas. Se tiver mosquito, a gente leva para o laboratório para ver se ele está ou não com vírus.

 

Barão de Cocais está usando um método diferente, com plantas. Mas a conscientização da população continua sendo a melhor maneira de combate, não é?

Não vamos parar enquanto a gente não eliminar o mosquito. Sabemos os seus hábitos, como ele vive, onde está. Então, o que precisa é que a população se conscientize de fazer o seu papel. Temos mais de 50 agentes no campo trabalhando durante todo ano e cobrindo toda a nossa cidade. A função deles é exatamente fazer esse trabalho de orientação da população de casa, a cada dois meses. Os pontos de apoio são divididos em quatro áreas nos bairros Gabiroba, Machado, Centro e Juca Rosa. Todos estabelecidos de maneira estratégica, de forma que cobrimos a cidade e a zona rural. Mas a parceria com a população é fundamental, porque 85% dos focos estão nas residências.

 

A partir de agora tem multa para quem não colaborar. Pode ser a solução definitiva?

A partir deste mês de janeiro, já está em vigor a lei que prevê multa, que pode variar de acordo com a infração e com a reincidência. O valor pode chegar a R$ 1,2 mil. A multa é uma coisa que não queremos, mas a gente precisa que a população se conscientize. Não quer dizer que todo mundo que a gente visitar, em toda residência, será aplicada multa. Você vai a primeira vez; se identificou que tem focos, você vai dar à pessoa uma orientação. Se ela for reincidente, então poderá ser multada. Muitas vezes o agente traduz para a pessoa o comportamento da população. As pessoas não acreditam que correm o risco de adoecer. Voltando à questão da armadilha, identificamos na semana passada, no bairro Valença o tipo 2 do vírus. No fim de semana, fizemos uma parceria muito interessante com o presidente da associação do bairro, que mobilizou a população e iniciamos um mutirão de limpeza.

 

Como a população recebe os agentes?

Ainda recebe mal. Existem bairros em que a pessoa não quer ser incomodada; ela acha que na casa dela não tem, então não recebe ou recebe de maneira grosseira. Tem vez que as pessoas deixam entrar e trazem enxada, como se os agentes fossem limpar o lote ou o quintal delas. Mas a função do agente é identificar e orientar a população sobre o perigo. Nesses anos, o trabalho de consciência tem sido muito grande. Temos coleta seletiva de lixo em todos os bairros e muita informação a respeito do problema. Mas se não declararmos guerra contra a dengue, a doença vai continuar existindo. Em Itabira, por meio dos levantamentos que temos feito todos os anos, o índice de infestação vem aumentando gradativamente. É preciso a ajuda da população.

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