Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte abre exposição de Marlene Barros e expõe as feridas que o 8 de março insiste em maquiar
Exposição “Tecitura do Feminino” transforma bordado e crochê em denúncia sobre violência, apagamento histórico e desigualdade no Mês da Mulher
Por: Edna Coelho
4/03/2026 às 14h48
Atualizada em: 4/03/26 às 14h53
Em cartaz até 1º de junho, com entrada gratuita, a exposição reúne 13 obras em escultura, crochê e bordado. A artista maranhense transforma técnicas tradicionalmente associadas ao espaço doméstico em linguagem crítica. Assim, a agulha deixa de ser símbolo de submissão e passa a funcionar como instrumento de denúncia.
Em entrevista ao Portal DeFato Online, Marlene deixa claro que não trabalha com a ideia de delicadeza romantizada. “È uma exposição sobre o feminino, com elementos deste universo das mulheres, nesse mês das mulheres, mas que perpetua toda a trajetória do feminino, mas não a delicadeza, não a sutileza, mas as dores e as histórias por trás de cada mulher”, afirma.
Quem é Marlene Barros

Natural de Bacurituba, no Maranhão, Marlene Barros construiu uma trajetória de mais de quatro décadas dedicadas às artes visuais. Bacharel em Desenho Industrial pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), especialista em Artes Visuais pelo SENAC e mestre em Arte Contemporânea pela Universidade de Aveiro, em Portugal, a artista articula produção, formação e mobilização cultural. À frente do Ateliê Marlene Barros e do Ponto de Cultura Coletivo ZBM, atua na valorização da arte maranhense e na formação de novas gerações. Em sua pesquisa, mantém fidelidade ao universo feminino, abordando maternidade, sexualidade, violência, erotismo e construção social da feminilidade. Ao longo da carreira, experimentou pintura, escultura, performance e intervenção, mas encontrou nas práticas têxteis um campo potente de elaboração simbólica e crítica política.
Da experiência pessoal à crítica estrutural
A artista não aponta um momento único de ruptura. Ao contrário, descreve um processo gradual de consciência. “Não sei se eu precisaria uma data, né, porque eu acho que isso é uma coisa que vai acontecendo e de repente tu nem percebe tanto e quando vê já está lá, já está envolvida nessa história”, relata.
Mais tarde, um período de isolamento fora do país e, posteriormente, a pandemia intensificaram essa virada. O confinamento físico reativou memórias familiares e técnicas aprendidas com as avós. “Eu sinto a necessidade, foi necessidade, fui forçada por estar num ambiente fechado, enclausurado, praticamente lá num país diferente do meu e ter que produzir um objeto de arte. Aí sim eu vou lá para minhas avós, que eram tecelãs e costuravam, e eu vou pegar esse material e começar a fazer esse crochê e esse tricô”, conta.
Desse retorno às origens nasceu a obra Entre Nós, criada dentro do quarto da artista durante a pandemia. Nesse contexto, o espaço íntimo se transformou em campo político.
O corpo feminino como território disputado
Ao reunir trabalhos produzidos ao longo de décadas, a mostra questiona a coisificação do corpo feminino. Historicamente, a sociedade empurrou a mulher para o lugar do “belo”, avaliando seu valor conforme padrões normativos. A artista, por sua vez, desmonta esse enquadramento.
Ao subverter o status do que foi historicamente chamado de “artesanato”, a artista também questiona a estrutura que definiu o que é arte legítima — e quem tem autorização para produzi-la.
Entre as obras expostas estão:
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Coso porque está roto – casaco com órgãos bordados no avesso, onde sentimentos ganham materialidade.

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Entre nós – instalação imersiva em crochê que questiona a naturalização da submissão doméstica.

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Quem pariu, que embale – crítica direta à responsabilização quase exclusiva das mulheres pelo cuidado dos filhos.

Além da crítica ao corpo padronizado, Marlene questiona o apagamento das mulheres na história da arte. Durante séculos, classificaram bordado e crochê como “artesanato”, afastando essas práticas do circuito legitimado das galerias. A artista contesta essa hierarquia.
“Eu quis usar os fazeres da mulher, da clausura, esse fazer que é considerado sempre de menor valia por ser exatamente ligado à mulher, e a gente transformar isso e fazer com que isso deixe de ser considerado só um trabalho menor, um artesanato, e passe a se transformar em um trabalho de arte”, afirma.
Delicadeza que confronta
Embora utilize materiais associados à fragilidade, a artista reivindica potência. “De repente um material que, vamos falar, acho tão delicado, uma agulha e uma linha, a gente consegue com esse material… O quanto que um material tão delicado, a gente pode tirar força, mostrar a potência, na verdade, na potência desse material quando a gente tem um recado para dar”, diz.
Dessa forma, a exposição desmonta a ideia de que o feminino se resume à suavidade. Pelo contrário, evidencia violência política, física e simbólica. Em um país que ainda enfrenta índices alarmantes de feminicídio, insistir em homenagens superficiais no 8 de março soa desconectado da realidade.
Para Marlene, a arte precisa provocar deslocamentos. “A arte tem um papel fundamental porque cria espaços de escuta, questionamento e deslocamento de perspectivas. Ao mobilizar emoções, ela rompe a indiferença”, defende.
O desejo de ocupar a rua
A artista também manifesta vontade de ultrapassar os limites institucionais. “Eu tenho uma vontade, assim, de fazer uma obra pública, uma obra para ficar fora, fora de galeria, fora de tudo, sabe?”, revela. O desejo de instalar uma obra em espaço aberto aponta para a necessidade de inscrever o feminino na paisagem urbana e no debate cotidiano.
Programação e participação
Além da visita mediada no dia 7 de março e da palestra no Dia Internacional da Mulher, a programação inclui a oficina “Arpilleras de si”, que convida participantes a transformar memórias e experiências em bordado. Ao final, o processo coletivo integra a própria exposição. Assim, o público deixa de ocupar posição passiva e passa a construir narrativa junto à artista.
8 de março: memória de luta, não vitrine comercial
O Dia Internacional da Mulher nasceu de mobilizações por direitos trabalhistas e igualdade política. Entretanto, o mercado frequentemente esvazia essa origem e substitui reivindicação por marketing. A mostra no CCBB BH tensiona essa contradição.
Em vez de flores, oferece denúncia. Em vez de exaltação simbólica, propõe reflexão concreta. Portanto, diante de uma sociedade que ainda naturaliza desigualdades, a exposição reafirma que o 8 de março não representa celebração. Representa luta contínua — e, sobretudo, memória ativa das mulheres que costuraram resistência muito antes de qualquer homenagem oficial.




