Solidariedade na veia
A auxiliar de serviços, Maria Adelaide é doadora há sete anos

O Dia Nacional do Doador de Sangue Voluntário é comemorado em 25 de novembro. Faltando cerca de um mês para a data, o número de doadores brasileiros ainda é desfavorável. Um ano atrás, pesquisas mostravam que, no Brasil, 1,9% da população era doadora. Em 2010, o Ministério da Saúde já considerava ser urgente e possível melhorar esses números — apesar de o percentual atender a recomendação da Organização Mundial de Saúde (OMS), 1% a 3%.
Em 2011, esse quadro se mantém e, em Minas Gerais, a Fundação Centro de Hematologia e Hemoterapia de Minas Gerais (Hemominas) — responsável pela distribuição de bolsas de sangue para as agências transfusionais dos hospitais do estado — indica que apenas 2% dos mineiros são doadores. “A população brasileira não possui em sua cultura o hábito de doar sangue”, atesta Déborah Carvalho, responsável pelas Coletas Externas na Gerência de Captação e Cadastro de doadores da Fundação Hemominas.
Segundo a Hemominas, no estado, a maioria dos doadores de sangue é composta por jovens entre 18 e 30 anos. A maioria é do sexo masculino, totalizando cerca de 60% das doações. São mais de 50% dos doadores cadastrados dentro dessa faixa etária, comprovando que ainda há muita gente apta pela idade deixando de doar, uma cultura que pode ser mudada por meio das campanhas de conscientização.
Ainda de acordo com Déborah Carvalho, devido a essa realidade, o hemocentro realiza diversas campanhas de divulgação e conscientização. Para ampliar a rede de voluntários, assegurada pelos cadastros, são promovidas parcerias com empresas e entidades no interior de Minas para expansão das campanhas e coleta do sangue in loco. “Sangue é um ‘remédio’ diferente dos outros. Somente pode ser obtido por meio de doação de um ser humano a outro. E para ter sangue disponível para transfusões é preciso tocar a sensibilidade e a solidariedade humanas”, explica.
O Hospital Margarida (HM), em João Monlevade, tem uma Agência Transfusional, que disponibiliza, em média, 130 bolsas por mês. A unidade de saúde também fornece hemocomponentes para os hospitais de cidades vizinhas, como Nova Era, Rio Piracicaba e São Domingos do Prata, de acordo com Elem Machado Caldeira, coordenadora de Enfermagem e Responsável Técnica pela Hemotransfusão. “O que não temos em grande estoque é o concentrado de hemácias O negativo (O-), por falta de doadores no estado e por ser um tipo sanguíneo mais raro. O estoque (dele) é mínimo em qualquer agência”, sinaliza. Elem descreve que, atualmente, no estoque não há disponibilidade de plaquetas, devido ao curto prazo de validade (3 a 5 dias) e ausência de demanda para o hemocomponente.
Itabira no limite
Em Itabira, o Hospital Nossa Senhora das Dores (HNSD), outra referência regional, também dispõe de agência transfusional, responsável por captar e cadastrar doadores, além de preparar bolsas de sangue para transfusões. De acordo com Izabel de Lima Castro, farmacêutica e bioquímica responsável pelo setor, atualmente, a agência possui um estoque mínimo do material (com todos os grupos sanguíneos – A, B, AB, O, com Fator Rh positivo e negativo).
Toda semana é solicitada à Fundação Hemominas a reserva de bolsas de sangue necessária ao reabastecimento do estoque, que atende aos pacientes de Itabira e região. A baixa no estoque ocorre somente caso a Fundação não disponha de reserva, não podendo atender à demanda do HNSD. Para contornar o problema, o atendimento passa a ser prioritário, ou seja, são atendidas apenas as emergências. “Nesse caso, o setor comunica aos médicos, realizando os atendimentos apenas emergenciais e deixa os pedidos de reserva em caso de cirurgias eletivas para quando houver o reabastecimento”, esclarece Izabel.
A captação de doadores é diária e ocorre por meio de abordagem aos familiares dos pacientes. Também é feita a distribuição de panfletos informativos e contatos telefônicos com doadores já cadastrados, como forma de incentivo às doações. Os interessados em fazer doações, devem se cadastrar. Na última sexta-feira de cada mês, os candidatos são levados ao posto de coleta Júlia Kubitschek, em Belo Horizonte, para a realização da coleta, com transporte e lanche disponibilizados aos doadores pelo HNSD.
A demanda por sangue, entre outras, é formada por gente como o auxiliar de serviços gerais Márcio Romano Valeriano, 30. Morando em Bom Jesus do Amparo, há quatro anos faz parte de sua rotina vir a Itabira três vezes por semana, para realizar hemodiálise no HNSD, devido a uma insuficiência renal. Em consequência do tratamento, a transfusão de sangue se faz necessária para o controle da anemia. O processo de transfusão é imprescindível para a sobrevivência de Márcio. “Se não houvesse gente que doasse sangue, eu morreria. É importante doar para quem precisa. Quem doa faz um gesto de caridade”, diz o paciente.
Bom exemplo
A implantação, em 2006, do projeto “Grupo Doadores de Vida”, iniciativa dos membros do Pró-Voluntário da Arcelor Mittal, projeto formado por funcionários da Usina Monlevade, segue fielmente a sua missão de facilitar a doação de sangue dos voluntários do município e região, cadastrar doadores, além de coletar e transportar gratuitamente o material até o Hemominas. Os funcionários do hemocentro visitam a cidade trimestralmente e, eventualmente, o Pró-Voluntário organiza grupos que são levados para doação na capital.
Segundo o coordenador geral do Pró-Voluntário, Waldemar Noronha Filho, a meta de 150 doadores/bolsas recolhidas tem sido alcançada nas campanhas. “O número de pessoas que comparecem é surpreendente. Na maioria das vezes temos que dispensar doadores em função da capacidade de coleta, armazenamento e transporte por parte do Hemominas”, comemora. Segundo Waldemar, as pessoas dispensadas naquele dia são cadastradas e convidadas para outras coletas.
Atualmente, a coleta do projeto Grupo Doadores de Vida é promovida no Centro de Cultura e Memória da Usina, em João Monlevade. A próxima campanha está confirmada para o dia 18 de novembro.
A auxiliar de serviços, Maria Adelaide do Carmo, também conhece a situação de carência no estado. A monlevadense, que trabalha em um posto de saúde de Nova Era, há sete anos se mantém cadastrada no banco de doadores de sangue e há cinco, no de medula óssea. Ela também divulga a iniciativa do Grupo Doadores de Vida na região. “Para mim é gratificante ser doadora. Acho egoísmo não ajudar”, opina.
REQUISITOS PARA SER DOADOR
Ter e estar em boa saúde; não ter tido hepatite após os 10 anos de idade; pesar acima de 50 kg; não ter comportamento de risco para doenças sexualmente transmissíveis; não ter tido gripe, resfriado ou diarréia nos últimos sete dias; não ter ingerido bebida alcoólica nas últimas 12 horas; não ter usado drogas; não apresentar ferimento ainda não cicatrizado; não estar grávida ou em período de amamentação.
Após o parto normal é necessário aguardar 3 meses, após cesárea, 6 meses; não ter sido submetido a exame de endoscopia ou broncoscopia nos últimos 12 meses; não ter feito tatuagem nos últimos 12 meses; não estar em jejum. Pela manhã, alimente-se antes; à tarde dê um intervalo de 3 horas após o almoço; tratamento dentário impede a doação por período de 1 a 30 dias, conforme o caso; a menstruação e o uso de anticoncepcionais não impedem a doação;o prazo mínimo entre doações de sangue total é de 60 dias para homens e de 90 dias para mulheres.
Para doadores com idade entre 60 e 65 anos, o intervalo é de 6 meses; homens podem realizar até 4 doações de sangue total em um período de 12 meses e as mulheres, 3 doações; ter idade entre 16 e 67 anos completos: a idade máxima para a primeira doação de sangue é de 60 anos.
Os candidatos, que já tiverem doado pelo menos uma vez antes dos 60 anos, poderão doar até a idade de 67 anos se mantiverem condições saudáveis; apresentar documento de identidade original e oficial com foto e passar por todas as etapas da doação, a saber: conscientização, cadastro, triagem clínica, triagem laboratorial, coleta.
Além de todos esses requisitos, os jovens de 16 e 17 anos só poderão se candidatar para doação se estiverem acompanhados de ambos os responsáveis legais ou mediante a apresentação de autorização dos responsáveis legais registrada em cartório.





