Casal haitiano radicado em Itabira luta há cinco anos para trazer filhos deixados para trás

DeFato Online começa hoje a contar o drama da família separada após o trágico terremoto no Haiti em 2010 que matou 200 mil pessoas

Casal haitiano radicado em Itabira luta há cinco anos para trazer filhos deixados para trás

Há cinco anos, todos os dias, Hernante Valcourt, de 33 anos, e o marido llnez Jean, de 45 anos, acordam com o mesmo desejo: rever os filhos Ivanot Jean, de 13 anos, e Jowendy Sajoux, de 16. Os meninos estão no Haiti, há 4.311 km de distância do casal, que vive em Itabira, região Central de Minas Gerais.

Em busca de uma perspectiva melhor de vida para a família, o marido veio primeiro para o Brasil em 2011, após arrumar emprego na construção em Itabira. A decisão foi tomada depois da tragédia causada pelo terremoto no Haiti, em 12 de janeiro de 2010, que assolou o país e deixou cerca de 200 mil mortos.

Porto Príncipe (Haiti) – Ruínas no bairro de Bel-Air após o terremoto em 2010 – Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Já Hernante veio para o Brasil em 2014, também com a esperança de conseguir trabalho e, junto com o marido, levantar recursos para oferecer uma vida melhor para os filhos. O plano, desde a chegada no novo país, sempre foi juntar dinheiro suficiente para conseguir trazer as crianças e ter a família reunida novamente.

Passados oito anos que Ilnez chegou ao Brasil e cinco anos de Hernante, mesmo depois de muito sacrifício, o casal não tem perspectivas de quando poderá rever os meninos.  Dois grandes desafios separam a família: vencer a burocracia jurídica para providenciar os passaportes necessários e arrecadar recursos financeiros para arcar com a viagem dos meninos.

A única foto que Hernante tem dos filhos Ivanot Jean, de 13 anos e Jowendy Sajoux, de 16

“Meu marido chegou primeiro. Assim que ele arrumou emprego, juntou um dinheiro e mandou para que eu conseguisse vir, mas não dava para trazer os meus filhos (Jowendy é fruto de um outro relacionamento da haitiana). Então decidi que, se eu também arrumasse trabalho no Brasil, poderíamos conseguir mais rápido o valor necessário para trazer as crianças”, disse a mãe. No entanto, a batalha tem sido mais difícil do que ela imaginava.

Desafios

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Para trazer as crianças para o Brasil, o casal precisa de providenciar os passaportes e o visto, além de comprar as passagens. Cada bilhete para embarcar de Porto Príncipe, a capital do Haiti, até o Rio de Janeiro custa, em média, R$ 2.800, o que daria o valor de R$ 5.600 para os dois meninos. A estimativa é gastar R$ 1.320 só com os dois passaportes. Hernante não sabe quanto precisaria de ter para pagar os vistos. Mas apenas as duas primeiras despesas orçadas exigem do casal ter disponível a quantia de R$ 6.920.

Hernante também aguarda retorno da Embaixada para renovar o seu passaporte

Salários só são suficientes para pagar as despesas do casal no Brasil e dos filhos no Haiti

A haitiana Hernante e o marido llnez moram no bairro Penha, na região Central de Itabira. Ambos trabalham de carteira assinada. Ela, de salgadeira, e ele, em um lava-jato. Os salários são suficientes para pagar as contas básicas do casal, como aluguel, alimentação, luz e água, e o que sobra é encaminhado para o Haiti para sustentar os filhos Ivanot Jean e Jowendy Sajoux.

“Todo mês eu preciso ir a Belo Horizonte para depositar o dinheiro no banco Western Union, o único que aceita. Quando tem alguma emergência e eles me ligam, saio correndo procurando alguém para levar o dinheiro para a capital”, conta Hernante, que precisa arcar ainda, mensalmente, com o gasto para a viagem a Belo Horizonte.

Atualmente, os meninos moram com a tia, cunhada de Hernante, em Plateau Central, uma pequena cidade vizinha à República Dominicana . “Eu mando dinheiro para escola, roupa, comida e o que eles precisarem”, diz a mãe. Quando a haitiana veio para o Brasil, as crianças haviam ficado com a avó paterna, mas a sogra de Hernante faleceu e a tia assumiu a responsabilidade de cuidar dos dois. Ivanot Jean e Jowendy Sajoux vivem com a tia e mais três primos. “Depois da morte da minha sogra, fiquei ainda mais desesperada para voltar a cuidar dos meus filhos”, diz a mãe.

Leia amanhã as dificuldades enfrentadas pelo casal de haitianos para vir e se adaptar no Brasil

 

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