Carnaval de Belo Horizonte amplia espaço para diversidade religiosa nas ruas
Blocos, afoxés e políticas públicas também consolidam a inclusão de sexualidades e identidades de gênero na festa
A presença de manifestações religiosas diversas tem ganhado maior visibilidade no Carnaval de Belo Horizonte, especialmente a partir da retomada dos desfiles de rua na última década. Blocos, afoxés e cortejos ligados a religiões de matriz africana passaram a ocupar espaços centrais da cidade, em um contexto marcado por disputas simbólicas sobre o uso do espaço público e pela convivência entre diferentes expressões de fé.
Esse movimento, segundo avaliação da Belotur, não surgiu por indução institucional, mas a partir da organização dos próprios coletivos culturais. Em resposta enviada à reportagem, a empresa municipal afirma que o reconhecimento do carnaval da capital como espaço plural se construiu de forma gradual, com posterior incorporação às políticas públicas voltadas à organização da festa.
“O reconhecimento nacional do Carnaval de Belo Horizonte como uma festa aberta à diversidade sexual e de gênero nasce de um movimento espontâneo e genuinamente popular, protagonizado pelos blocos de rua”, informou a Belotur. Segundo o órgão, a atuação do poder público se concentra na garantia de infraestrutura, segurança e ordenamento urbano, sem interferir nos recortes religiosos, identitários ou estéticos adotados pelos grupos.
No campo religioso, a Belotur destaca que hoje é possível identificar blocos e manifestações que dialogam diretamente com religiões não católicas, sobretudo as de matriz africana. “Essas expressões integram a construção histórica, cultural e identitária do Carnaval da cidade”, afirmou o órgão, acrescentando que a Prefeitura atua para assegurar a liberdade religiosa e prevenir situações de intolerância durante os desfiles.
Exemplos desse cenário aparecem em blocos tradicionais da programação. O Baianas Ozadas, por exemplo, mantém em seu cortejo referências a rituais afro-brasileiros, como a lavagem simbólica da escadaria da Igreja São José, em diálogo com tradições do candomblé e do afoxé. Já o Batuque Coletivo aposta em temas ligados à música mineira e à identidade cultural, inserindo o debate sobre pertencimento e memória no contexto da festa.
Além da dimensão religiosa, o carnaval belo-horizontino também se consolidou como espaço de expressão de diferentes sexualidades e identidades de gênero. Desde os primeiros anos da retomada dos blocos de rua, coletivos LGBTQIA+ passaram a ocupar as avenidas com desfiles próprios, ampliando a visibilidade de pautas ligadas à diversidade e ao direito à cidade.
Nos editais e chamamentos públicos, a Belotur afirma que o princípio adotado é o da autonomia dos blocos. “Não há imposição de recortes estéticos, religiosos ou identitários. O foco é garantir igualdade de condições de participação e um ambiente seguro e respeitoso”, informou o órgão. A organização da festa envolve ainda a atuação integrada com outras áreas da administração municipal, voltada à mediação de conflitos e à prevenção de discriminações.
Com mais de 500 blocos cadastrados nas edições recentes, o Carnaval de Belo Horizonte se transformou em um espaço onde diferentes crenças, corpos e identidades compartilham o espaço urbano. A ampliação da diversidade religiosa e a presença consolidada de pautas ligadas à sexualidade refletem mudanças mais amplas na relação da cidade com suas manifestações culturais e com o uso coletivo das ruas.




